Não é uma questão de gostar ou não gostar do Neymar. Não é uma questão de ser de direita ou de esquerda. Nem de considerá-lo um gênio ou um desperdício de talento divino. A pergunta é mais simples: quantos empregos Neymar gera?
Vivemos num mundo capitalista. E, pelo menos nestes meus 56 anos, nunca me perguntaram se eu era a favor ou contra isso. É o que é. Nesse mundo, quem consegue concentrar a atenção de centenas de milhões de pessoas deixa de ser apenas um indivíduo. Torna-se uma plataforma econômica. Neymar é uma delas.
Aos 34 anos, ele reúne mais de 240 milhões de seguidores somente no Instagram. É uma audiência maior do que a população do Brasil. Cada partida, entrevista, postagem, gol, contusão, festa, discussão ou até um corte de cabelo aciona uma cadeia econômica que dificilmente conseguimos enxergar por inteiro.
O primeiro emprego é o mais evidente: o dele. Mas, atrás dele, estão treinadores, fisioterapeutas, médicos, nutricionistas, preparadores físicos, analistas de desempenho, seguranças, advogados, empresários, assessores, produtores de conteúdo, e mais, muito mais que isso. Depois vêm os clubes, federações, emissoras, plataformas digitais, patrocinadores, jornalistas, fotógrafos, narradores, técnicos, profissionais de marketing, desenvolvedores, designers, hotéis, motoristas, ambulantes e milhares de pequenos negócios que faturam porque, em algum momento, Neymar colocou pessoas em movimento.
Há ainda a camada mais evidente: a economia da conversa.
Programas esportivos discutem Neymar. Portais publicam Neymar. Influenciadores o defendem. Outros o atacam. Humoristas fazem piadas. Especialistas analisam seu corpo, sua carreira, sua vida pessoal. Alguns ganham dinheiro admirando Neymar. Outros ganham dinheiro criticando Neymar. Mas todos dependem de que Neymar continue relevante.
Quando ele voltou ao Santos, em 2025, o clube ganhou cerca de 4 milhões de seguidores, registrou milhões de interações e milhares de novos sócios. Neymar havia religado uma indústria.
É claro que não podemos atribuir a ele todos os empregos dessa cadeia. Um economista lembraria, que existem impactos diretos, indiretos e induzidos. E que parte desse consumo aconteceria mesmo sem ele. Estaria certo.
Neymar é uma espécie de empresa sem balanço consolidado. Sua receita aparece espalhada pelo faturamento de clubes, emissoras, patrocinadores, plataformas, milhares de pequenos negócios e uma economia construída ao redor da sua existência. O número de funcionários nunca aparece reunido porque pertencem a organizações diferentes. A matéria-prima que remunera toda essa cadeia continua sendo uma só: a sua atenção.
Eu tive uma trajetória que me permitiu atravessar diferentes camadas sociais. Isso me ensinou que um acontecimento nunca é exatamente igual para todos. Para uma criança, Neymar pode ser um herói. Para uma marca, uma mídia. Para uma emissora, audiência. Para um jornalista, pauta. Para um vendedor ambulante, renda. Para um algoritmo, engajamento. E, para muita gente, uma oportunidade de sair do anonimato, conquistar audiência e transformar atenção em negócio.
A partir do momento em que a atenção se transforma em ativo econômico, o conflito passa a ser uma estratégia. O modelo de remuneração mudou. Quanto maior a capacidade de criar ruído, maior a possibilidade de gerar audiência, relevância e receita.
Nesse ambiente, uma imagem fora de contexto vale mais do que uma explicação completa. Uma frase polêmica viaja mais rápido do que um argumento equilibrado. Uma contusão vira julgamento moral. Um erro passa a definir uma carreira inteira. Não por ser mais verdadeiro, mas por ser mais rentável. Cada grupo escolhe o Neymar que deseja enxergar, e cada narrativa bem-sucedida produz mais audiência, mais engajamento e mais dinheiro.
Muitas vezes, aqueles que mais dizem desprezá-lo são justamente os que mais dependem de sua relevância. Quanto mais o atacam, mais eles circulam. Quanto mais circulam, mais dinheiro movimentam.
É possível que profissionais sérios, comprometidos com a verdade e menos dispostos a fabricar escândalos tenham ficado pelo caminho, porque a verdade costuma ser mais complexa, mais lenta e menos sedutora do que a indignação – mas não podemos desistir.
A atenção se tornou um dos ativos mais valiosos da economia. E, quando a atenção vira dinheiro, a histeria passa a ser um excelente modelo de negócios. Quanto maior a polarização, maior o engajamento. Quanto maior o engajamento, maior a remuneração.
Por isso, a responsabilidade aumentou. Ela não está apenas em quem produz conteúdo. Está também em quem o consome (não matem o mensageiro). Numa época em que se monetiza a histeria, cabe a cada um de nós distinguir o que é informação do que é espetáculo; o que é verdade do que é apenas uma máquina de fazer dinheiro.
No fim, talvez o verdadeiro produto dessa economia não seja o Neymar. Somos nós. E toda vez que entregamos a nossa atenção, sem senso crítico, ajudamos a decidir quem ganha dinheiro, quem ganha voz e que tipo de sociedade estamos construindo.
