Ex-deputado por Alagoas condenado como mandante da Chacina da Gruta voltou aos assuntos mais comentados após André Janones sugerir a busca; em 1999, Bolsonaro discursou contra a cassação do então colega de Câmara
O nome de Talvane Albuquerque voltou ao centro do debate público nesta quinta-feira (22), depois que o deputado André Janones (Rede-MG) orientou eleitores inscritos no canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, a pesquisar a relação entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-deputado alagoano. A expressão “Bolsonaro Talvane Albuquerque” chegou aos trending topics do X e resgatou um episódio de 1999: o voto e o discurso de Bolsonaro contra a cassação de um parlamentar acusado de encomendar o assassinato de uma colega para assumir sua cadeira na Câmara.
Quem é Talvane Albuquerque
Médico de formação, Talvane Albuquerque foi deputado federal por Alagoas e ocupava a condição de primeiro suplente da coligação encabeçada por Ceci Cunha (PSDB). Derrotado nas urnas, ele assumiu a vaga justamente após a morte da titular — a parlamentar que, segundo as investigações, ele mandou matar.
O crime: a Chacina da Gruta
Em 16 de dezembro de 1998, a deputada Ceci Cunha foi assassinada a tiros em Maceió, poucas horas depois de receber o diploma eleitoral pela reeleição. Na mesma ação foram mortos o marido dela, Juvenal Cunha, e outros dois familiares, Iran Carlos Maranhão e Ítala Maranhão. O episódio ficou conhecido como Chacina da Gruta, em referência ao bairro da capital alagoana onde ocorreram os homicídios.
As investigações apontaram Talvane como mandante: ele teria contratado os executores para eliminar a titular eleita por sua coligação e, assim, garantir o retorno à Câmara. A ligação com o pistoleiro Maurício Guedes Novais, conhecido como “Chapéu de Couro”, foi um dos elementos centrais do caso.
A condenação
Em janeiro de 2012, quase 15 anos após o crime, o Tribunal do Júri da Justiça Federal em Alagoas condenou Talvane Albuquerque a 103 anos e quatro meses de prisão pelos quatro homicídios. Outros quatro acusados também receberam penas pela participação na chacina. A condenação foi mantida pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) em maio de 2013. Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reviu o cálculo da pena e reduziu a condenação para 92 anos, nove meses e 27 dias, mantendo-a pelos assassinatos.
A cassação de 1999 e o voto de Bolsonaro
Em 7 de abril de 1999, sob a presidência de Michel Temer, o plenário da Câmara apreciou a cassação do mandato de Talvane Albuquerque por quebra de decoro parlamentar, motivada pelos contatos mantidos com o pistoleiro investigado. O resultado: 427 votos favoráveis à cassação, 29 contrários, 21 abstenções e um voto em branco.
Jair Bolsonaro, então deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro, integrou o grupo de 29 parlamentares que se posicionaram pela manutenção do mandato. Como a votação foi secreta, não é possível identificar formalmente o voto de cada deputado — o posicionamento de Bolsonaro é conhecido, sobretudo, pelo discurso que fez em Plenário naquele dia.
O que Bolsonaro disse
Em seu pronunciamento, o então deputado sustentou que os colegas poderiam cometer uma injustiça caso Talvane fosse posteriormente inocentado e advertiu que “amanhã qualquer um de nós pode estar no lugar dele”. Diante da acusação de que o colega mantinha relação com um pistoleiro, Bolsonaro questionou: “Mas quem aqui nunca teve contato ou conversou com um marginal?”.
O deputado também procurou separar sua posição sobre o processo disciplinar de uma suposta defesa dos crimes: “Não estou defendendo um marginal nem quero acusar um inocente de absolutamente nada”, afirmou.
Apesar do apoio registrado em Plenário, o mandato de Talvane foi cassado. Mais de uma década depois, a suspeita que o Parlamento acolheu em 1999 seria confirmada pela Justiça Federal.
A relação, em resumo
- Vínculo institucional: os dois foram colegas de Câmara dos Deputados no fim dos anos 1990.
- Posição de Bolsonaro em 1999: votou e discursou contra a cassação de Talvane, cassação que foi aprovada por 427 votos.
- Sem acusação contra Bolsonaro: não há, nas fontes consultadas, qualquer imputação de participação de Bolsonaro no crime. O que o caso registra é o voto e o discurso contrários à perda do mandato.
- Reativação em 2026: o episódio voltou a circular após a convocação de Janones para que a busca “Bolsonaro Talvane Albuquerque” fosse feita no Google.