A pesquisadora Érica Mariosa Moreira Carneiro lançou, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), um estudo que analisa como o modelo de plataformas digitais dificulta o acesso à informação no Brasil. O trabalho, publicado recentemente, investiga o período da pandemia de Covid‑19 e busca compreender por que a informação não se tornou universal. O objetivo é evidenciar barreiras que comprometem o direito de todos de se informar.
O estudo introduz o conceito de Permacrise para explicar como diferentes crises – sanitária, econômica e midiática – se entrelaçaram e criaram um estado de instabilidade permanente. A pesquisa reconstruiu uma linha do tempo informacional do primeiro ano da pandemia, identificando a disputa pelo controle das narrativas como elemento central. Assim, a autora argumenta que a crise de informação é tão grave quanto a crise de saúde.
Os dados apontam que, em 2021, 47% dos acessos à internet no país eram feitos por celulares com planos pré-pagos, o que condiciona a busca por notícias ao preço dos dados. Ao mesmo tempo, o país já enfrentava um apagão jornalístico: 602 veículos de comunicação fecharam nos últimos 30 anos, e 61 encerraram atividades apenas em 2020. Esses números revelam como a oferta de informação está se estreitando.
A chamada subversão do modelo de comunicabilidade desloca a produção de conteúdo das instituições tradicionais para as plataformas digitais. Segundo o conceito de Jesús Martín‑Barbero, o modelo anterior era “um‑para‑muitos”, enquanto agora a circulação fica fortemente mediada por algoritmos e regras comerciais. As plataformas, portanto, decidem quais pautas ganham visibilidade, dificultando a transparência da seleção informacional.
Durante a pandemia, a limitação de acesso à informação tornou‑se questão de sobrevivência para comunidades vulneráveis. Quando a informação sobre protocolos de saúde ou benefícios sociais não chega a quem tem plano pré‑pago limitado, a população fica à margem das políticas públicas. A pesquisa destaca que garantir a universalidade da informação é imprescindível para a participação social.
Os autores recomendam políticas que ampliem a pluralidade midiática e reduzam a dependência de plataformas privadas. Medidas como a expansão de redes de broadband públicas, incentivos a veículos comunitários e a regulação de algoritmos são vistas como caminhos para mitigar a “Permacrise”. A UNICAMP reforça que o debate deve se conectar às necessidades reais das periferias, onde o acesso à informação ainda é desigual.