Coreia do Norte tem 7 títulos mundiais de base, mas nenhum Mundial adulto
Tetracampeã sub-17 e tricampeã sub-20, a Coreia do Norte goleou o Brasil e volta ao Mundial adulto em 2027. Entenda o sistema que produz esses resultados.
O futebol feminino da Coreia do Norte não começou no 6 a 0 sobre o Brasil. A goleada de sábado (7), no Mundial sub-17, é o resultado mais visível de um sistema que já produziu sete títulos mundiais nas categorias de base — quatro no sub-17 e três no sub-20 — e que volta à Copa do Mundo adulta em 2027, no Brasil, depois de 16 anos.
A seleção sub-17 ganhou em 2008, 2016, 2024 e 2025. A sub-20 foi campeã em 2006, 2016 e 2024. Em 2026, a sub-20 ficou com o vice: não sofreu nenhum gol em sete partidas e perdeu o título para a Espanha nos pênaltis, por 3 a 4.
Quantos títulos a Coreia do Norte tem no futebol feminino?
São sete títulos mundiais nas categorias de base. Na seleção adulta, o país tem três Copas da Ásia (2001, 2003 e 2008) e três ouros nos Jogos Asiáticos (2002, 2006 e 2014). O melhor resultado em Copas do Mundo adultas são as quartas de final de 2007.
Por que a Coreia do Norte domina a base?
A base é resultado de um sistema estatal que começa nas escolas e termina em um internato de elite. O futebol feminino no país começou a se organizar em 1985, e a primeira seleção estreou em 1989. A estrutura atual passa por escolas e centros esportivos regionais até chegar à Pyongyang International Football School, criada em 2013 por ordem de Kim Jong-un, que recebe meninos e meninas de 7 a 17 anos.
O método é de volume e repetição. “É drill, drill, drill desde muito cedo, e você simplesmente não consegue competir com elas na base”, disse Colin Bell, ex-técnico da seleção sul-coreana. Ele também cita o fator mental: “Você não consegue simular o desespero”.
O investimento tem função política. O governo trata os títulos como vitória do regime, e cada conquista é celebrada oficialmente. Em maio, o Naegohyang, clube de Pyongyang, venceu a Champions League feminina da Ásia ao bater o Tokyo Verdy Beleza por 1 a 0, com gol de Kim Kyong-yong.
Como está a seleção adulta hoje?
A seleção adulta ocupa o 12º lugar no ranking da Fifa — o pior da história do país, que já foi quinto — e não disputava uma Copa do Mundo desde 2011. Em 2026, chegou às quartas da Copa da Ásia, perdeu para a anfitriã Austrália por 1 a 2 e ficou com a prata nos Jogos Asiáticos, nos pênaltis, contra o Japão.
A vaga para 2027 veio em março, com vitória de 4 a 0 sobre a China Taipé na repescagem. O elenco é jovem: no torneio continental, só três jogadoras tinham mais de 24 anos. Kim Kyong-yong, de 23, e Choe Il-son, de 19, já são titulares.
O que o 6 a 0 diz sobre a distância para o Brasil?
O placar não foi um acidente isolado. O Brasil perdeu os três jogos que fez contra a Coreia do Norte em Mundiais sub-17: 1 a 0 em 2016, 2 a 0 na semifinal de 2025 e 6 a 0 no sábado (7). Em 2026, a Coreia marcou 29 gols em sete partidas e só caiu para o Japão nos pênaltis.
O Brasil também evoluiu: fez sua melhor campanha histórica pelo segundo ano seguido, com duas semifinais. A diferença está na base, onde a Coreia do Norte treina suas melhores jogadoras em tempo integral desde os sete anos. A goleada por 6 a 0 é o retrato mais recente disso.
O que esperar em 2027?
A Coreia do Norte chega a 2027 com a base campeã, mas sem rodagem entre as adultas. O time joga pouco: quase nenhuma atleta atua no exterior — a exceção é Ri Song-a, no Sanfrecce Hiroshima. Em 2026, perdeu as três decisões que disputou nos pênaltis.
O sorteio será em 11 de dezembro, no Museu de Arte Moderna do Rio. O Brasil é cabeça de chave do Grupo A, e a Coreia do Norte, pelo ranking, tende a cair no pote 2 — um cruzamento na primeira fase é possível.
A dúvida é se a máquina da base, que ganha quase tudo, consegue enfim ganhar entre as adultas. A Copa do Mundo de 2027 será o primeiro teste global dessa geração.