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Midterms 2026 dos EUA: onda azul, aprovação de Trump em 31% e o Senado em cinco estados

Com a aprovação mais baixa dos seus dois mandatos, uma guerra no Oriente Médio e a gasolina pesando no bolso, o presidente aposta US$ 740 milhões, e até um cheque de US$ 5 mil, para evitar a maior derrota republicana em décadas. O Senado deve ser decidido em cinco estados. E o resultado chega ao Brasil em forma de tarifa.

O Capitólio dos Estados Unidos ao anoitecer sob nuvens escuras de tempestade, com uma urna branca sobre uma mesa no primeiro plano.
O Capitólio, em Washington: o Congresso que sai das urnas em 3 de novembro define o que resta do poder de Trump nos dois últimos anos de mandato. Imagem ilustrativa gerada por IA (FLUX.2) — não retrata um evento real.

Todo presidente americano perde cadeiras na eleição de meio de mandato. É quase uma lei da física política: desde a Segunda Guerra Mundial, o partido do ocupante da Casa Branca só escapou ileso duas vezes — os democratas de Bill Clinton, em 1998, e os republicanos de George W. Bush, em 2002, no auge do pós-11 de Setembro. Donald Trump chega a 3 de novembro decidido a ser a terceira exceção. As pesquisas dizem que ele será, de novo, a regra.

A onze dias do pleito, o Reuters/Ipsos marcou 31% de aprovação — o pior patamar dos dois mandatos de Trump e um ponto abaixo da rodada anterior. O Washington Post/ABC/Ipsos encontrou 33%, com 66% de desaprovação e 52% de rejeição “forte”. Na disputa genérica para o Congresso, os democratas abriram 47% a 35%: a maior vantagem do ciclo. Entre as mulheres, o placar é de 50% a 32%.

Traduzindo: não é uma eleição sobre o Congresso. É um referendo sobre um presidente que prometeu baratear a vida e, 21 meses depois, entrega uma guerra, juros em alta e gasolina cara.

31%+1216 mi4
Aprovação de Trump (Reuters/Ipsos, 16–19/10)Vantagem democrata na disputa pelo CongressoVotos já depositados em 41 estados e no DCCadeiras no Senado que os democratas precisam virar

16 milhões de votos já depositados

Quem duvida da temperatura da eleição pode olhar para as filas. Mais de 16 milhões de americanos em 41 estados e no Distrito de Columbia já votaram — 10 milhões pelo correio e 6 milhões presencialmente, segundo o Election Lab da Universidade da Flórida. Na terça-feira, o total era de 13 milhões: 40% acima do registrado no mesmo ponto de 2022.

Os números contam uma história geográfica. O Kansas e o Texas tiveram saltos de participação; Maine, Carolina do Norte e Ohio cresceram pelo menos 30% — e são exatamente os estados onde os democratas tentam arrancar cadeiras republicanas no Senado. Não é coincidência: é dinheiro, militância e medo do resultado convergindo para os mesmos lugares.

As midterms são a chance de o povo ir às urnas e dizer: “já basta”.Elizabeth Warren, senadora democrata por Massachusetts

Nem tudo são boas notícias para a oposição: em Geórgia e Michigan, onde os democratas defendem cadeiras, a votação antecipada está no mesmo ritmo de 2022. O entusiasmo, por enquanto, é seletivo — e a eleição ainda será decidida por quem não votou.

O que se vota — e por que vale mais do que parece

A Câmara renova os 435 assentos; a maioria é de 218. O Senado renova 35 cadeiras — 22 republicanas (incluindo as especiais da Flórida e de Ohio, abertas quando os titulares saíram para o governo Trump) e 13 democratas. Os republicanos têm 53; o bloco democrata, 47 (45 democratas e os independen​tes Bernie Sanders e Angus King). Para chegar a 51 e virar a mesa, os democratas precisam de quatro ganhos líquidos. Em caso de empate em 50 a 50, o voto de desempate é do vice-presidente J. D. Vance.

Também estão em jogo 36 governos estaduais, as assembleias que desenharão os mapas da próxima década e uma pilha de plebiscitos — do aborto ao salário mínimo. Mas o tamanho real da eleição não está em nenhum desses nomes. Está no que um Congresso hostil pode fazer com um presidente que governa por decreto: cortar o orçamento, travar a agenda, abrir investigações, convocar ministros, bloquear juízes e, no limite, tentar encerrar a emergência nacional que sustenta o tarifaço.

É por isso que as midterms americanas nunca são “só” uma eleição legislativa. Elas são o único momento em que o eleitorado pode aplicar um corretivo no presidente sem tirá-lo do cargo — e o sistema político americano foi desenhado exatamente para isso.

