Em entrevista exclusiva ao Espaço do Povo, Elisabete França detalha obras de R$ 2,33 bilhões, planos para novas moradias e desafios do reassentamento de famílias.
A história de Paraisópolis, a maior comunidade de São Paulo em número de habitantes, é marcada pelo crescimento populacional, pela força de seus moradores e por desafios urbanísticos que atravessam gerações.
Originada de um loteamento criado em 1921, na antiga Fazenda do Morumbi, na Zona Sul da capital, Paraisópolis passou por um intenso processo de ocupação, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980, quando milhares de famílias chegaram em busca de trabalho e melhores condições de vida.
Ao longo dos anos, o crescimento acelerado e a ocupação de um território com espaço limitado para expansão agravaram problemas que fazem parte do cotidiano da comunidade. A alta densidade populacional, as ruas estreitas, as vielas e a falta de espaços adequados para circulação de pedestres e veículos tornaram a mobilidade um dos principais desafios locais, ao lado de demandas históricas por moradia, saneamento básico e infraestrutura.
É nesse cenário que surge o Nova Paraisópolis, projeto de transformação urbana que prevê investimentos de R$ 2,33 bilhões em intervenções de infraestrutura, habitação, mobilidade e equipamentos públicos nas áreas de saúde, lazer e esporte.
A iniciativa pretende alcançar não apenas Paraisópolis, mas também as comunidades vizinhas do Jardim Colombo e Porto Seguro, reacendendo o debate sobre como melhorar as condições de vida dos moradores sem comprometer os vínculos sociais e a identidade construída no território.
Nesta semana, o jornalista e fundador do jornal Espaço do Povo, Joildo Santos, que desde 1998 vive na comunidade, foi até o número 504 da Rua Liberó Badaró, no Centro da capital paulista, endereço da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, para entender mais sobre o revolucionário projeto.
Lá, ele foi recebido por Elisabete França, secretária da pasta responsável pela implementação do programa. Na entrevista, eles conversaram sobre como o maior projeto de urbanização já realizado na cidade de São Paulo impactará a vida das mais de 58 mil pessoas que vivem na região.
Joildo Santos: O sonho de toda comunidade é que a urbanização chegue, mas ela quer usufruir dessa urbanização. Como será esse desafio de compatibilizar o que a prefeitura está propondo e os desejos que a própria população tem para Paraisópolis, já que as pessoas não querem sair da comunidade e todas as outras questões associadas à urbanização?
Elisabete França: A gente conhece a realidade das três comunidades, Paraisópolis, Colombo e Porto Seguro, e acho que agora a gente tem uma grande oportunidade. Com a mudança da Lei Faria Lima, que permitiu incluir o território dessa região nos benefícios, recursos, que a gente arrecadou no CEPAC. Por isso nós vamos ter uma obra cuja continuidade está garantida, já que os recursos estão no banco aguardando as obras.
A gente retomou o projeto, fez um levantamento grande de todas as necessidades, tem conversado bastante com as várias organizações sociais e temos ouvido o que esses vários setores têm demandando. Claro que sempre que sempre vai haver uma urbanização, as pessoas temem perder suas casas, mas também nós incluímos um grande projeto de novas construções. Então está garantido que quem, por ventura, tiver sua casa afetada, terá um reassentamento para uma unidade nova. Mas a gente sabe que a obra da urbanização é muito complexa, tem que ter paciência. Vai afetar o dia a dia, principalmente quando você vai fazer a infraestrutura de saneamento básico, abre a rua, incomoda as pessoas, incomoda o comércio, tem que fechar à noite, é um jogo de muito cuidado, delicadeza ao tratar com as famílias, com o espaço público, mas a gente reuniu um time com bastante experiência nessa área de urbanização.
Joildo Santos: É diferente realizar uma obra em um território em comparação a outros lugares da cidade, porque existem questões como regularização fundiária, os próprios comércios, não é simples estar num território de favela, informais que existem em São Paulo. Qual a expectativa para o início das obras e de entrega do projeto de reurbanização?
Elisabete França: O edital foi lançado e dividido em três lotes e, nós dividimos em três lotes, conforme bacias hidrográficas e toda uma técnica de obras, para caminhar separadamente. Se fosse um só, seria muito trabalho para uma empresa por conta da dimensão do projeto. O prazo para a entrega das propostas é daqui 10 dias, e aí tem o prazo de análise das propostas, dos documentos, e prazos normais que a legislação prevê. Eu acredito que no início do ano que vem a gente possa começar a realizar as obras. Se tudo correr bem, a ideia é essa. Com expectativa de quatro anos de obras e entrega, a princípio porque a gente sabe que não é fácil, em 2031.

