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Amoêdo vota em Lula e diz que teme a perpetuação de uma família no poder

João Amoêdo, fundador do Partido Novo, falando em evento
João Amoêdo, um dos fundadores do Partido Novo: em publicação no X, o empresário declarou voto em Lula e disse temer a perpetuação de uma família no poder – Marcello Casal Jr./Agência Brasil

João Amoêdo, um dos fundadores do Partido Novo, declarou nesta sexta-feira (23) que votará em Lula (PT) no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL). A declaração foi publicada no X, a dois dias da votação de domingo (25), e repete a posição que ele assumiu em 2022, quando apoiou o petista e passou a ser criticado dentro da própria sigla.

O anúncio vem embalado por uma ressalva que diz mais sobre o eleitor do que sobre o candidato. “Serei oposição a qualquer um dos dois que vier a ser eleito, mas, entre a irritação com um novo governo Lula e o risco que representa um governo Bolsonaro, fico com a primeira opção”, escreveu o empresário, candidato à Presidência em 2018.

A escolha, na leitura dele, não é entre projetos. É entre graus de contenção. Lula faria o último mandato, sem sucessor definido, com um vice de experiência comprovada na gestão pública e com oposição forte no Senado. Flávio pode disputar a reeleição, tem um vice desconhecido e teria Câmara e Senado extremamente favoráveis, além de aliados nos principais estados.

Fachada do Palácio do Congresso Nacional, em Brasília
Sede do Congresso Nacional, em Brasília: a composição de Câmara e Senado é um dos critérios que Amoêdo usa para comparar os dois cenários – Agência Senado

O raciocínio termina numa frase que resume o argumento: “São alternativas totalmente distintas para quem anseia por renovação em 2030 e teme a perpetuação de uma família no poder”.

O apoio não vem de simpatia pelo governo. Amoêdo lista o que considera erros de Lula: falta de diálogo com quem pensa diferente, indicações de amigos ao Supremo Tribunal Federal (STF), insistência na polarização, um núcleo duro despreparado, irresponsabilidade com as contas públicas e medidas eleitoreiras de mais gasto. “Lula errou do início ao fim do seu mandato”, escreveu, antes de apontar o que chama de maior erro: a candidatura pela quarta vez, com baixa aprovação e limitações da idade.

Contra Flávio, o tom é mais duro. O senador não teria nada que o credencie a governar o país, faltariam postura, credibilidade e competência, e sua passagem pelo Parlamento não teria produzido iniciativas na economia, na segurança ou na educação. “É conhecido apenas pelo sobrenome e pelo envolvimento em inúmeros casos suspeitos: rachadinha, lavagem de dinheiro, proximidade com membros da milícia e com golpistas”, afirmou.

A frase seguinte desloca a eleição para o terreno da impunidade. “Está cercado de conhecidos oportunistas e seu objetivo maior é conceder o indulto ao pai, condenado por tentativa de golpe”, escreveu o fundador do Novo.

Fachada do Supremo Tribunal Federal, em Brasília
Sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasília: as indicações para a Corte e o indulto ao pai de Flávio Bolsonaro aparecem no texto do fundador do Novo – Agência Senado

Esse é o ponto do texto que menos aparece no noticiário eleitoral. O argumento não discute programa de governo: discute herança de poder. Para quem acessa o Estado por fila, concurso e cadastro, a combinação de um sobrenome que abre portas com um indulto que encerra processos descreve um país em que a lei chega em velocidades diferentes conforme o endereço.

A trajetória ajuda a medir o tamanho do gesto. Amoêdo disputou a Presidência pelo Novo em 2018 e teve 2,5% dos votos. Para fundar o partido, doou R$ 4,5 milhões e se tornou o principal nome da sigla. Em 2022, apoiou Lula, foi contestado internamente e, no fim daquele ano, anunciou a desfiliação: “Hoje, com muito pesar, me desfilio do partido que fundei, financiei e para o qual trabalhei desde 2010”.

O empresário afirma que declara o voto porque o silêncio tem custo. “Em 2018 e 2022, declarei o meu voto no segundo turno. Não foram decisões fáceis e sem ônus pessoais, pelo contrário”, escreveu. Não se manifestar, segundo ele, seria aceitar a ideia de um país onde as pessoas não são livres para emitir opinião pelo receio de serem agredidas.

O diagnóstico que sustenta o texto é o de uma eleição decidida pela recusa. “Vamos, mais uma vez, para um pleito a ser definido pela rejeição e não pela escolha”, escreveu. Ele também aponta de onde vem o que chama de raiva nas urnas: “A urna, que deveria ser o momento para definirmos o futuro da nação, tornou-se, para muitos, um momento de expressão de raiva”.

Urna eletrônica brasileira do modelo UE2020 sobre uma mesa branca
Urna eletrônica do modelo UE2020: a votação do segundo turno está marcada para domingo (25) – Antonio Augusto/Secom/TSE

A responsabilidade pela polarização, diz, é dividida. O PT inaugurou o nós contra eles, e o bolsonarismo, que nasceu dentro dessa lógica, a levou a outro patamar. O quadro formado depois do primeiro turno, segundo ele, tornou a preocupação maior do que a frustração.

A publicação não anuncia apoio de campanha, ato ou voto em candidatos a outros cargos. Registra um voto e uma advertência a quem ganhar, no último fim de semana antes de o país decidir, pela terceira vez seguida, entre petismo e bolsonarismo.

Redação Cria Brasil
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Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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