Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 30 de abril de 2026
✍️ OPINIÃO Este é um artigo de opinião. As ideias expressas são de responsabilidade do autor.

Morte no sábado, samba no domingo

💚 Colaborador Voluntário

Gideão Idelfonso

📅 25 abr 2026 ⏱️ 3 min de leitura

Há não muito tempo, numa conversa de bar, um amigo soltou uma frase dessas que parecem leves só porque vêm sem cerimônia: “na favela é morte no sábado e samba no domingo.” A frase, meio inebriada e descompromissada, não falava de festa. Falava de costume. Ou pior: de naturalização.

Quem cresceu nas favelas brasileiras aprende cedo que a morte não chega como notícia distante. Ela ronda. Mora perto. Às vezes vem de moto, às vezes de camburão, às vezes atravessa a parede em forma de bala perdida — ou de bala achada, ainda que ninguém assuma o alvo.

O chamado Massacre de Paraisópolis é um desses casos que sempre voltam à memória. Na madrugada de 1º de dezembro de 2019, durante o Baile da DZ7, uma noite de música, hedonismo e encontro terminou em pânico e morte. Nove jovens morreram em meio a uma ação da Polícia Militar de São Paulo, vítimas tinham entre 14 e 23 anos de idade.

Relatórios e análises de imagens apontaram que aqueles jovens teriam sido encurralados durante a operação. Não foi apenas correria. Não foi apenas tumulto. O que aparece é a imagem de um cerco: ruas fechadas, corpos em fuga, medo espremido, pisados em vielas estreitas e uma juventude tratada como ameaça antes mesmo de ser reconhecida como gente.

É aí que a frase do bar perdeu qualquer ar de exagero. Na favela, a morte raramente é só acidente. Muitas vezes, ela é empurrada, administrada, justificada e depois arquivada na linguagem fria da “justiça”.

Talvez seja nesse ponto que a ideia de banalidade do mal, de Hannah Arendt, volte a fazer sentido fora dos tribunais da história. Porque o mal nem sempre aparece com rosto de monstro. Às vezes ele veste uniforme, segue protocolo, preenche formulário, assina despacho, aperta o gatilho, muda de rua e continua o baile.

Para uma criança negra e periférica, crescer nesse cenário é aprender cedo demais que a morte tem endereço e cor. A naturalização da violência atravessa a infância: muda a relação com o corpo, com a rua, com a escola, com a polícia, com o futuro e até com o direito de sonhar.

Uma criança que cresce vendo a morte virar rotina não perde apenas vizinhos, amigos ou parentes. Perde pedaços da infância. Aprende a brincar medindo o risco. Aprende a voltar para casa olhando para os lados. Aprende o som do tiro antes de conhecer plenamente o próprio direito à cidade.

Na favela, entre a morte no sábado e o samba no domingo, não há festa diante da tragédia. Há apenas a vida tentando continuar onde a morte já virou rotina.

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Este artigo foi escrito por um colaborador voluntário

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