Homens vivem, em média, sete anos menos que as mulheres no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A distância não se explica só por biologia: vem do consumo abusivo de álcool, do tabagismo, da alimentação ruim, da exposição à violência e de um hábito que atravessa gerações — o de procurar o serviço de saúde quando a doença já dói. Este guia reúne o que checar em cada faixa de idade, o que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece e onde marcar a consulta na rede de São Paulo.
Por que o homem vive sete anos menos que a mulher
O Ministério da Saúde registrou 106 milhões de atendimentos a homens em um ano, contra 203 milhões a mulheres. O número fala menos sobre doença do que sobre comportamento: o homem chega menos ao serviço de saúde, e quando chega já tem mais doença acumulada.
A diferença também não desaparece com a idade. Quem chega aos 60 anos ganha menos anos pela frente do que uma mulher da mesma idade — e é aí que a consulta de rotina deixa de ser formalidade e passa a ser decisão sobre o que ainda dá para evitar.
Desde 2009, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) organiza esse cuidado na rede pública, com eixos que vão de acesso e acolhimento a paternidade e prevenção de violências.
Para o coordenador de Atenção à Saúde do Homem do Ministério da Saúde, Castro Brandão, o obstáculo é cultural. “Nosso desafio é difundir uma agenda de atenção integral à saúde dos homens, integrando prevenção de doenças, promoção da saúde e toda a assistência necessária”, afirmou.
O que checar dos 20 aos 39 anos
Nessa faixa, o que importa é medir o que não dá sintoma: pressão arterial, peso, glicemia e colesterol. Pressão alta e colesterol alto não avisam — aparecem no exame ou, quando não aparecem, no infarto.
A avaliação do colesterol começa na vida adulta: a diretriz brasileira de dislipidemias recomenda dosar o perfil lipídico em todos os adultos a partir dos 20 anos. O intervalo entre um exame e outro depende do risco — quem tem histórico de infarto precoce na família, diabetes ou obesidade repete antes, e isso se define na consulta, não na internet.
É também a idade em que as infecções sexualmente transmissíveis entram na conta. As 470 Unidades Básicas de Saúde da capital fazem testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites B e C, com resultado na hora e sigilo. A caderneta de vacinação precisa estar em dia.
Dos 40 aos 49: o histórico da família entra na conta
Aqui a pergunta deixa de ser “como estou” e passa a ser “o que já aconteceu na minha família”. Pai ou irmão com câncer de próstata antes dos 60, infarto em parente jovem ou morte súbita mudam a idade em que os exames começam.
No caso da próstata, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) orienta começar a conversa aos 45 anos para quem tem histórico familiar ou é negro — grupo com risco maior. Sem esses fatores, a conversa fica para os 50.
Tabagismo e consumo abusivo de álcool estão entre os comportamentos de risco que o Ministério da Saúde associa à diferença de sete anos entre homens e mulheres — é a exposição acumulada até aqui que a próxima década vai cobrar.
Dos 50 aos 64: próstata, intestino e pressão
Aos 50 anos entram os dois exames que mais geram dúvida — e nenhum deles é obrigatório por rotina.
Para a próstata, o INCA não recomenda rastreamento populacional, ou seja, exame de rotina em homem sem sintoma. A orientação é de decisão compartilhada: o homem conversa com o profissional, entende o que o PSA e o toque retal mostram e o que eles não mostram, e decide junto. Quem tem sintoma — dificuldade para urinar, jato fraco, sangue na urina — não espera campanha: procura atendimento.
Para o intestino, o protocolo mudou. O Ministério da Saúde adotou o Teste Imunoquímico Fecal (FIT) como exame de referência para homens e mulheres assintomáticos de 50 a 75 anos. O kit é retirado na unidade de saúde, a coleta é feita em casa e não exige dieta restritiva. A sensibilidade do teste fica entre 85% e 92%, e quem tem resultado positivo é encaminhado para colonoscopia.
O câncer colorretal é o segundo mais frequente no país, excluindo os tumores de pele não melanoma, com 53,8 mil casos novos estimados por ano entre 2026 e 2028 — um exame barato, feito em casa, para uma doença que mata.
Depois dos 65: o que muda na conta
Cerca de 75% dos casos de câncer de próstata ocorrem em homens com mais de 65 anos. O que muda nessa idade não é a gravidade da doença, é o cálculo: em quem já tem outras doenças, o benefício do exame cai e o risco de tratar algo que não ameaçaria a vida sobe. Por isso a decisão compartilhada pesa mais aqui do que aos 50, e a conversa deve incluir a expectativa de vida, não só o resultado do PSA.
O acompanhamento do que já foi diagnosticado — pressão, diabetes, colesterol — continua sendo o que mais evita morte nessa faixa.
Onde fazer no SUS em São Paulo e o que levar
Tudo começa na Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência do endereço, não no pronto-socorro: é ela que agenda consulta, pede exame, faz teste rápido e encaminha ao especialista.
Na capital, o agendamento passa pelo aplicativo Agenda Fácil e pelo telefone 156. Consultas e exames marcados são confirmados por WhatsApp: basta salvar o número (11) 98889-0156 na agenda do celular, onde ele aparece como “Chat SP156 – Confirmação de agenda SUS”. O cadastro precisa ser atualizado a cada seis meses, na própria unidade ou no aplicativo.
Leve documento com foto, cartão nacional de saúde e, se tiver, exames anteriores. Quem recebe do profissional uma suspeita de câncer registrada tem prazo de 30 dias para os exames de diagnóstico, garantido por lei federal — o passo a passo está em reportagem do Espaço do Povo sobre a lei dos 30 dias.
Vale também saber diferenciar sinal de alerta de conversa de internet: o guia com os sinais de alerta do câncer explica quais sintomas justificam consulta e quais não.
Este guia informa, não diagnostica: nenhum sintoma aqui, sozinho, diz o que você tem — o que ele diz é que vale uma consulta. Os dados de atendimento estão na página do Ministério da Saúde sobre a saúde do homem, e o protocolo do exame de intestino, na nota do INCA sobre o FIT.