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Lula faz 81 anos: a história do menino nordestino que chegou quatro vezes à Presidência

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Lula em meio à multidão durante ato político na Avenida Paulista - Paulo Pinto/Agência Brasil

Nascido no interior de Pernambuco, ex-metalúrgico construiu uma trajetória marcada por greves, disputas políticas, programas sociais e uma relação histórica com a classe trabalhadora.

Luiz Inácio Lula da Silva completa 81 anos nesta terça-feira (27), dois dias após conquistar seu quarto mandato como presidente da República, um feito inédito na história política brasileira.

Aos 81 anos, Lula carrega uma biografia que atravessa diferentes momentos da história recente do Brasil. Da infância pobre no sertão pernambucano às greves operárias do ABC paulista, da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) ao Palácio do Planalto, sua trajetória reúne ascensão social, disputas políticas, conquistas eleitorais e episódios de profunda controvérsia.

Nascido em 27 de outubro de 1945, na região de Garanhuns, em Pernambuco, Lula cresceu em uma família de oito filhos. Sua mãe, Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como Dona Lindu, tornou-se uma figura central na narrativa de sua infância, marcada por dificuldades econômicas e pela migração em busca de melhores condições de vida.

Ainda criança, acompanhou a família na mudança para São Paulo, seguindo o caminho percorrido por milhares de nordestinos que deixaram suas cidades de origem durante o século XX. A experiência da migração, do trabalho precoce e da vida nas periferias urbanas ajudaria a moldar sua identidade política nas décadas seguintes.

Do trabalho nas fábricas à liderança sindical

Antes de chegar à Presidência, Lula conheceu a rotina do trabalho industrial. Começou a trabalhar ainda adolescente e formou-se torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Na região do ABC paulista, encontrou nas fábricas metalúrgicas não apenas uma profissão, mas também o ambiente que o projetaria nacionalmente.

Em 1975, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Nos anos seguintes, tornou-se uma das principais lideranças das mobilizações trabalhistas que desafiaram as restrições impostas pela ditadura militar.

As grandes greves do final da década de 1970 e início dos anos 1980 reuniram milhares de trabalhadores em assembleias e paralisações. Naquele período, Lula passou a representar uma nova geração de dirigentes sindicais, que defendia melhores salários, liberdade de organização e participação política.

Sua atuação também resultou em perseguição e prisão durante o regime militar. O episódio consolidou sua projeção como uma das vozes do movimento sindical brasileiro.

A criação do PT e o sonho de chegar à Presidência

Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, organização que reuniu sindicalistas, intelectuais, movimentos populares, setores progressistas da Igreja Católica e militantes de esquerda.

A proposta era construir uma alternativa política com forte participação das classes trabalhadoras.

Eleito deputado federal constituinte em 1986, Lula participou da Assembleia responsável pela elaboração da Constituição de 1988, marco da redemocratização brasileira.

No ano seguinte, disputou pela primeira vez a Presidência da República, chegando ao segundo turno contra Fernando Collor de Mello. Foi derrotado, assim como nas eleições de 1994 e 1998, vencidas por Fernando Henrique Cardoso.

A vitória chegaria em 2002, quando derrotou José Serra e se tornou o primeiro ex-operário eleito presidente do Brasil.

Curiosamente, aquela conquista também ocorreu em 27 de outubro, data de seu aniversário de 57 anos.

O presidente dos programas sociais

Os primeiros governos de Lula, entre 2003 e 2010, ficaram associados à ampliação das políticas de transferência de renda, à valorização do salário mínimo e à expansão do acesso ao ensino superior.

Entre as principais iniciativas daquele período estão o Bolsa Família, o Programa Universidade para Todos (Prouni), a expansão das universidades federais e o Minha Casa, Minha Vida, lançado em 2009.

As políticas sociais, combinadas ao crescimento econômico e à ampliação do emprego formal em parte daquele período, contribuíram para reduzir indicadores de pobreza e ampliar o consumo de milhões de famílias brasileiras.

Para moradores de comunidades e periferias, programas de renda, moradia e educação passaram a ocupar um espaço importante na relação com o governo federal.

Ao mesmo tempo, seus mandatos enfrentaram denúncias de corrupção e crises políticas, incluindo o escândalo do mensalão, que atingiu dirigentes do PT e integrantes da base governista.

Esse contraste entre avanços sociais e controvérsias políticas se tornaria uma característica recorrente dos debates sobre seu legado.