“O mais complicado é o saneamento básico e as obras de risco”
Em meio aos pontos abordados na conversa, a secretária explicou que projeto contempla intervenções estruturais nas três comunidades, incluindo a ampliação do saneamento básico, a construção de equipamentos públicos e melhorias na mobilidade.
“A gente colocou no edital os projetos, todo saneamento básico, das três comunidades. Tem muito equipamento público, que é mais fácil, só entrar no terreno e fazer. Tem a extensão da avenida Hebe Camargo, que depende de desapropriação, mas que já está andando também.”
Elisabete destacou que as maiores dificuldades estarão nas áreas densamente ocupadas e nos locais identificados como regiões de risco.
“O mais complicado é o saneamento básico e as obras de risco, porque tem muita área de risco, a gente sabe que é difícil porque as pessoas não querem sair, mas é perigoso. Por isso é uma obra a princípio de quatro anos, mas que pode ser estendida.”
Estudos preveem reconstrução de quadras e novas moradias
Durante a entrevista, Joildo Santos levantou uma das questões mais sensíveis do programa: o destino das famílias que precisarão deixar suas residências para permitir a execução das obras.
O jornalista questionou se os reassentamentos ocorrerão dentro do próprio território, em áreas próximas ou se essas definições serão tomadas ao longo da execução.
Em resposta, Elisabete revelou que a Prefeitura já realizou estudos para reconstruir quadras em regiões onde a ocupação dificulta a instalação de infraestrutura básica.
“Em relação ao reassentamento, nós fizemos alguns estudos de quadras que podem ser reconstruídas, isso dá um número de, se não me engano, duas mil unidades — áreas muito densas, onde não é possível coletar esgoto e levar água. Então, essas quadras podem ser redesenhadas com novas unidades. E também fora.”
Ainda de acordo com a secretária, a estratégia habitacional inclui outras alternativas, como o programa Pode Entrar (iniciativa da prefeitura de São Paulo que facilita o acesso à moradia por meio da aquisição de imóveis, cartas de crédito, locação social e parcerias com entidades ou empresas)
Ela ponderou, entretanto, que as intervenções dependerão de um processo de negociação e acompanhamento das famílias.
“Esse conjunto de ações acontece por meio de um trabalho social imenso, de conversar com os moradores, ouvir as necessidades, de negociar com as famílias. Mas tem certas obras que as famílias vão ter que sair e esperar um pouco no aluguel, isso acontece.”
“É necessário que a gente abra espaços de respiro em Paraisópolis”
A abertura e ampliação de vielas, assim como a criação de áreas livres para melhor circulação, também foram abordadas na conversa.
Joildo questionou se a Prefeitura já havia dimensionado quantas famílias seriam afetadas por essas intervenções. Segundo ela, a contratação das obras foi realizada por meio de uma licitação integrada, modelo no qual o projeto executivo será implementado durante a execução. “A gente fez uma licitação, que é do tipo integrada, em que o projeto executivo vai ser desenvolvido à medida que as obras vão andando. Então, é necessário que a gente abra espaços de respiro em Paraisópolis. A população não tem área livre, espaços de lazer.”
Sobre a quantidade de famílias que precisarão deixar suas casas, Elisabete reconheceu que ainda não é possível apresentar um número definitivo.“Mas, claro, que tudo isso vai ser discutido quando a obra começar, entender as dificuldades. Por isso, não dá para definir isso com precisão.”
Grotão poderá receber escola de música em área hoje considerada de risco
Entre as intervenções previstas, Elisabete destacou projetos para o Antonico, a região da Itapaiuna e o Grotão, onde a Prefeitura pretende construir uma escola de música.
Com aproximadamente 1,5 km de extensão, o córrrego do Antonico atravessa a comunidade com destino às ruas do Morumbi e há décadas sofre com episódios de enchentes e alagamentos.
A ideia, de acordo com a secretaria, é construir um parque linear integrando áreas verdes e espaços de convivência à beira do leito reurbanizado. “A continuidade do Antonico é importante que se transforme em uma área bacana, de esporte, para as crianças.”
Enquanto para o Grotão, identificado no sistema municipal de áreas de risco e sob condições geológicas que exigem atenção, o programa prevê a construção de uma escola de música. “O Grotão tem um solo mole e pode desabar. E a gente vê que as chuvas são cada vez mais intensas em nossa cidade.
