O Bolsa Família passou a pagar um piso de R$ 691 por família e terá calendário unificado também em novembro e dezembro. O governo adiantou os depósitos de outubro e concluiu o pagamento reajustado na quarta-feira (21), quatro dias antes do segundo turno, que Lula (PT) venceu neste domingo (25) com 64.241.786 votos — 59.818.887 foram para Flávio Bolsonaro (PL).
O reajuste é de 15,04%, o primeiro do atual mandato. A correção foi fixada pelo Decreto 13.120, publicado em edição extra do Diário Oficial da União em 17 de setembro, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. A norma corrige os valores pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulada entre março de 2023 e agosto de 2026, e o benefício médio estimado subiu de R$ 675 para R$ 777, como o jornal mostrou quando o anúncio saiu.
Como o valor do benefício é calculado?
Os R$ 691 não são um valor fixo pago a todos: o programa soma parcelas conforme a composição de cada família — um valor por pessoa, um adicional por criança pequena e outro por gestante, nutriz ou jovem. Quando essa soma fica abaixo do piso, o Benefício Complementar cobre a diferença até chegar aos R$ 691. Os valores de cada parcela também foram corrigidos em outubro.
Quando cai o pagamento de novembro?
O Ministério do Desenvolvimento Social ainda não divulgou as datas de novembro. O que está definido é o modelo: o calendário segue unificado, com todos os finais de NIS recebendo no mesmo dia, e a medida vale para novembro e dezembro, os dois meses de maior risco do El Niño. Em outubro, o pagamento ficou assim: NIS final 1 em 19 de outubro, final 2 em 20, e finais 3 a 9 e 0 todos em 21 de outubro.
Municípios em situação de emergência ou calamidade reconhecida pelo governo federal têm regra própria e recebem todos no primeiro dia do calendário, como aconteceu em 19 de outubro. O cronograma normal, que distribui os depósitos pelos últimos dez dias úteis do mês conforme o NIS, terminaria em 30 de outubro — metade das famílias só receberia depois da eleição.
Por que o governo antecipou o pagamento?
A justificativa oficial é o super El Niño. Nota do ministério afirma que a unificação é “medida preventiva para mitigar os efeitos do super El Niño sobre as famílias mais vulneráveis”, com base no Boletim nº 4 do Painel El Niño 2026–2027, que prevê menos chuva no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste e mais chuva no Sul. A decisão passou pelo Comitê Permanente para Respostas de Proteção Social em Situações de Calamidades Públicas e Emergências (CCPE). O ministério cita um precedente: em maio de 2024, nas enchentes do Rio Grande do Sul, unificou o pagamento para as famílias dos 497 municípios gaúchos, e afirma que a antecipação amplia a capacidade das famílias de se prepararem para seca, escassez hídrica e inundações.
O calendário eleitoral correu em paralelo. O aumento foi anunciado em 17 de setembro, 17 dias antes do primeiro turno, e a antecipação ficou pronta na semana da votação decisiva. No domingo (25), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin prorrogou a votação até as 19h, decisão endossada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, depois que eleitores relataram falta de ônibus em várias cidades.
Onde Lula cresceu?
Lula avançou mais nas cidades que dependem menos do Bolsa Família. Um levantamento que dividiu os municípios em três faixas de dependência do programa mostra que, no grupo com até 25% da população beneficiária, o petista passou de 42,7% dos votos, em 2022, para 44,2% neste ano. Na comparação com o primeiro turno, o ganho nesse grupo foi de 7,2 pontos percentuais.
O peso dessas cidades explica a virada: elas concentraram 62,4% dos votos válidos do segundo turno, e o desempenho ali respondeu por 5,6 milhões de votos a mais. Os municípios mais dependentes do programa — onde mais de metade da população recebe o benefício — pesaram apenas 8,3% dos votos válidos.
Neles, o percentual de Lula é maior do que nas outras faixas, mas recuou no primeiro turno: de 71,5%, em 2022, para 68,7%, em 4 de outubro. O levantamento, compilado com 99,9% das urnas apuradas, não estabelece correlação entre o Bolsa Família e o voto de cada candidato — ele apenas compara o desempenho nas áreas mais e menos dependentes do programa.
O aumento é permanente?
Os R$ 691 valem enquanto vigorar o Decreto 13.120. A Lei 14.601/2023, que instituiu o modelo atual do programa, autoriza o Executivo a corrigir os valores em intervalos de no máximo 24 meses e proíbe a redução. Um novo aumento depende, portanto, de outra norma — não existe reajuste automático.
Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro fez movimento parecido às vésperas da eleição: subiu o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, alta de 50%, por meio da proposta de emenda à Constituição apelidada de “PEC Kamikaze”. O valor extra foi pago entre agosto e dezembro daquele ano. Lula manteve os R$ 600 ao assumir o Palácio do Planalto.
Para receber, a família precisa manter o Cadastro Único (CadÚnico) atualizado e cumprir as condicionalidades de saúde e educação — frequência escolar, vacinação em dia e acompanhamento pré-natal. O calendário de outubro, com as datas por final de NIS, foi publicado nesta reportagem.