Bem Estar

Calor mata mais que frio por doenças respiratórias; Norte tem 12,5% das mortes

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Painel eletrônico com 38 °C em rua movimentada do centro de São Paulo, com pedestres e um ciclista
Painel marca 38 °C no centro de São Paulo durante onda de calor, em 27 de dezembro de 2025 - Paulo Pinto/Agência Brasil

O calor mata mais por doenças respiratórias do que o frio no Brasil. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) publicado em 18 de maio na revista PLOS Climate analisou 1.087.094 mortes respiratórias de 2010 a 2020 em 646 municípios, que reúnem cerca de 65% da população. Do total, 6,08% foram atribuídos a temperaturas fora da faixa de menor risco: 66.079 mortes em 11 anos, quase 6.000 por ano. O calor responde por 4,27% e o frio, por 1,81%. No Norte, a fração ligada ao calor chega a 12,5%.

Qual é a temperatura de menor risco no Brasil

O ponto de menor risco é 22,4 °C, perto do 75º percentil das temperaturas do país. “Encontramos a temperatura de menor risco em 22,4 °C. O detalhe é que, em aproximadamente 3/4 dos dias do ano, o país está acima desse ponto de conforto”, diz Guilherme Coelho, médico de família e primeiro autor do estudo, doutorando da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.

Em dias de calor intenso, com média de 30,3 °C, o risco de morte respiratória sobe 43% em relação ao ponto de menor risco. Nos dias de frio extremo, com 12,1 °C, o aumento é de 29%.

Por que o calor ataca mais o sistema respiratório

O calor age por desidratação e por esforço. A perda de água resseca as vias aéreas, deixa a secreção pulmonar mais espessa e favorece infecções e crises de asma e de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A respiração acelera porque o corpo tenta dissipar calor por ela — segundo o pneumologista Humberto Bogossian, do Hospital Israelita Albert Einstein, isso aumenta o esforço do sistema respiratório.

Outros fatores dos dias quentes somam risco: baixa umidade, poluição, queimadas e mais ozônio perto do chão. Nas cidades, a perda de áreas verdes e o excesso de concreto formam ilhas de calor, que atingem com mais força as periferias, como mostrou reportagem do Espaço do Povo sobre o mapa do calor em São Paulo.

No Norte, o calor pesa 12,5%; no Sul, o frio

O risco muda conforme a região, porque o corpo se adapta ao clima em que vive. No Norte, o calor responde por quase todas as mortes atribuíveis à temperatura. No Nordeste, a fração do calor é de 8,6%. O Sudeste concentra o maior número absoluto de mortes atribuíveis: 26.920.

Painel: fração das mortes respiratórias atribuível à temperatura, por região do Brasil, 2010 a 2020. Norte: 12,5% (calor 12,5%; frio abaixo de 0,01%). Nordeste: 8,6% (calor 8,6%; frio 0,02%). Sul: 7,5% (frio 5,97%; calor 1,54%). Sudeste: 4,39% (frio 1,82%; calor 2,57%). Brasil: 6,08% (frio 1,81%; calor 4,27%).
Mortes respiratórias atribuíveis à temperatura, por região, 2010–2020 – Arte: Espaço do Povo

No Sul, a lógica se inverte: o frio responde por quase 6% das mortes respiratórias, contra cerca de 1,5% do calor. A temperatura de menor risco também muda: 22,9 °C no Sul, 22,0 °C no Sudeste, 28,5 °C no Nordeste e 32,2 °C no Norte. Daí o “paradoxo do frio”: em Estados amazônicos, temperaturas perto de 24 °C — agradáveis para boa parte do país — ficam no extremo inferior do que a população local vive e aparecem associadas a mais mortes respiratórias. “O problema não é o número absoluto no termômetro, mas sair da temperatura à qual a população está acostumada”, diz Coelho.

Idosos concentram 75% das mortes ligadas à temperatura

Cerca de 75% das mortes respiratórias atribuídas à temperatura ocorreram entre idosos, que regulam pior a temperatura do corpo, se desidratam com mais facilidade e convivem com doenças crônicas. A exposição também depende da casa e do trabalho: moradias tropicais são construídas para dissipar calor, e quem trabalha ao ar livre, na agricultura, na construção ou no setor informal fica mais tempo no sol.

“É fundamental desenvolver estratégias específicas de proteção e cuidado direcionadas às populações em maior situação de vulnerabilidade e residentes de áreas periféricas”, afirma Danielle Satie Kassada, professora da Faculdade de Enfermagem da Unicamp e coorientadora do estudo.

Como se proteger do calor

A recomendação para ondas de calor é manter a hidratação, evitar sol nos horários mais quentes, usar roupas leves, umidificar os ambientes, não interromper o tratamento de doenças respiratórias e manter em dia as vacinas contra influenza, covid-19, pneumococo e o vírus sincicial respiratório (VSR).

O que conta não é só o termômetro. O índice de calor combina temperatura e umidade, e é ele que a Prefeitura do Rio de Janeiro usa desde 2024 para classificar o risco em cinco níveis, pelo Decreto 54.740 e pela Portaria 03/2024: do NC1, com índice de até 36 °C, ao NC5, acionado quando o índice passa de 44 °C por ao menos duas horas por dia.

Em São Paulo, a Operação Altas Temperaturas funciona desde setembro de 2023 e é acionada quando os termômetros ou a sensação térmica chegam a 32 °C. As tendas ficam abertas das 10h às 16h, com sombra, cadeiras e água.

Tenda laranja da Operação Altas Temperaturas com cadeiras, ventilador e pessoas, ao lado de uma unidade móvel de saúde
Tenda da Operação Altas Temperaturas, da Prefeitura de São Paulo, em dezembro de 2025 – Paulo Pinto/Agência Brasil

O Inmet considera onda de calor quando as máximas ficam 5 °C acima da média mensal por ao menos cinco dias seguidos, em uma área ampla. Os avisos estão em avisos.inmet.gov.br. Emergências de saúde podem ser acionadas pelo Samu (192) e situações de risco pela Defesa Civil (199).

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores usaram os registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e dados de temperatura do ERA5-Land, do serviço europeu Copernicus. Como usa dados agregados, o trabalho não mostra causa individual: mede a fração de mortes acima do esperado quando a temperatura sai da faixa habitual.

Os autores defendem sistemas de alerta por região, com gatilhos de temperatura, em vez de uma política única para o país. Em três décadas, o número de dias por ano com ondas de calor no Brasil passou de 7 para 52, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em partes do Nordeste, de Roraima e de Mato Grosso do Sul, a média das máximas subiu até 3 °C. Em agosto, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) previa ao menos seis ondas de calor no país até dezembro, como mostrou reportagem do Espaço do Povo.

Redação Cria Brasil
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Redação Cria Brasil

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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