A ideia é construir uma escola de música e dar continuidade às atividades da Companhia de Balé de Paraisópolis. “Um projeto que já é um sucesso, a gente sabe dos resultados. Quantas crianças e adolescentes foram beneficiados com esse trabalho. É importante que as famílias entendam que isso é um benefício para os filhos também, de atividade complementar além da escola.
Segundo Elisabete, as famílias afetadas pelas intervenções deverão receber atendimento habitacional e esclarecimentos sobre os riscos existentes. “Mas quando a gente for trabalhar lá, as pessoas vão ser atendidas, com novas moradias e vamos explicar o porquê.”
Ela também destacou a importância de conversar com os moradores sobre as condições do terreno.“A princípio a pessoa acha que está em um lugar seguro, mas não está. Mas isso tudo vai ser conversado com calma e a população vai ganhar um grande equipamento público maravilhoso.”
Números divulgados pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), os desastres socioambientais e acidentes em áreas de risco (como deslizamentos de terra, enchentes e inundações) já provocaram mais de 3.200 mortes no Brasil em pouco mais de uma década (entre 2013 e 2026).
Além disso, levantamentos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil e do IBGE apontam que entre 5 milhões e 8,3 milhões de brasileiros vivem em zonas de perigo (como encostas de morros e margens de rios sujeitas a deslizamentos ou alagamentos).
Saúde, creches, cultura e esporte estão entre os equipamentos previstos






Além das obras de infraestrutura, o Nova Paraisópolis contempla novos equipamentos públicos nas áreas de saúde, educação, assistência social, esporte e cultura.
Elisabete explicou que diferentes secretarias municipais participaram do planejamento para identificar as necessidades das comunidades.
“A gente tem um grupo de secretarias que fazem parte de um grupo. Ouvimos as necessidades que cada uma tem.”
Na área da saúde, a previsão é de construir equipamentos próximos às unidades já existentes. “Então, a de saúde indicou alguns equipamentos que vão ser construídos ali do lado onde já tem aquele grupo de três equipamentos, UPA, UBS.”
A secretária também mencionou investimentos na educação e na assistência social, além de intervenções em espaços esportivos.
“A Educação também indicou alguns equipamentos para a construção de creches. Isso também no Jardim Colombo e Porto Seguro. Equipamentos de Assistência Social para mulheres, de esporte que também foram solicitados, como melhorias para o Palmeirinha, entre outros projetos.”
Para Elisabete, a oferta de atividades culturais e esportivas tem papel importante na formação de crianças e adolescentes, criando oportunidades de desenvolvimento para além da escola.
“A ideia não é tirar as pessoas“, afirma Elisabete França
Além das intervenções em saneamento básico, habitação e mobilidade, o Nova Paraisópolis prevê a construção de equipamentos públicos destinados à saúde, educação, cultura e esporte.
Para Elisabete França, essas estruturas terão papel importante na ampliação das oportunidades para crianças e adolescentes, além de contribuir para o desenvolvimento econômico das comunidades.
“E o resultado, a gente sabe que é melhorar a vida das pessoas. Mas eu acho que a mensagem assim, mais legal, na minha opinião, é que tem um número muito grande de equipamentos sociais.”
A secretária também destacou a importância de criar espaços que ofereçam novas perspectivas para os moradores, especialmente para as gerações mais jovens.“Então a ideia é desenvolver esporte, cultura, e, principalmente, para a meninada. A gente dá perspectivas de vida para o pessoal, de comércio estar ali com saneamento básico, com uma rua bacana.”
Com previsão inicial de quatro anos de execução, o programa deverá enfrentar desafios que incluem a reorganização de áreas densamente ocupadas, a ampliação de vielas e o reassentamento de famílias. Embora reconheça que determinadas intervenções exigirão a saída temporária ou definitiva de moradores de suas atuais residências, Elisabete procurou afastar a percepção de que o projeto tenha como finalidade promover remoções em larga escala.
Ao abordar essa preocupação, a secretária reforçou que o objetivo é garantir melhores condições de infraestrutura e qualidade de vida para as populações de Paraisópolis, Jardim Colombo e Porto Seguro.
“A imprensa tem divulgado o projeto de um modo geral, mas às vezes pode passar uma ideia de que é um projeto que vai tirar as pessoas. Não é isso. A ideia é transformar esses três lugares em bairros com infraestrutura, principalmente com saneamento básico universalizado, tirar áreas de risco, mobilidade, que é um item importante”, afirmou.