A prisão, a liberdade e o retorno ao poder

Depois de deixar a Presidência em 2010, Lula continuou influente na política nacional, mas enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua trajetória.

Investigado no âmbito da Operação Lava Jato, foi condenado em processos relacionados à corrupção e à lavagem de dinheiro. Em abril de 2018, acabou preso em Curitiba, onde permaneceu por 580 dias.

Sua prisão dividiu opiniões no país. Enquanto críticos apontavam as condenações como resultado do combate à corrupção, apoiadores denunciavam irregularidades judiciais e perseguição política.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações, reconhecendo a incompetência da vara federal de Curitiba para julgar os casos. A Corte também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no processo do tríplex.

Com os direitos políticos restabelecidos, Lula voltou a disputar a Presidência em 2022 e derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno.

A vitória representou seu retorno ao Palácio do Planalto depois de 12 anos e o início de um terceiro mandato, em janeiro de 2023.

Aos 81 anos, uma quarta vitória eleitoral

A chegada aos 81 anos acontece em um momento singular de sua carreira política.

No domingo (25), Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, garantindo mais quatro anos à frente do governo federal.

A disputa foi marcada pela polarização política e por uma virada eleitoral: depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário, Lula conseguiu reverter a diferença e conquistar a maioria dos votos válidos.

Com o resultado, tornou-se o primeiro brasileiro eleito quatro vezes para a Presidência da República. A posse para o novo mandato está prevista para 5 de janeiro de 2027.

A nova vitória, entretanto, não elimina os desafios políticos e econômicos. Lula inicia essa etapa diante de um país dividido eleitoralmente, com cobranças por melhorias nos serviços públicos, geração de empregos, segurança, redução das desigualdades e equilíbrio das contas públicas.

Uma história que dialoga com as periferias

A trajetória de Lula possui uma relação particular com a história das periferias brasileiras.

Assim como milhões de trabalhadores que ajudaram a construir as grandes cidades, ele deixou o Nordeste ainda criança, enfrentou dificuldades financeiras, ingressou cedo no mercado de trabalho e encontrou na organização coletiva uma forma de participação social.

Essa origem ajuda a explicar parte de sua identificação com segmentos populares, especialmente trabalhadores de baixa renda e famílias beneficiadas por políticas sociais.

Mas também existem cobranças nessas mesmas regiões. A persistência da desigualdade, a precariedade habitacional, as dificuldades de mobilidade e a falta de infraestrutura mostram que os avanços conquistados ao longo das últimas décadas não foram suficientes para resolver problemas históricos.

Para comunidades como Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, temas como moradia digna, saneamento básico, acesso à educação, emprego e oportunidades para os jovens continuam entre as principais demandas.

São questões que ultrapassam governos e partidos, mas que também estarão presentes na avaliação do novo mandato presidencial.

O menino de Pernambuco que chegou quatro vezes ao Planalto

Poucos personagens da política brasileira contemporânea atravessaram tantas transformações quanto Luiz Inácio Lula da Silva.

Em oito décadas de vida, testemunhou a migração nordestina, a industrialização paulista, a ditadura militar, a redemocratização, as mudanças no mundo do trabalho e a consolidação de uma sociedade cada vez mais conectada.

Sua história também é marcada por perdas familiares, derrotas eleitorais, prisão, disputas judiciais e retornos políticos que pareciam improváveis.

Para seus apoiadores, Lula representa a possibilidade de ascensão de um trabalhador pobre ao posto mais alto do país. Para seus críticos, simboliza um projeto político que precisa responder por seus erros, contradições e resultados.

Aos 81 anos, porém, uma dimensão de sua trajetória é incontestável: o ex-metalúrgico que deixou o interior de Pernambuco ainda criança se tornou um dos personagens mais influentes da história política brasileira.

E, mais de quatro décadas depois de liderar assembleias de trabalhadores no ABC paulista, prepara-se para iniciar seu quarto mandato como presidente da República.

Andre Nicolau
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Andre Nicolau

Jornalista, repórter, redator e produtor de conteúdo, formado em Jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi. Com experiência em veículos como CNN Brasil, Catraca Livre e UOL, atua na produção de reportagens, entrevistas e conteúdos para diferentes plataformas, abordando temas como educação, cultura, política, tecnologia, saúde, cidadania e questões sociais. Também possui experiência em revisão editorial, produção audiovisual, cobertura de eventos e eleições, técnicas de SEO e desenvolvimento de projetos de comunicação.

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