Cristiane Gomes da Silva diz que o silêncio do senador sobre a morte da filha, atingida por disparos de fuzil em Niterói em 2021, “foi desesperador”. PM acusado do crime segue sem julgamento, agora marcado para maio de 2027.
A pergunta feita por Lula (PT) a Flávio Bolsonaro (PL) no debate da Band, na noite deste domingo (18), colocou o caso Ana Clara no centro da campanha presidencial — e nas buscas dos brasileiros. Nesta segunda-feira (19), o termo “flavio bolsonaro caso ana clara” entrou no top 3 do Google Trends no Brasil, com mais de 1 milhão de buscas nas últimas 24 horas e crescimento superior a 1.000%.
Ana Clara tinha 5 anos quando foi morta por disparos de fuzil, em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, no Largo da Batalha, em Niterói (RJ). A criança brincava na porta de casa com o irmão, então com 2 anos, quando foi atingida durante uma ação da Polícia Militar. O cabo Bruno Dias Delaroli, apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) como autor dos disparos, é réu pelo crime e responde em liberdade desde novembro de 2021.
Desde 2024, o senador e candidato à Presidência é um dos advogados de Delaroli. Foi ele quem assinou o recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar evitar que o policial fosse levado a júri popular. O pedido foi negado, mas mais de cinco anos depois do crime o julgamento ainda não aconteceu — e a nova data marcada é 5 de maio de 2027.
O que Lula perguntou e o que Flávio respondeu
No primeiro confronto direto do segundo turno, Lula cobrou o adversário sobre a atuação na defesa do policial:
“Você era senador da República e foi interferir para que o policial que matou uma criança de 5 anos com uma bala de fuzil não fosse preso. Me explica por que você fez isso?”
Flávio não respondeu diretamente à pergunta sobre o caso. O senador disse que não se deve “criminalizar a advocacia” e afirmou que Lula já teria condenado o policial antes do julgamento:
“Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento, você já condenou o cara.”
Para a mãe da menina, a resposta não veio. “Foi desesperador ver que Flávio não respondeu a pergunta sobre Ana Clara”, disse Cristiane Gomes da Silva, de 27 anos, à Agência Pública, em entrevista publicada nesta segunda-feira.
O caso Ana Clara: quem era a menina

- Ana Clara Gomes Machado morreu em 2 de fevereiro de 2021, aos 5 anos, em Niterói.
- Ela brincava na porta de casa com o irmão, Pedro, quando foi atingida por disparos de fuzil durante uma ação policial.
- O MPRJ denunciou o cabo Bruno Dias Delaroli por homicídio doloso. A perícia encontrou vestígios de munição calibre 7,62, compatível com o fuzil do policial, e não achou cápsulas de pistola que comprovassem a versão de confronto apresentada pela defesa.
- Delaroli foi preso em flagrante, mas responde ao processo em liberdade desde novembro de 2021, com medidas cautelares.
- O caso ganhou repercussão nacional neste mês após o episódio “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, da série Revelando, do videocast Calma Urgente, apresentado pela atriz Camila Pitanga e produzido em parceria com ICL Notícias, Mídia Ninja e 342 Artes.
A defesa de Flávio e o júri que não acontece
Flávio Bolsonaro ingressou oficialmente na defesa de Delaroli em 2024, quando já era senador. Naquele ano, assinou o recurso ao STJ contra a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) que havia submetido o caso ao Tribunal do Júri — instância responsável pelos crimes dolosos contra a vida.
O STJ negou o pedido e manteve o júri popular. Ainda assim, o julgamento foi sendo adiado. A primeira data marcada era 14 de abril de 2026, dia em que Ana Clara completaria 11 anos. Depois, o júri foi remarcado para 21 de outubro deste ano e, no fim de agosto, transferido para 5 de maio de 2027.
“Disseram que foi adiado novamente porque a juíza terá outro compromisso no dia. Só tem ela de juíza? E precisava jogar para o meio do ano que vem?”, questiona Cristiane.
“Foi desesperador”, diz a mãe
Cristiane tinha 15 anos quando Ana Clara nasceu. Ela conta que acordou com os filhos naquela manhã de fevereiro e que, ao ouvir os disparos, correu para a porta de casa. Segundo seu relato, o policial atirou para o alto sem dizer nada e só prestou socorro após ser repreendido por outro militar.
“Então ele carregou ela de qualquer jeito, pra não manchar a farda de sangue. Tirei minha filha dos braços dele e levei no meu colo. Ela não chorava, não gemia, não gritava. Perto do hospital, abriu os olhos e desceu uma lagrimazinha do olho dela. Pra mim, ela morreu ali”, lembra.
Depois da morte da filha, a família se desestruturou. Cristiane diz ter sofrido ameaças de apoiadores de Flávio nas redes sociais, entrou em crise de pânico e foi despejada da casa onde morava de favor — o proprietário, segundo ela, é bolsonarista. Hoje vive de favor com uma amiga, em Niterói. O filho Pedro, de 8 anos, está morando com a avó e faz acompanhamento psicológico.
Ela também relata dificuldades financeiras. Para enterrar a filha, pegou um empréstimo de R$ 6 mil com um agiota; a dívida chegou a R$ 100 mil. A defesa dela pediu R$ 400 mil de indenização pelo Estado, mas o valor pago foi de R$ 140 mil, usado quase todo para quitar o débito.
“Acordo todos os dias sem minha filha e nunca ouvi um pedido de desculpas do Estado”, diz. “As pessoas não enxergam que sou uma mãe que perdeu uma filha, acham que quero prejudicar o Flávio.”
Cristiane afirma que não é militante de esquerda e que não votou no primeiro turno, por orientação da advogada, devido às ameaças. Mas diz que vai continuar falando sobre o caso: “Quantas vezes forem necessárias, vou gritar o nome de Ana Clara”.
Buscas explodem e hashtag vira pressão
O crescimento das buscas foi imediato após o debate. Além do top 3 no Google Trends, a hashtag #PesquiseOCasoAnaClara se espalhou nas redes sociais nesta segunda-feira, impulsionada por apoiadores do presidente e por perfis que cobram a responsabilização do policial. O caso Ana Clara também foi um dos assuntos mais comentados do dia em portais e nas redes.
A campanha de Lula passou a explorar o episódio, confrontando a atuação do senador com o discurso dele sobre segurança pública.
O que acontece agora
- 23 de outubro: Lula e Flávio se enfrentam no último debate do segundo turno, na TV Globo, após o Jornal Nacional.
- 25 de outubro: segundo turno das eleições presidenciais.
- 5 de maio de 2027: nova data marcada para o júri popular de Bruno Dias Delaroli, réu pela morte de Ana Clara.
Esta reportagem será atualizada caso a defesa do policial ou a assessoria de Flávio Bolsonaro se manifestem sobre os questionamentos feitos pela mãe de Ana Clara e pela campanha de Lula.