De página anônima a 1,1 milhão de seguidores: o Jabuti de Pedro Pacífico

Advogado formado pela USP, Pedro Pacífico criou o @bookster como página anônima em 2017 e recebeu na terça-feira (27) o Prêmio Jabuti na categoria Incentivo à Leitura — Cultura Digital.

O advogado Pedro Pacífico, criador do perfil @bookster, recebeu na terça-feira (27) o Prêmio Jabuti na categoria Incentivo à Leitura — Cultura Digital. A entrega foi feita pelo jogador Gustavo Scarpa, outro apaixonado por livros. A página que ele mantém no Instagram reúne mais de 1,1 milhão de seguidores e virou seu trabalho em tempo integral.

A rotina dele até 2017 apontava para outro caminho. Aos 24 anos, com diploma de direito pela Universidade de São Paulo (USP), atuava no contencioso estratégico do escritório onde havia acabado de ser efetivado quando decidiu criar, sem pretensão, um perfil sobre literatura. O hábito de ler tinha sido retomado na faculdade.

A página nasceu anônima. Ele bloqueou os conhecidos um por um e contou apenas à namorada da época. De dia, despachava com juízes, participava de reuniões de terno e gravata e redigia petições com vocabulário jurídico. À noite, publicava resenhas. “Era muito estranho, porque eu tentava fazer essa distinção entre o Pedro advogado e o Pedro bookster. Só depois fui entender que tenho múltiplos interesses e não precisava me dividir”, diz.

As resenhas começaram a atrair gente que não sabia por onde iniciar na literatura. “Meu objetivo sempre foi apresentar novas leituras e incentivar as pessoas a lerem”, explica. Ele próprio se sentia perdido diante das estantes e recorria às listas de mais vendidos. Foi conversando com livreiros e acompanhando outros influenciadores que chegou a autores prediletos, como Valter Hugo Mãe.

O anonimato durou até a página alcançar cerca de 10 mil seguidores. Um amigo descobriu o perfil e espalhou o segredo num grupo de WhatsApp. “Brinco que foi a minha primeira saída do armário”, afirma.

A segunda veio em 2020. Pouco antes da pandemia, ele terminou o namoro, começou a namorar um homem e contou à família e às pessoas mais próximas que era gay. Dez meses depois, levou a novidade aos seguidores em um vídeo. Mais de 5 mil pessoas deixaram de acompanhar o perfil. “Sempre soube que iria postar esse vídeo. Era uma forma de agradecer à literatura e encorajar outras pessoas a se aceitarem”, sustenta.

O número de seguidores subiu em ritmo constante: 15 mil no fim de 2017, 110 mil dois anos depois. O volume de leitura acompanhou o crescimento — ele, que lia cerca de dez livros por ano, passou a devorar pelo menos cinquenta. As fotos de livros com resenhas deram espaço a vídeos de recomendações, enquetes interativas, dicas de filmes e registros de viagens a livrarias e lugares ligados à literatura pelo mundo, além de conteúdos publicitários.

O contato com os livros também mudou a forma como ele enxerga a diferença. “Cresci em um ambiente em que todo mundo era igual, tanto na escola quanto no direito. Por muitos anos, tentei desesperadamente me encaixar”, diz. O incômodo com o pouco espaço da literatura na conversa pública aparece em outra fala: “Me dava aflição, porque a literatura estava me fazendo tão bem, mas sentia que não se falava tanto sobre ela quanto se deveria.”