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Heliópolis: a cidade do sol que nasceu de um endereço provisório

A história de Heliópolis começa com um endereço provisório. Em abril de 1972, a prefeitura de São Paulo retirou 153 famílias da antiga favela da Vila Prudente e as levou para um terreno a oito quilômetros do centro. Naquele momento, ninguém esperava que aquilo durasse.

Mas durou mais de cinquenta anos. Assim, hoje aquele terreno do antigo IAPAS abriga a maior favela da cidade: são mais de 100 mil habitantes em quase um milhão de metros quadrados. Além disso, desde 2006 o local tem status oficial de bairro, a Cidade Nova Heliópolis.

Cidade do sol: duas origens para o nome

Heliópolis vem do grego. A junção de hélios, sol, com pólis, cidade, forma exatamente “cidade do sol”. Inclusive, é essa a versão que os dicionários registram.

Existe, porém, uma segunda memória. Conforme registros da prefeitura, os primeiros moradores teriam vindo do município de Heliópolis, no interior da Bahia. Desse modo, o nome teria se firmado no início de 1972, pela origem de quem chegou primeiro.

Assim, as duas versões convivem. Uma é etimológica; a outra é da migração. Portanto, para a história de Heliópolis, ambas apontam para o mesmo gesto: um lugar que se nomeia pela esperança.

A terra que era para ser outra coisa

Em 1942, a área foi comprada pelo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI). A princípio, a intenção era simples: construir casas para os associados. Vinte e quatro anos depois, entretanto, a unificação dos institutos no INPS mudou o plano, e a gleba passou ao IAPAS.

Em abril de 1969, o IAPI inaugurou ali o Hospital Heliópolis e o Posto de Assistência Médica, hoje Ambulatório Médico de Especialidades. Em 1978, porém, parte da área foi desapropriada para a Estação de Tratamento de Esgotos do ABC e passou à Sabesp. A estação, no entanto, só entraria em operação vinte anos mais tarde.

Ou seja: a história de Heliópolis se cruzou com o planejamento da cidade várias vezes. Quase sempre, porém, na condição de consequência.

1972: o endereço provisório

A remoção aconteceu na gestão do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz. Na época, aliás, a favela da Vila Prudente e do Vergueiro, na região da Chácara Klabin, era a maior de São Paulo.

No terreno novo, as famílias encontraram casas geminadas e banheiros coletivos. O poder público, então, tratava aquilo como passagem. A vida real, porém, tratou como casa: em pouco tempo, os barracos já eram revendidos.

Além disso, outros moradores chegaram por conta própria. Trabalhadores da obra do Hospital Heliópolis acabaram ficando. Gente das metalúrgicas do ABC também se instalou ali, porque o aluguel não cabia no salário. Entretanto, o país atravessava uma crise de moradia popular.

Segundo o IBGE, 92% da população do bairro tem origem nordestina. Boa parte está ali desde a década de 1970. Portanto, a cidade do sol em São Paulo é, em grande medida, uma cidade do sertão.

Como a história de Heliópolis virou a de um bairro

Por volta de 1984, as casas ainda subiam em regime de mutirão. Afinal, faltava praticamente tudo: iluminação, rede de esgoto e ruas asfaltadas. Era o barro, então, que obrigava os moradores a cuidar da roupa com atenção redobrada.

Assim vieram água, luz e, mais tarde, o direito à terra: da organização dos moradores. A Unas, União de Núcleos e Associações de Moradores de Heliópolis, virou uma das principais lideranças do processo.

Os números de hoje mostram uma urbanização que chegou, mas de forma desigual. O abastecimento de água cobre 83% dos domicílios; o esgoto, 62%; a rede elétrica, 94% das casas. Por fim, a pavimentação chega a 97% das vias.

Com a urbanização, veio, por conseguinte, a valorização. Um imóvel de dois quartos, sala e cozinha que se alugava por 280 reais em 2002 custava mil reais em 2012. No mesmo intervalo, o preço de venda saltou de 20 mil para 100 mil reais. Em alguns pontos, a alta chegou a 90%.

Seis fatos curiosos sobre Heliópolis

Afinal, a história de Heliópolis guarda detalhes que quase ninguém conhece. Além disso, alguns deles explicam muito sobre a cidade.

  • Uma rádio que tocava por cornetas. Entre 1992 e 1997, a Rádio Heliópolis transmitia a programação por cornetas penduradas em postes nos pontos centrais do bairro. A emissora comunitária funciona desde 1997. Mesmo assim, só recebeu autorização do Ministério das Comunicações em março de 2008.
  • Prédios redondos assinados por Ruy Ohtake. De fato, os edifícios circulares desenhados pelo arquiteto se tornaram uma das silhuetas mais reconhecíveis do bairro. Por isso, eles chamam a atenção de quem passa pela região.
  • Um museu com 15 mil fontes. Pesquisadores e moradores montaram o Museu Heliópolis digital, em parceria entre a Unas e a UFABC. São cerca de 300 arquivos organizados por temas, como Bairro Educador, Cotidiano e Vivência, Paisagem e Território e Organização Social. Com efeito, o acervo reúne mais de 15 mil fontes documentais: fotos, textos, panfletos e recortes de jornal.
  • A Kombi das Memórias. Antes do museu, o projeto usou uma Kombi como estúdio itinerante de gravação. Assim, o veículo registrou depoimentos de moradores em vídeo.
  • Um roteiro visitado pelo mundo. Em março de 2008, delegações de Lagos, La Paz, Cairo, Manila e Ekurhuleni estiveram em Heliópolis. Vieram conhecer o traçado urbanístico e o modelo de uso do espaço público. Assim, o bairro passou a integrar o roteiro internacional de estudos sobre urbanização.
  • A estação que atrasou duas décadas. A área cedida à Sabesp em 1978 só entrou em operação vinte anos mais tarde. O episódio, portanto, resume o ritmo com que a infraestrutura chegou à periferia.

O que Heliópolis é hoje

O bairro ocupa 14 glebas entre o Sacomã e o Ipiranga, na Zona Sul. Fica a oito quilômetros do centro e encosta em São Caetano do Sul, na divisa marcada pelo rio Tamanduateí.

A localização explica o crescimento rápido. Heliópolis está perto da Rodovia Anchieta, da Avenida do Estado e da Estação Sacomã, da linha 2-Verde do metrô.

Hoje, inclusive, o bairro tem ETEC, shopping, delegacia, escolas, quadras, praças, biblioteca, banheiros públicos, farmácias, pet shops e o Hospital Heliópolis. O transporte público, porém, não entra em algumas ruas, estreitas demais. É nas vias principais, como Estrada das Lágrimas, Avenida Almirante Delamare, Rua Coronel Silva Castro e Rua Cônego Xavier, que a vida se conecta com o resto da cidade.

A cultura também virou marca do lugar. Em outubro, o Baccarelli comemorou 30 anos com shows em Heliópolis. Antes disso, a Orquestra de Heliópolis levou a periferia ao Theatro Municipal.

A história de Heliópolis virou oficialmente a de um bairro em 2006. Na prática, a virada começou bem antes: em cada mutirão, em cada pedido de água e luz, na rádio que saía de uma corneta pendurada num poste. Mais de cinquenta anos depois do endereço provisório, o bairro já não é uma passagem. É uma cidade do sol com endereço fixo.

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Fontes: Cidade Nova Heliópolis (Wikipédia); Museu Heliópolis (Agência Brasil, 2022).

Redação Cria Brasil
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Redação Cria Brasil

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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