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Porque Nikolas tem mais visualizações que Neymar, CR7, Kardashian, Messi?

Um único Reel do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) passou de 160 milhões de visualizações — mais do que a maioria dos vídeos de Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo e da própria conta oficial do Instagram. O TSE deu 12 horas para a Meta explicar de onde vieram essas visualizações. A resposta curta: “visualização” não é pessoa, e o deputado saiu do perímetro onde a lei eleitoral ainda travava a recomendação. A resposta longa está abaixo.

O número é grande o suficiente para parecer erro de digitação: 160 milhões de visualizações em um único Reel. É o que acumulou o vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em 20 de outubro, a cinco dias do segundo turno.

Para dimensionar: o deputado tem 25 milhões de seguidores no Instagram. Cristiano Ronaldo tem 679 milhões. Messi, 517 milhões. Neymar, 241 milhões. A conta oficial do Instagram, 686 milhões. Ainda assim, segundo o levantamento da Folha de S.Paulo, apenas um Reel de Cristiano Ronaldo em todo o ano de 2026 superou a marca — um vídeo publicitário do troféu da Copa de 2026 feito de Lego, com 251 milhões de visualizações, em colaboração com a própria Copa, a Lego, Vinicius Junior e Mbappé. Messi e Neymar têm dois vídeos cada acima desse patamar no ano.

A conta oficial do Instagram publicou dez Reels em outubro. Só um passou de 160 milhões. Quatro ficaram abaixo de 60 milhões — marca que o vídeo de Nikolas já havia ultrapassado quando estava sem áudio.

E o vídeo ficou sem áudio: na terça-feira (20), o áudio foi removido por solicitação de direitos autorais — a publicação usava uma versão instrumental de “Grão de Areia”, de Rubel com Xande de Pilares. Quando o som caiu, o Reel tinha cerca de 100 milhões de visualizações. Desde então, somou outras 60 milhões em silêncio. O deputado disse nas redes que foram os próprios artistas que pediram a retirada, numa tentativa de “silenciar os nordestinos”.

O TSE entrou no caso nesta quinta-feira

Nesta quinta-feira (22), o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, deu à Meta prazo de 12 horas para explicar a amplificação algorítmica do perfil do deputado no Instagram — sob multa de R$ 100 mil por hora de atraso, o equivalente a R$ 2,4 milhões por dia. A decisão também alcança os perfis de Pablo Marçal (PRTB), Flávio Bolsonaro (PL) e o candidato a vice Alfredo Gaspar (PL).

A ordem responde a uma ação de investigação judicial eleitoral (AIJE) da campanha do presidente Lula (PT), que aponta favorecimento do algoritmo da Meta ao perfil do deputado e suspeita de uso indevido dos meios de comunicação, abuso de poder econômico e abuso de poder político.

A Meta já havia sido intimada antes e não entregou os dados: respondeu que “a obtenção dos dados demanda procedimentos de extração e validação técnica, sem indicar prazo certo para seu fornecimento”. O X (antigo Twitter) cumpriu a determinação. A Meta não.

O que Cueva quer saber, exatamente:

  • a origem das visualizações;
  • a proporção vinda de seguidores e de não seguidores;
  • quais superfícies de distribuição entregaram o conteúdo (feed, aba Reels, Explorar, Stories, busca);
  • a diferença entre visualizações, contas efetivamente alcançadas e reproduções repetidas;
  • as limitações técnicas dos dados fornecidos.

“É necessário compreender as métricas de distribuição do alcance”, escreveu o ministro. “Não basta conhecer o volume de visualizações alcançado pelas publicações.”

A pista que está na própria decisão

Há um dado na decisão que explica quase tudo — e que a CNN Brasil destacou. Segundo Cueva, o perfil do deputado esteve entre 25 de agosto e 14 de outubro submetido a um filtro que impedia a recomendação do conteúdo.

Com o filtro ativo, em setembro, os seguidores respondiam por 80% a 91% das impressões do perfil. Depois da retirada do filtro, entre 14 e 18 de outubro, essa fatia caiu para 28% a 41%.

Traduzindo: antes, o vídeo falava quase só com quem já seguia o deputado. Depois, a maior parte da audiência passou a vir de quem não seguia — ou seja, de distribuição por recomendação.

E por que o filtro caiu? Em 15 de outubro, políticos bolsonaristas procuraram o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, pedindo a liberação. Kassio autorizou a Meta a retomar a recomendação automática de perfis de políticos que encerraram a disputa no primeiro turno. A orientação tem alcance geral, sem distinção partidária — mas beneficia justamente aliados de Flávio com grandes audiências que já estavam eleitos: Nikolas, Marçal e Michelle Bolsonaro.

A restrição continua valendo para quem ainda disputa o segundo turno: os perfis oficiais de Lula e do próprio Flávio Bolsonaro seguem impedidos de serem recomendados a não seguidores.

O vídeo dos 160 milhões foi publicado em 20 de outubro — portanto já fora da janela em que o filtro estava ativo.

A tabela que embasou a denúncia ao Ministério Público

O levantamento do Sleeping Giants Brasil, feito com a Artigo 19 e a CTRL+Z, comparou as dez publicações mais recentes de 30 perfis do Instagram — deputados federais, os brasileiros com mais seguidores e celebridades internacionais. Coleta em 11 de outubro.

