Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, morreu nesta quarta-feira (28), aos 70 anos, em Porto Alegre. O comentarista esportivo estava internado no Instituto de Cardiologia, onde tratava uma infecção pulmonar que evoluiu para um quadro generalizado. Ele deixa a esposa, Kátia, as filhas Michelle e Karine e três netos, João Vitor, Manoela e Eduarda.
A internação foi confirmada na terça-feira (27). Na ocasião, a empresa em que ele trabalhava informou que acompanhava o estado de saúde do comunicador e prestava apoio à família, sem detalhar o quadro clínico. Os colegas do “Sala de Redação” foram ao ar naquele dia pedindo que o público torcesse por ele.
Em nota, o grupo de comunicação classificou Guerrinha como “um dos mais celebrados comentaristas esportivos do Rio Grande do Sul” e disse que ele era “uma referência dentro e fora” da empresa, “tendo o bom humor como uma de suas marcas”.
Quem era Guerrinha
Guerrinha era o comentarista que transformou o rádio esportivo gaúcho em conversa de botequim e fez colorados e gremistas rirem da mesma piada. Nascido em Porto Alegre, era filho da funcionária pública Ieda e do rádio-ator Adroaldo Guerra, o “Vovô Guerra”, conhecido por apresentar um programa infantil. “Meu pai foi artista, meu pai fazia novela e ficou conhecido como vovô Guerra pela festa com as criancinhas. Eu entrava na redação e diziam que eu era o filho do vovô”, lembrou.

Do pai herdou o gosto pelo turfe. Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), publicou os primeiros textos em 1970, no Jornal Hoje, criado naquela década e de vida curta. Depois, acompanhou o cotidiano do Jockey Club para a Folha da Manhã e para o Correio do Povo, da extinta Caldas Júnior.
O retorno à empresa em que faria carreira aconteceu em 1983, a convite de Emmanuel Mattos, para escrever sobre corridas de cavalo no principal jornal do grupo. Ele dizia que ganhou o espaço porque ninguém queria cuidar do assunto.
Do Jockey Club ao microfone do rádio
O espaço do turfe encolheu até desaparecer, em 1993. Guerrinha migrou para o futebol e assumiu a cobertura do Internacional, seu time do coração. Os microfones da Rádio Gaúcha chegaram em 1999; no ano seguinte, ele estreou a coluna “Guerra Total”.
Em 2004, foi chamado para cobrir as férias de Kenny Braga no “Sala de Redação” e não deixou mais a bancada do programa. Dez anos depois, o “Paredão do Guerrinha” ganharia versão em podcast.
Na bancada, virou um dos participantes mais queridos da audiência: falava de Inter e Grêmio sem perder a piada e ampliou o alcance nas redes sociais, onde os cortes das tiradas circulavam fora do Rio Grande do Sul.
O que o projetou, porém, foi a frase. Tiradas como “não dá para servir farofa em restaurante com ventilador de teto” atravessaram o rádio e as redes, e a coleção virou livro: “As Mortas do Guerrinha” reúne mais de 250 delas.
O que é a “infecção generalizada”
O quadro que matou o comentarista — uma infecção pulmonar que evoluiu para infecção generalizada — é o que o Ministério da Saúde chama de sepse. A pasta descreve a doença como uma condição grave que, sem tratamento precoce, se espalha pelo corpo, afeta o sistema imunológico e dificulta o funcionamento dos órgãos, podendo levar à parada cardíaca e à falência múltipla.
Pneumonia, infecção urinária e infecção abdominal estão entre os focos mais comuns. O ministério estima ao menos 11 milhões de mortes por sepse a cada ano no mundo. Idosos acima de 65 anos, crianças de até 1 ano e pessoas com doenças crônicas, como insuficiência cardíaca, insuficiência renal e diabetes, formam os grupos de maior risco.
Febre muito alta, respiração acelerada, confusão, agitação, dificuldade para respirar, queda de pressão e diminuição da quantidade de urina pedem atendimento imediato: as primeiras horas são as mais decisivas para o tratamento. O Sistema Único de Saúde (SUS) atende esses casos de forma integral e gratuita. Mortes por pneumonia em áreas pobres de São Paulo já foram tema de reportagem do JEP.
Inter e Grêmio lamentam
Os dois clubes de Porto Alegre se manifestaram nesta quarta-feira. O Internacional lamentou a morte e chamou Guerrinha de jornalista histórico; o Grêmio afirmou que ele era respeitado por todas as torcidas. Entre colegas de bancada, a definição que pegou foi outra: poeta popular.
Para quem acompanha o futebol gaúcho, a despedida também reacende a memória de outras vozes que saíram do ar — como a de Cid Moreira, que morreu em 2024, aos 97 anos.
Velório nesta quarta-feira, na Azenha
O velório será nesta quarta-feira (28), no Crematório Metropolitano, na avenida Oscar Pereira, 584, bairro Azenha, em Porto Alegre. A cerimônia aberta ao público vai das 14h às 19h. Antes desse horário, a despedida é restrita à família.