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Bolsa chega a cair 17% e dólar abre a R$ 5,60: pior dia seguinte de eleição desde 1994

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Telões com cotações de ações e operadores de costas no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo, em imagem de arquivo – Rafael Matsunaga/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Ibovespa despencou no primeiro pregão depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a B3 interrompeu as negociações pelo mecanismo conhecido como circuit breaker — pela primeira vez na história por causa de um resultado eleitoral. Às 10h46, o índice chegava a cair 16,98%, aos 170.461 pontos, depois de abrir na faixa dos 204 mil, e o dólar abria em alta de 12,52%, a R$ 5,60. Foi o pior dia seguinte de uma eleição desde 1994, início da série histórica.

Lula venceu Flávio Bolsonaro (PL) com 51,79% dos votos e conquistou o quarto mandato. O mercado havia se posicionado para o cenário oposto: as pesquisas de segundo turno apontavam o senador à frente, e fundos compraram ações e reais nas semanas anteriores apostando numa troca de governo.

Por que a Bolsa caiu 17% nesta segunda

A queda é um ajuste de expectativas, não uma reação ao resultado em si. Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que o valor de mercado das empresas listadas cresceu R$ 515 bilhões nos 13 primeiros pregões de outubro, alta de 10,02% e o quarto maior avanço mensal desde 2020.

Para Gabriel Magno, sócio da AW Capital, o investidor estrangeiro cortou a expectativa de anos mais “racionais” no controle de gasto e no perfil da dívida pública. Camilo Marcantonio, da Charles River Capital, lembra que, em 5 de outubro, dia seguinte ao primeiro turno, os juros futuros chegaram a recuar mais de 130 pontos-base — movimento que esta segunda desfaz. No domingo à noite, horas antes da abertura dos mercados, Flávio Bolsonaro disse que não reconhece o resultado e vai pedir a anulação da eleição.

O que é circuit breaker e por que ele parou o pregão

O mecanismo existe desde 1997 e interrompe as negociações quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior: a pausa é de 30 minutos. Se, depois da reabertura, a queda chega a 15%, a paralisação é de uma hora. A 20%, a B3 define o prazo — nesta segunda, informou que uma nova interrupção duraria 15 minutos, com reabertura em leilão de 5 minutos.

A B3 acionou o freio antes da abertura do mercado à vista, com base nos preços indicativos, que apontavam queda superior a 20%. Ficaram parados por meia hora ações à vista, renda fixa privada, opções, BDRs e ETFs. Foi a primeira interrupção desde março de 2020, no início da pandemia de Covid-19.

Uma eleição já tinha parado a Bolsa antes?

Não. Desde 1997, o freio foi acionado em crises como a asiática (1997), a russa (1998), o abandono das bandas cambiais (janeiro de 1999), a quebra do Lehman Brothers (2008), o Joesley Day (2017) e a pandemia (2020) — mais de 20 interrupções, nenhuma delas causada por um resultado eleitoral.

Variação do Ibovespa no primeiro pregão depois da eleição presidencial, em relação ao fechamento anterior — Fonte: série histórica do Ibovespa
Eleição Ibovespa
1994 · FHC −2,72%
1998 · FHC reeleito −4,48%
2002 · Lula −4,40%
2006 · Lula reeleito −1,09%
2010 · Dilma +1,26%
2014 · Dilma reeleita −2,77%
2018 · Bolsonaro −2,24%
2022 · Lula +1,31%

Na série do índice, o pior dia seguinte tinha sido 1998, quando Fernando Henrique Cardoso foi reeleito e o Ibovespa recuou 4,48% — cerca de um quarto do tombo desta segunda.

Isso é pressão do mercado?

O mercado não premia o candidato de sua preferência: ele cobra o que não estava no preço. Em 2010, Dilma Rousseff venceu e o Ibovespa subiu 1,26%. Em 2018, Jair Bolsonaro, o candidato elogiado por investidores, ganhou e o índice caiu 2,24%. Em 2002, na primeira vitória de Lula, a Bolsa recuou 4,40%.

O que muda o humor não é o partido, e sim o sinal sobre as contas públicas. Gustavo Rostelato, da Armor Capital, previa dólar a R$ 5,30 logo nos primeiros dias. Marcelo Mello, da SulAmérica Investimentos, trabalha com R$ 5,10 a R$ 5,20 e diz que a moeda vai oscilar “conforme a ortodoxia que for anunciada”. A cobrança tem âncora na lei do regime fiscal sustentável, a Lei Complementar 200 de 2023: a despesa primária só pode crescer 70% do que crescer a receita, e apenas se a meta de resultado primário do ano anterior tiver sido cumprida.

Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5, vê o ajuste de 2027 como inevitável, com famílias endividadas e dívida pública a exigir contenção de despesas. “O Brasil está nesse resto do mundo que vê o capital disponível reduzido”, diz.

Por que Embraer, Vale e Suzano subiram

Enquanto o índice desabava, três exportadoras operavam no campo positivo: Suzano, Embraer e Vale subiam entre 6,6% e 8,1%. Quem recebe em dólar e paga parte dos custos em reais ganha com a desvalorização, porque cada dólar de receita vira mais reais na contabilidade local.

PREGÃO DE 26 DE OUTUBRO Ibovespa −16,98% às 10h46 170.461 pontos B3 parou o pregão Exportadoras +8,13% Suzano +6,75% Embraer +6,67% Vale Fonte: B3 e cotações do pregão de 26/10/2026

A Vale registrou receita líquida de US$ 38 bilhões em 2025, cerca de R$ 215 bilhões. A Embraer projeta entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões em 2026, algo como R$ 46 bilhões. A Suzano vende celulose em dezenas de países e informa que sua geração de caixa operacional é denominada em dólar. Nenhuma das três está imune: dívidas e contratos de proteção cambial também pesam.

O que o dólar e os juros fazem com o seu bolso

O dólar caro encarece insumo importado, combustível e alimento com preço definido lá fora. O repasse chega, com atraso e de forma desigual entre os produtos. O IPCA já acumulava 3,95% até setembro, com alta de 0,82% só naquele mês, segundo o IBGE.

O crédito sente pelo outro lado. Os juros futuros — o que o mercado cobra para emprestar ao governo — saltaram: o DI para janeiro de 2028 foi a 14,915%, alta de 206 pontos-base, e o de 2035, a 15,375%. Os dois estão acima da Selic, de 13,75% ao ano, o que significa aposta em juro ainda mais alto. Cartão, cheque especial e financiamento acompanham esse movimento, e é o ajuste dos próximos anos que decide quando ele cede.

Redação Cria Brasil
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Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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