PerfilMediana de visualizações por Reel
Nikolas Ferreira38,25 milhões
Selena Gomez34,45 milhões
Kylie Jenner25,8 milhões
Justin Bieber16,6 milhões
Kim Kardashian13,9 milhões
Beyoncé11,7 milhões

Nikolas ficou atrás apenas de Cristiano Ronaldo e Messi nesse indicador. As celebridades comparadas têm bases de seguidores entre 12 e 17 vezes maiores que a dele.

Outros três achados do relatório:

  • os dez Reels do deputado somaram 410,5 milhões de visualizações — quase o triplo das 137,3 milhões registradas pelos 90 vídeos dos outros nove parlamentares da amostra, que juntos tinham 1,6 vez a base de seguidores dele;
  • todos os dez Reels do deputado superaram sua própria base de seguidores. Entre os 300 vídeos analisados, apenas 23 fizeram isso — e dez eram de Nikolas;
  • a proporção de views por seguidor do deputado equivale a 17,2 vezes a mediana dos parlamentares comparados, 29,3 vezes a dos maiores perfis brasileiros e 33,7 vezes a dos maiores perfis mundiais.

Contas da redação, para dar escala: 38,25 milhões de views divididos por 23 milhões de seguidores dão os 166,3% do relatório; a mesma conta aplicada a Selena Gomez (34,45 milhões de views, 402 milhões de seguidores) dá 8,6%. A diferença é de quase 20 vezes.

O contraste no TikTok

A mesma pessoa, o mesmo tipo de conteúdo, outra plataforma: no TikTok, onde tem 10 milhões de seguidores, o vídeo mais assistido de Nikolas em 2026 teve 12,3 milhões de visualizações — queda de quase 90% em relação ao Reel do Nordeste. Grande parte dos vídeos dele na rede da ByteDance não chega à casa do milhão.

O dado não prova nada sozinho — as bases de seguidores são diferentes (10 milhões contra 25 milhões) e as duas plataformas distribuem de formas distintas. Mas ele enfraquece a explicação mais simples, a de que o conteúdo seria irresistível por si só em qualquer lugar. Se o vídeo fosse imbatível por mérito próprio, seria estranho que ele não viajasse também fora do Instagram.

O que a Meta diz

Em nota, a empresa afirmou que o número de seguidores não determina o alcance e que contestaria “alegações enganosas de que contas de políticos não podem superar o desempenho de celebridades globais simplesmente por terem menos seguidores”.

“É o engajamento, e não o número de seguidores, que impulsiona o alcance e o desempenho de um conteúdo. Basear essas alegações no número de seguidores demonstra uma compreensão equivocada de como nossas plataformas funcionam.”

O que ninguém sabe ainda

O relatório do Sleeping Giants não conclui que a Meta favoreceu deliberadamente o deputado. Ele lista quatro explicações possíveis, e elas não são excludentes:

  1. desempenho orgânico genuíno dos vídeos;
  2. circulação por compartilhamentos e por outras redes;
  3. impulsionamento pago — segundo a organização, a conta principal do deputado não impulsiona publicações desde 2022;
  4. distribuição privilegiada pelo sistema de recomendação do Instagram.

Os dados públicos não permitem separar a contribuição de cada hipótese. É precisamente por isso que o TSE pediu os dados internos.

Por que isso importa

O ponto jurídico não é “Nikolas tem muitos views”. É paridade de armas. A Resolução do TSE nº 23.610/2019, atualizada pela Resolução nº 23.732/2024, impõe restrições à recomendação de conteúdo político-eleitoral por plataformas. Em 2024, a Meta anunciou que deixaria de recomendar conteúdo político a quem não segue as contas responsáveis — inclusive na aba Reels. Foi essa regra que manteve o perfil do deputado sob restrição de recomendação entre 25 de agosto e 14 de outubro, e foi ela que deixou de se aplicar a ele depois da decisão do presidente do TSE.

A pergunta que a Sleeping Giants levou ao Ministério Público Eleitoral é direta. Nas palavras do diretor jurídico da entidade, Humberto Riberito: “Se o Nikolas possuiu algum grau de privilégio, como isso pode ter afetado as eleições proporcionais em MG?” E completa: “Ele elegeu outros 13 deputados. E a gente tem indícios para que o MPE faça uma investigação.”

O argumento tem lastro: no sistema proporcional, o desempenho individual de um puxador de votos define quantas cadeiras o partido ocupa. Uma vantagem de alcance que não exista para os concorrentes não é só um fenômeno de internet — pode ser vantagem eleitoral.

A representação das entidades pede que o MPE requisite, em 48 horas, o histórico de distribuição dos conteúdos do perfil desde janeiro de 2026, com métricas por vídeo, fontes de tráfego e registros de promoção paga. Pede também a preservação dos dados técnicos.

Há ainda uma frente anterior: em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, já havia determinado que a Meta apresentasse, em 48 horas, as medidas aplicadas ao perfil do deputado desde 16 de agosto de 2026. E o TSE havia proibido a Meta de interferir na distribuição de conteúdo político-eleitoral até o fim do segundo turno, em 25 de outubro, sob pena de R$ 500 mil por dia.

POR

Redação Cria Brasil

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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