Última atualização: 28 de outubro de 2026, 11h45
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na segunda-feira (26) que a eleição brasileira “pareceu fraudada” e apontou como motivo a prorrogação do horário de votação, que classificou como “muito estranha”. O vice-presidente reeleito Geraldo Alckmin respondeu que a opinião é “totalmente equivocada” e que não se interfere na política de outro país. A prorrogação criticada por Trump foi pedida também pelo PL, partido do candidato derrotado Flávio Bolsonaro.
O que Trump disse sobre a eleição brasileira
Em conversa com jornalistas, Trump afirmou: “Acho que pareceu ruim a eleição, o jeito que foi organizada, com a prorrogação. Muito estranho”. Ele não detalhou o que, na organização do pleito, teria produzido a impressão de fraude.
Perguntado se poderia fazer algo em relação à eleição brasileira, respondeu que não governa o Brasil. “Eu não governo o Brasil, eu governo os Estados Unidos. Eu só pensei que a eleição foi… eu gosto do Lula, me dou muito bem com ele.” O presidente dos EUA disse ainda que não escolheu lado na disputa e que apenas acompanhou o processo eleitoral.
Por que a votação foi prorrogada até as 19h
A extensão foi decidida no domingo (25) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, em resposta a uma ação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na decisão, o ministro registra que os relatos chegaram ao STF às 16h23min49s e determina “prorrogação por até duas horas, até às 19h, horário de Brasília, do encerramento do recebimento dos votos em todas as seções do Brasil, cabendo ao TSE dar cumprimento”.
Foi a primeira vez na história que o horário de uma eleição brasileira foi estendido. O motivo foram os problemas no transporte coletivo em pelo menos sete estados, registrados pelo Ministério da Justiça: Bahia, São Paulo, Piauí, Sergipe, Pará, Alagoas e Rio de Janeiro. A liminar saiu às 16h32, sem tempo hábil para avisar todas as seções — as que já haviam fechado não precisaram reabrir. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) interrompeu a totalização às 17h06, com menos de 1% das seções apuradas.
Quem pediu a prorrogação
O pedido não partiu só da campanha de Lula. O PL, de Flávio Bolsonaro, também solicitou a extensão do horário, citando as chuvas fortes no Sul do país como obstáculo para os eleitores chegarem às seções. Duas campanhas adversárias pediram o mesmo prolongamento da votação que Trump classificou de “muito estranho”.
Lula foi reeleito com mais de 64 milhões de votos, e Flávio somou 59,8 milhões. O senador declarou que não reconhece o resultado e pediu a anulação do pleito, posição registrada em reportagem do JEP sobre o discurso dele após a derrota. Em 24 de setembro, 31 parlamentares democratas dos Estados Unidos enviaram carta à Casa Branca acusando o governo Trump de um “esforço coordenado” para influenciar a eleição brasileira; a carta citou o tarifaço e a tentativa de aplicar a Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do STF.
O que Alckmin respondeu a Trump
Em entrevista a uma emissora do interior de São Paulo, Alckmin rebateu: “Totalmente equivocada, né? Primeiro, não se interfere na política de outro país. Isso é uma regra basilar. Segundo, não tem nenhum referencial para dizer isso. O Brasil é um exemplo para o mundo, de urna eletrônica, segurança jurídica. Democracia você ganha eleição, você perde. É o povo que decide”.
Sobre o tarifaço dos Estados Unidos, que inviabilizou a entrada de produtos brasileiros no país, o vice-presidente disse que a negociação continua depois da eleição. “Estamos abrindo o mercado, fizemos acordo Mercosul-Singapura, Mercosul-União Europeia e estamos bem encaminhados para um acordo Mercosul-Canadá. Mesmo com o tarifaço batemos recorde de exportação.”
O que aconteceu em Salvador e no Distrito Federal
Os problemas de transporte atingiram também a estrutura da votação. Em Salvador, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) determinou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, pela redução da frota de ônibus em mais de 50% em relação à dos dias úteis, conforme o JEP mostrou no domingo. A prefeitura informou que ele está em Paris e que as interrupções foram necessárias para retirar adesivação política clandestina de veículos.
No Rio de Janeiro, eleitores do bairro do Flamengo, na Zona Sul, que tentaram votar depois das 17h receberam declaração de comparecimento sem voto. No Distrito Federal, a prorrogação não foi cumprida porque as seções já haviam encerrado antes da decisão, segundo o secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do TRE-DF, Andrey Bernardes. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que o tribunal contornou as dificuldades de última hora: “Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial. Então temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”.

Transporte gratuito no dia de votação: o que o Senado analisa
O Senado pode votar uma proposta de emenda à Constituição que garante transporte coletivo gratuito nos dias de eleição, no primeiro e no segundo turno. A PEC 38/2022, apresentada por Rogério Carvalho (PT-SE) e outros senadores, alcança ônibus urbanos, semiurbanos, intermunicipais e interestaduais, além do transporte aquaviário.
O relator é Jorge Kajuru (PSB-GO). Em 2023, o STF decidiu que o poder público tem o dever de oferecer o transporte gratuito nos dias de votação, mas a decisão ainda precisa de regulamentação. Para virar regra, a PEC precisa de dois turnos no plenário do Senado, com apoio de ao menos 49 senadores em cada um, e depois passa pela Câmara dos Deputados.