Gideão Idelfonso

FavelaArte em Paraisópolis: silêncio e arte

Nas mãos pra cabeça (2026), de Luiz Carlos Paulino — Bizil. Óleo sobre tela. Exposição Depois do Silêncio — Memória, Sobrevivência e Justiça, FavelaArte Galeria Suburbana, Paraisópolis. Curadoria: Ticano.

Favela e Arte. Por vezes, tive um olhar simplório que não reconhecia a produção artística urbana. Ou, melhor dizendo… faltava-me apurar o olhar para percebê-la. Andando entre becos e vielas da favela, a sensação de imprevisibilidade passa pelo meu corpo em forma de adrenalina. Como cidadãos, nos calamos, aceitamos… que o sistema é assim… que a favela não tem jeito. O silêncio é fuga, embora saiba que também há quem se cale para sobreviver. Percebi que não preciso fugir da favela mesmo estando fora. Preciso olhar pela ótica da realidade nua, crua e viva. Sair fisicamente e continuar pertencendo; olhar para o território sem esconder suas feridas e sem reduzir sua existência a elas.

Uma máscara social nos acompanha na rotina e pode nos afastar de nossas próprias origens. Dentro desse conflito que corrói… a arte revela, imprime. Além de nos transportar, pode ser bela, também crua e viva. O tal dizer e o sentir pela arte. A arte urbana recusa a pílula do esquecimento. Assim como o sol é para todos, a arte deve ser na mesma medida. Raios que marcam o corpo. Marcas de calor, memória, ferida, transformação. A FavelaArte, em Paraisópolis, parece transmitir tudo isso e mais um pouco. Uma conversa com Ticano me ajudou a compreender essa força.

Ao contar a origem da galeria, Ticano relaciona o desejo de ocupar um espaço vazio à história de uma jovem que trabalhava como pedreira e criava arte com materiais que sobravam das obras. Segundo ele, a mídia voltou sua atenção para a adolescente no canteiro de obras, sexualizando sua imagem e deixando sua criação em segundo plano. Havia uma artista ali. O que faltava ao olhar de quem a enquadrava? Essa história me devolve ao começo: a arte já existia, mesmo quando eu não conseguia percebê-la. A galeria surge ligada à necessidade de reconhecer essas criações. Ticano, relata que sua inauguração reuniu cinquenta artistas, aproximados também pelos contatos de seu podcast. A potência periférica ganha corpo nessa rede de pessoas que cria, aproxima e abre portas.

O acesso gratuito e aberto, defendido por Ticano, aproxima a arte da vida dos moradores. No projeto Criando Memórias, ele menciona atividades em que crianças podem tocar obras. Penso na curiosidade de quem se aproxima, experimenta e pergunta. Esse encontro pode deixar marcas e ampliar o que uma criança imagina possível para si. Ticano também relata visitas de pessoas acompanhadas pelo Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS. São diferentes histórias chegando à galeria e encontrando espaço para conviver. Mas manter as portas abertas exige recursos. Na entrevista, ele fala das dificuldades financeiras e da importância de divulgar o espaço e comprar obras. Reconhecer a força da galeria também é considerar as condições de sua permanência e o trabalho dos artistas.

A exposição Depois do Silêncio — Memória, Sobrevivência e Justiça, de Luiz Carlos Paulino, conhecido como Bizil, apresenta 15 obras na FavelaArte, com curadoria de Ticano. Artista visual, jurista e sobrevivente do Massacre do Carandiru, ocorrido em 2 de outubro de 1992, Bizil transforma sua experiência em arte, testemunho e reflexão. São histórias que precisam continuar sendo lembradas e discutidas. Transformar a dor em diálogo não apaga a violência nem torna aceitável o que aconteceu. A arte permite que essa memória encontre outros olhares. Pincel que ecoa vozes. Vozes que já existem, que têm história e encontram na pintura uma forma de circular. Escrever no Jornal Espaço do Povo também participa desse movimento: aproximar quem lê de quem cria e convidar a olhar para o que pulsa em Paraisópolis.

Volto ao sol, aos raios que marcam o corpo. À realidade nua, crua e viva. Penso na emancipação como a possibilidade de escolher caminhos, pular o muro e encontrar novos horizontes. Há muros que limitam nosso acesso à cidade. Há outros que carregamos por dentro, quando aprendemos que certos sonhos e lugares não são para nós. A arte pode abrir uma passagem. Pular o muro, para mim, é ampliar o mundo que posso habitar levando comigo a história de onde vim. E trabalhar para que outros também tenham condições de atravessar. É nessa direção que vejo a FavelaArte: um lugar de encontro que nos ajuda a imaginar outros caminhos. Depois do silêncio… vozes que ecoam. Pincéis que marcam. E o direito de ir além.

Gideão Idelfonso
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Gideão Idelfonso

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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