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RTX 5090 roubada em Guarulhos: comprador pagou 19,8% abaixo do atacado

Placa de vídeo GeForce RTX 5090 com três ventoinhas e estrutura metálica, sobre fundo escuro
A RTX 5090 é a placa topo de linha da Nvidia; a imagem mostra um modelo de outra fabricante, usada aqui como ilustração. Foto: PantheraLeo1359531/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Uma RTX 5090 roubada do Terminal de Cargas do Aeroporto de Guarulhos acabou anunciada por um jovem de 26 anos em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo. Bruno Emanuel Gonçalves Christofone foi preso por receptação na quinta-feira (22), segundo a Polícia Civil, depois de ser identificado vendendo o produto na OLX. Aos investigadores, disse que comprou a placa pela internet e só a revendia. A prisão foi relaxada no mesmo dia, quando a família apresentou o comprovante de compra.

A carga foi furtada em 21 de setembro, às 13h30, um dia depois de chegar ao Brasil. Eram dois pallets com GPUs Zotac RTX 5090 de 32 GB, chip da Nvidia e quase meia tonelada importada dos Estados Unidos pela Oderço, de Maringá (PR). O lote foi avaliado em R$ 2,5 milhões a preço de custo, e a empresa pagou R$ 33 mil por placa no atacado. O presidente Oderço Matos disse que a empresa, com mais de 38 anos, nunca passou por isso.

O lote deixou o armazém antes de o despacho aduaneiro ser concluído pela Receita Federal. Conforme o boletim de ocorrência, dois operadores de empilhadeira retiraram os pallets e um conferente liberou o caminho; câmeras registraram a movimentação. A apuração interna da concessionária GRU Airport aponta fraude na etiquetagem: o lote recebeu a etiqueta de uma carga menor, já liberada, e o caminhão autorizado a retirar essa carga levou as GPUs. Os funcionários podem ter sido induzidos ao erro, segundo essa apuração.

Os dias seguintes mediram o tamanho do silêncio. A GRU Airport registrou o boletim de ocorrência em 24 de setembro, três dias depois do furto. Em 14 de outubro, orientou o representante do importador a iniciar o pedido de indenização. O documento só chegou ao Grupo Oderço em 20 de outubro, 29 dias depois do crime.

A linha do tempo do furto no Terminal de Cargas de Guarulhos — Fonte: boletim de ocorrência, Grupo Oderço e Polícia Civil de São Paulo
Quando O que aconteceu
20/09 Carga chega dos Estados Unidos ao terminal
21/09 Pallets saem às 13h30 sem liberação da Receita
24/09 Concessionária registra o boletim de ocorrência
05/10 Placa é comprada por R$ 26.450 no Mercado Livre
14/10 Importador recebe orientação sobre indenização
20/10 Boletim de ocorrência chega ao Grupo Oderço
22/10 Primeira prisão, por receptação; solto no mesmo dia

O comprovante mostra a compra no Mercado Livre por R$ 26.450, pagos em dois cartões, em 5 de outubro — 14 dias depois do furto. O preço ficou 19,8% abaixo dos R$ 33 mil do atacado e cerca de 24% abaixo dos R$ 35 mil da versão Zotac no varejo brasileiro. No anúncio da OLX, a placa saía por R$ 32 mil, e uma das fotos mostrava parte do número de série, o que ligou a peça ao lote furtado.

É esse intervalo que o Código Penal manda observar. O artigo 180, § 3º, pune quem adquire coisa que, “pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso”, com detenção de um mês a um ano ou multa. Com prova de que o comprador sabia da origem, o caput prevê reclusão de 2 a 6 anos e multa, faixa fixada pela Lei 15.397, de 2026.

RTX 5090 ROUBADA EM GUARULHOS 19,8% abaixo do preço de atacado R$ 26.450 no Mercado Livre contra R$ 33 mil pagos pela importadora Fonte: comprovante de compra e valores informados pelo Grupo Oderço

O vendedor aparece no comprovante apenas pelo código HAHEFCGDB24575, sem nome, foto, loja ou selo de verificado. Em 8 e 9 de outubro, o comprador pediu nota fiscal pelo chat e não teve resposta; depois da prisão, a família abriu reclamação formal pela ausência do documento. Os anúncios desse perfil foram suspensos; em página de cache, um dos itens era um Apple Watch Series 12 por R$ 2.250, contra R$ 5.499 na loja da Apple.

A prisão em flagrante foi relaxada em audiência de custódia. O artigo 310 do Código de Processo Penal manda o juiz ouvir o preso em até 24 horas e, de forma fundamentada, relaxar a prisão ilegal, convertê-la em preventiva ou conceder liberdade provisória, com ou sem fiança. O jovem disse à polícia que revendeu sem saber da origem e apagou o anúncio depois da repercussão.

A Oderço repassou os números de série à Zotac, que fabrica a placa, e à Nvidia, dona do chip. Segundo a empresa, os produtos foram excluídos das bases das duas companhias: a garantia não pode mais ser acionada e a atualização de software pelo Nvidia App deixa de ser oferecida. Cada placa do lote perde valor de revenda mesmo que reapareça em um anúncio.

A GRU Airport informou que vem empenhando todos os esforços para solucionar o caso e que reportou formalmente às autoridades a não localização da carga. Disse manter contato com o representante do importador, ter orientado em 14 de outubro o início da indenização e aguardar a documentação do cliente para concluir a análise.

Até a publicação desta reportagem, nenhuma das placas havia sido recuperada, segundo a polícia. Outros anúncios com peças do mesmo lote foram identificados em uma rede social. A principal linha de investigação é a troca de etiquetas dentro do terminal, e a Polícia Civil de São Paulo tenta identificar quem articulou a saída da carga.

O sumiço dos dois pallets foi o primeiro capítulo do caso, noticiado em 19 de outubro. A RTX 5090 é a placa topo de linha da Nvidia para uso geral, e a produção do modelo foi encerrada, com uma versão Super da RTX 5080 de 24 GB prevista para o começo de 2027 — mudança que reduz as opções de alto desempenho no mercado.

Quem compra um equipamento sem nota fiscal ou desconfia da origem pode registrar boletim de ocorrência pela Delegacia Digital da Polícia Civil de São Paulo, sem sair de casa. O comprovante de pagamento, as conversas com o vendedor e o anúncio original são o que a família do jovem preso apresentou à polícia para comprovar a compra.

Redação Cria Brasil
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Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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