Por que Trump chega tão fraco

O buraco é a economia. 68% dos americanos desaprovam a gestão econômica do presidente — inclusive 37% dos republicanos. A inflação voltou; o Federal Reserve subiu os juros em 0,25 ponto em setembro, a primeira alta em três anos, contra a vontade declarada de Trump. E a gasolina disparou com a campanha militar americano-israelense contra o Irã, iniciada em fevereiro. Pela primeira vez em mais de uma década, os democratas passaram a ser vistos como mais confiáveis para gerir a economia: 40% a 33%.

A conta do fechamento de governo mais longo da história — 43 dias, entre outubro e novembro de 2025 — nunca foi paga. A guerra comercial, feita de tarifas anunciadas e retiradas em série, é reprovada por 60% dos eleitores. A política de imigração, por mais da metade.

Há também o desgaste de estilo, que virou material de campanha alheia: a promessa, em setembro, de pagar US$ 5 mil a cada adulto americano caso os republicanos vençam; o anúncio de exploração “massiva” de petróleo e gás na Groenlândia; o acordo com o Irã que, segundo ele, só viria “depois das midterms”. Cada gesto reforça a leitura, dominante entre os eleitores independentes, de um governo que negocia o país como um balcão.

A guerra dos mapas

Esta é a primeira eleição desde os anos 1960 disputada sob mapas redesenhados no meio da década — e ninguém sabe ainda quem levou vantagem.

O Texas aprovou um mapa que pode render até cinco cadeiras republicanas; a Suprema Corte o liberou em dezembro. A Califórnia respondeu com a Proposta 50, aprovada por 64% dos eleitores em novembro de 2025, desenhada para devolver até cinco cadeiras aos democratas. Em fevereiro, a Corte recusou, sem dissidências, o pedido do Partido Republicano e da administração Trump para bloquear o novo mapa.

Na prática, os dois lados trocaram tiros de artilharia e o campo de batalha ficou mais estreito. O Cook Political Report ampliou sua projeção de maioria democrata depois que 19 distritos se moveram contra os republicanos. O Sabato’s Crystal Ball contabiliza 28 mudanças de rating que empurram o total de cadeiras ao menos “inclinadas” aos democratas para além de 218. A média de dez analistas compilada pela RTVE já aponta até 226 cadeiras democratas — 12 a mais do que em 2024.

Cinco estados, um Senado

Se a Câmara parece inclinada, o Senado é uma moeda no ar. Os modelos veem os democratas favoritos em Carolina do Norte e competitivos no Alasca, mas a conta passa por lugares onde o partido não vence uma eleição estadual há décadas.

EstadoConfrontoSituaçãoCenário
Carolina do NorteRoy Cooper (D) × Michael Whatley (R)Cadeira RD favorito
TexasJames Talarico (D) × Ken Paxton (R)Cadeira R49% a 49%
MaineTroy Jackson (D) × Susan Collins (R)Cadeira REmpate técnico
IowaJosh Turek (D) × Ashley Hinson (R)Cadeira R48% a 45% (D)
AlascaMary Peltola (D) × Dan Sullivan (R)Cadeira R47% a 44% / 51% a 49%
NebraskaDan Osborn (ind.) × Pete Ricketts (R)Cadeira RImprevisível
KansasDisputa apertadaCadeira REm aberto
MichiganAbdul El-Sayed (D) × Mike Rogers (R)Cadeira DAperto
GeórgiaJon Ossoff (D) × Mike Collins (R)Cadeira DOssoff à frente
MississippiScott Colom (D) × Cindy Hyde-Smith (R)Cadeira RHyde-Smith à frente

Pesquisas: Fox News (15–19/10, Texas), Marist (8–11/10, Iowa), Data for Progress (8–16/10, Alasca), CNN Poll of Polls e agregadores. Iowa é cadeira aberta: Joni Ernst não disputa a reeleição. No Alasca, o resultado final pode depender das transferências do voto preferencial.

Repare no desenho: os democratas precisam defender Michigan e Geórgia — duas cadeiras próprias — e, ao mesmo tempo, virar quatro em território republicano. É por isso que um erro de mobilização em Detroit ou em Atlanta vale mais do que mil comerciais.

O dinheiro não compra tudo

O campo republicano despejou mais de US$ 740 milhões entre o Dia do Trabalho e 14 de outubro, segundo a AdImpact — US$ 220 milhões por organizações ligadas a Trump. Elon Musk aportou US$ 276 milhões. O Senate Leadership Fund bateu recorde trimestral de arrecadação. O Comitê Nacional Republicano tem oito vezes o caixa do democrata.

E, ainda assim, os republicanos estão tirando dinheiro de disputas que atacavam para defender Texas, Kansas e Nebraska, e reduzindo a presença em algumas corridas na Carolina do Norte e na Câmara. Quando o dinheiro foge da ofensiva para a defesa, a campanha já disse o que as pesquisas dizem.

