A Nasa encerrou as operações do telescópio espacial Neil Gehrels Swift e informa que o equipamento deve reentrar na atmosfera da Terra nas próximas semanas, sem data, hora ou local definidos. O anúncio foi feito na sexta-feira (23/10). A faixa de órbita por onde o telescópio passa inclui o Brasil.
A última observação científica foi em 20 de outubro, a cerca de 275 quilômetros de altitude, quando o arrasto da atmosfera já impedia que os instrumentos ficassem apontados de forma estável. O telescópio entrou em modo de segurança, e a equipe de operações, na Universidade Estadual da Pensilvânia, enviou o comando que encerrou a missão. O equipamento não tem propulsores e, por isso, não consegue reagir à queda.
Quando o Swift deve cair e por que não há data
A Nasa não crava um dia: fala em reentrada nas próximas semanas. Três fatores embaralham a conta: a densidade da atmosfera varia, a atividade solar altera o arrasto e o próprio comportamento da espaçonave muda a resistência do ar. Sem propulsão, também não existe maneira de direcionar o telescópio para uma região específica do planeta.
O que se sabe é que ele segue descendo. Nesta sexta-feira (30), o catálogo público de objetos em órbita do CelesTrak registrava o Swift completando 16,12 voltas por dia. Como o tempo de uma volta depende da altura, o número indica uma altitude média bem abaixo dos 275 quilômetros do dia 20.

O telescópio vai cair no Brasil?
Pode, mas ninguém sabe se vai. A órbita do Swift é inclinada 20,55° em relação à linha do Equador, o que faz o telescópio sobrevoar qualquer ponto entre 20,55° de latitude norte e 20,55° de latitude sul. Essa faixa cobre a maior parte do território brasileiro. Ficam de fora o Sul do país e as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro.
O telescópio pesa cerca de 1,5 tonelada; a maior parte do material deve se desintegrar no caminho, embora alguns componentes possam resistir ao calor e chegar ao solo. A avaliação é que o risco de os restos caírem em zonas habitadas é baixo.
Estar na faixa, porém, não é previsão. “É importante separar possibilidade de previsão. O Brasil não pode ser descartado simplesmente por estar parcialmente dentro da faixa orbital do Swift, mas hoje não existe qualquer dado que permita afirmar que os destroços cairão no país”, afirma Marcos Calil, responsável pelo Setor de Observatório da Urânia Planetário.
Por que o resgate de US$ 30 milhões falhou
A Nasa tentou evitar a queda. Em setembro de 2025, contratou por US$ 30 milhões a Katalyst Space, de Flagstaff, no Arizona, para construir em menos de um ano uma nave capaz de alcançar o Swift, agarrá-lo e levá-lo a uma órbita mais alta. A LINK tinha 1,8 metro de altura, cerca de 400 quilos, três braços robóticos e três propulsores movidos a xenônio. Foi lançada em 3 de julho, do atol de Kwajalein, nas Ilhas Marshall, a bordo de um foguete Pegasus XL solto de um avião sobre o Pacífico.

No espaço, a nave teve perdas intermitentes de comunicação e problemas no controle de orientação. A Nasa e a Katalyst reduziram o escopo: a LINK não agarraria mais o telescópio, só testaria os braços e os propulsores, e chegou a passar entre 12 e 15 quilômetros do Swift, registrando o observatório como um rastro de luz. A agência encerrou sua participação em 3 de setembro, e a nave reentrou na atmosfera em 25 de setembro, antes do telescópio que deveria salvar. Para o diretor da Divisão de Astrofísica da Nasa, Shawn Domagal-Goldman, a empreitada era de alto risco e alto retorno, e avançou a tecnologia de manutenção de satélites mesmo sem elevar a órbita.
Como o Swift durou 22 anos em vez de dois
O telescópio foi lançado em 20 de novembro de 2004, com missão prevista para dois anos, e operou por quase 22. Em 2018, a Nasa rebatizou a missão em homenagem a Neil Gehrels, após a morte dele. Quando a órbita começou a cair, a equipe trocou ciência por resistência: em dezembro de 2025, um quarto dos alvos virou ponto do céu que deixava o satélite na posição mais aerodinâmica; em fevereiro, a troca passou a ser total e as observações no ultravioleta, no óptico e em raios X pararam.
Em agosto, com o resgate reduzido, o Swift voltou a observar, e o retorno cobrou preço: com os instrumentos em uso, o arrasto cresceu e o telescópio voltou a afundar rápido, até o modo de segurança de outubro. Nos 22 anos, detectou mais de 2 mil explosões de raios gama, estudou mais de 1.400 supernovas, viu estrelas dilaceradas por buracos negros e deixou um arquivo de cerca de 12 terabytes, usado em aproximadamente 7 mil artigos científicos.
Como o Brasil monitora o lixo espacial
A Nasa cataloga 33.098 objetos em órbita da Terra, entre espaçonaves, corpos de foguetes e detritos. Estimativas da Agência Espacial Europeia apontam cerca de 500 mil fragmentos entre 1 e 10 centímetros e mais de 100 milhões de partículas acima de 1 milímetro, pequenas demais para serem rastreadas uma a uma. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que usa satélites também para monitorar queimadas no país, acompanha diariamente a órbita dos equipamentos sob sua responsabilidade e recebe de um a dois alertas de colisão por mês.
As manobras de desvio acontecem, em média, a cada três meses, segundo o pesquisador do Inpe Antonio Bertachini. Para a tecnologista da Agência Espacial Brasileira (AEB) Priscilla Andressa de Sousa Silva, o limite é o combustível: cada manobra consome parte da vida útil da missão, e a reentrada sem controle abre a possibilidade de acidentes, o caso do Swift. A Nasa mantém um blog com atualizações da reentrada, que até esta sexta-feira (30) não trazia data para a queda.