O que está em alta nesta semana

  1. Voto antecipado recorde16 milhões de votos depositados, alta de 40% sobre 2022, com saltos no Kansas e no Texas e crescimento superior a 30% em Maine, Carolina do Norte e Ohio — os três estados-chave do Senado.
  2. O escândalo das pesquisas falsasUma empresa de sondagens admitiu ter fabricado resultados que circularam na imprensa americana, acendendo o alerta sobre a qualidade dos números na reta final e sobre o uso de pesquisas como arma de campanha.
  3. O cheque de US$ 5 milEm convenção partidária em Dallas, Trump prometeu pagar US$ 5 mil a cada adulto americano se os republicanos vencerem. Economistas de todos os espectros chamaram a conta de ficção; a campanha chama de “dividendo”.
  4. Irã: a guerra que virou inflaçãoA campanha militar iniciada em fevereiro encareceu combustíveis e virou o principal argumento democrata. Trump diz que um acordo com Teerã só sai “depois das midterms” — o que transforma a eleição em plebiscito sobre a guerra.
  5. AOC entra em campoAlexandria Ocasio-Cortez doou US$ 1 milhão à campanha de Abdul El-Sayed em Michigan, gesto incomum pelo tamanho e pela simbologia: é um teste do peso da esquerda do partido — e um ensaio para 2028.
  6. Vance e 2028“Existe, obviamente, a possibilidade de eu não concorrer”, disse o vice-presidente à CBS. Ele promete decidir depois da eleição, considerando a família — sinal de que o resultado de 3 de novembro reordena a sucessão.
  7. Fetterman na convenção republicanaO senador democrata John Fetterman apareceu no palco do partido adversário e disse que trabalhará com Trump. O gesto virou símbolo da fragmentação democrata e combustível para a narrativa republicana de “radicalização” do partido.

Três cenários para a noite de 3 de novembro

O que muda nos próximos anos

A campanha de 2028 começa em 4 de novembro. Se a onda azul se confirmar, o campo democrata entra na pré-campanha com governadores reeleitos em estados-pêndulo, um Senado em disputa e a ala progressista empoderada por vitórias como a de Michigan. Se os republicanos segurarem, Trump termina o mandato com espaço para acelerar a agenda — e a sucessão deixa de ser uma pergunta sobre Vance para virar uma pergunta sobre o próprio Trump.

Para além de quem ganha, o que está em jogo é o desenho institucional. A capacidade do Congresso de frear um presidente, a independência do Federal Reserve — atacado publicamente após a alta de juros —, a credibilidade das pesquisas e a própria ideia de que uma eleição de meio de mandato ainda funciona como termômetro do humor nacional.

E a política externa: um Senado democrata pode bloquear acordos, impor limites à guerra com o Irã e revisar a política de tarifas — três coisas que hoje dependem quase exclusivamente da assinatura de um homem com 31% de aprovação.

E o Brasil?

A eleição americana chega ao Brasil pela alfândega. Desde julho, parte das exportações brasileiras paga sobretaxa de 25%, além de uma tarifa de 10% a 12,5% aplicada a países enquadrados na política americana contra o trabalho forçado. Em 1º de outubro, os dois governos criaram um grupo de trabalho para negociar; Washington prometeu apresentar a proposta de escopo “nas próximas semanas” — ou seja, depois das urnas. Enquanto isso, o Congresso brasileiro espera a instalação da comissão mista que analisa a MP com R$ 18,5 bilhões em crédito subsidiado para exportadores.

O cálculo em Brasília é simples: um Congresso democrata não desmonta o tarifaço sozinho — a maior parte das tarifas é imposta por poder executivo —, mas cria um contrapeso. Comissões podem convocar o USTR, questionar a base legal das sobretaxas e, no limite, votar resoluções para encerrar a emergência que sustenta o tarifaço. Um Senado republicano, ao contrário, dá a Trump o que ele quer para negociar em posição de força.

Há ainda o canal energético: a guerra com o Irã mexe com o petróleo, com o diesel e com a inflação brasileira. E o dólar, que responde à percepção de risco global, responde também à política americana. Para o leitor brasileiro, 3 de novembro não é curiosidade: é a definição de quem vai negociar preço de café, carne, etanol e aço nos próximos dois anos.

Como acompanhar a noite eleitoral

20h (Brasília)Fecham as primeiras seções em Indiana e no Kentucky. São os primeiros sinais, ainda pouco representativos.21hCarolina do Norte, Ohio, Geórgia, Virgínia e Carolina do Sul. A Carolina do Norte é o primeiro grande teste da noite para o Senado.22hFlórida, Pensilvânia, Maine, New Hampshire, Texas e Kansas. Se os democratas virarem o Texas, a noite acabou cedo.23hIowa, Nebraska, Michigan, Minnesota, Colorado. Michigan e Iowa podem definir a maioria.1h de 4/11Alasca, Califórnia e Washington. O Alasca usa voto preferencial e pode levar dias para fechar.

Horários aproximados, convertidos do fuso do Leste americano (UTC−5) para Brasília (UTC−3). Estados com disputa judicial ou recontagem podem atrasar a definição por semanas.

POR

Redação Cria Brasil

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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