Com a aprovação mais baixa dos seus dois mandatos, uma guerra no Oriente Médio e a gasolina pesando no bolso, o presidente aposta US$ 740 milhões, e até um cheque de US$ 5 mil, para evitar a maior derrota republicana em décadas. O Senado deve ser decidido em cinco estados. E o resultado chega ao Brasil em forma de tarifa.

Todo presidente americano perde cadeiras na eleição de meio de mandato. É quase uma lei da física política: desde a Segunda Guerra Mundial, o partido do ocupante da Casa Branca só escapou ileso duas vezes — os democratas de Bill Clinton, em 1998, e os republicanos de George W. Bush, em 2002, no auge do pós-11 de Setembro. Donald Trump chega a 3 de novembro decidido a ser a terceira exceção. As pesquisas dizem que ele será, de novo, a regra.
A onze dias do pleito, o Reuters/Ipsos marcou 31% de aprovação — o pior patamar dos dois mandatos de Trump e um ponto abaixo da rodada anterior. O Washington Post/ABC/Ipsos encontrou 33%, com 66% de desaprovação e 52% de rejeição “forte”. Na disputa genérica para o Congresso, os democratas abriram 47% a 35%: a maior vantagem do ciclo. Entre as mulheres, o placar é de 50% a 32%.
Traduzindo: não é uma eleição sobre o Congresso. É um referendo sobre um presidente que prometeu baratear a vida e, 21 meses depois, entrega uma guerra, juros em alta e gasolina cara.
| 31% | +12 | 16 mi | 4 |
| Aprovação de Trump (Reuters/Ipsos, 16–19/10) | Vantagem democrata na disputa pelo Congresso | Votos já depositados em 41 estados e no DC | Cadeiras no Senado que os democratas precisam virar |
16 milhões de votos já depositados
Quem duvida da temperatura da eleição pode olhar para as filas. Mais de 16 milhões de americanos em 41 estados e no Distrito de Columbia já votaram — 10 milhões pelo correio e 6 milhões presencialmente, segundo o Election Lab da Universidade da Flórida. Na terça-feira, o total era de 13 milhões: 40% acima do registrado no mesmo ponto de 2022.
Os números contam uma história geográfica. O Kansas e o Texas tiveram saltos de participação; Maine, Carolina do Norte e Ohio cresceram pelo menos 30% — e são exatamente os estados onde os democratas tentam arrancar cadeiras republicanas no Senado. Não é coincidência: é dinheiro, militância e medo do resultado convergindo para os mesmos lugares.
As midterms são a chance de o povo ir às urnas e dizer: “já basta”.Elizabeth Warren, senadora democrata por Massachusetts
Nem tudo são boas notícias para a oposição: em Geórgia e Michigan, onde os democratas defendem cadeiras, a votação antecipada está no mesmo ritmo de 2022. O entusiasmo, por enquanto, é seletivo — e a eleição ainda será decidida por quem não votou.

O que se vota — e por que vale mais do que parece
A Câmara renova os 435 assentos; a maioria é de 218. O Senado renova 35 cadeiras — 22 republicanas (incluindo as especiais da Flórida e de Ohio, abertas quando os titulares saíram para o governo Trump) e 13 democratas. Os republicanos têm 53; o bloco democrata, 47 (45 democratas e os independentes Bernie Sanders e Angus King). Para chegar a 51 e virar a mesa, os democratas precisam de quatro ganhos líquidos. Em caso de empate em 50 a 50, o voto de desempate é do vice-presidente J. D. Vance.
Também estão em jogo 36 governos estaduais, as assembleias que desenharão os mapas da próxima década e uma pilha de plebiscitos — do aborto ao salário mínimo. Mas o tamanho real da eleição não está em nenhum desses nomes. Está no que um Congresso hostil pode fazer com um presidente que governa por decreto: cortar o orçamento, travar a agenda, abrir investigações, convocar ministros, bloquear juízes e, no limite, tentar encerrar a emergência nacional que sustenta o tarifaço.
É por isso que as midterms americanas nunca são “só” uma eleição legislativa. Elas são o único momento em que o eleitorado pode aplicar um corretivo no presidente sem tirá-lo do cargo — e o sistema político americano foi desenhado exatamente para isso.

Por que Trump chega tão fraco
O buraco é a economia. 68% dos americanos desaprovam a gestão econômica do presidente — inclusive 37% dos republicanos. A inflação voltou; o Federal Reserve subiu os juros em 0,25 ponto em setembro, a primeira alta em três anos, contra a vontade declarada de Trump. E a gasolina disparou com a campanha militar americano-israelense contra o Irã, iniciada em fevereiro. Pela primeira vez em mais de uma década, os democratas passaram a ser vistos como mais confiáveis para gerir a economia: 40% a 33%.
A conta do fechamento de governo mais longo da história — 43 dias, entre outubro e novembro de 2025 — nunca foi paga. A guerra comercial, feita de tarifas anunciadas e retiradas em série, é reprovada por 60% dos eleitores. A política de imigração, por mais da metade.
Há também o desgaste de estilo, que virou material de campanha alheia: a promessa, em setembro, de pagar US$ 5 mil a cada adulto americano caso os republicanos vençam; o anúncio de exploração “massiva” de petróleo e gás na Groenlândia; o acordo com o Irã que, segundo ele, só viria “depois das midterms”. Cada gesto reforça a leitura, dominante entre os eleitores independentes, de um governo que negocia o país como um balcão.

A guerra dos mapas
Esta é a primeira eleição desde os anos 1960 disputada sob mapas redesenhados no meio da década — e ninguém sabe ainda quem levou vantagem.
O Texas aprovou um mapa que pode render até cinco cadeiras republicanas; a Suprema Corte o liberou em dezembro. A Califórnia respondeu com a Proposta 50, aprovada por 64% dos eleitores em novembro de 2025, desenhada para devolver até cinco cadeiras aos democratas. Em fevereiro, a Corte recusou, sem dissidências, o pedido do Partido Republicano e da administração Trump para bloquear o novo mapa.
Na prática, os dois lados trocaram tiros de artilharia e o campo de batalha ficou mais estreito. O Cook Political Report ampliou sua projeção de maioria democrata depois que 19 distritos se moveram contra os republicanos. O Sabato’s Crystal Ball contabiliza 28 mudanças de rating que empurram o total de cadeiras ao menos “inclinadas” aos democratas para além de 218. A média de dez analistas compilada pela RTVE já aponta até 226 cadeiras democratas — 12 a mais do que em 2024.
Cinco estados, um Senado
Se a Câmara parece inclinada, o Senado é uma moeda no ar. Os modelos veem os democratas favoritos em Carolina do Norte e competitivos no Alasca, mas a conta passa por lugares onde o partido não vence uma eleição estadual há décadas.
| Estado | Confronto | Situação | Cenário |
|---|---|---|---|
| Carolina do Norte | Roy Cooper (D) × Michael Whatley (R) | Cadeira R | D favorito |
| Texas | James Talarico (D) × Ken Paxton (R) | Cadeira R | 49% a 49% |
| Maine | Troy Jackson (D) × Susan Collins (R) | Cadeira R | Empate técnico |
| Iowa | Josh Turek (D) × Ashley Hinson (R) | Cadeira R | 48% a 45% (D) |
| Alasca | Mary Peltola (D) × Dan Sullivan (R) | Cadeira R | 47% a 44% / 51% a 49% |
| Nebraska | Dan Osborn (ind.) × Pete Ricketts (R) | Cadeira R | Imprevisível |
| Kansas | Disputa apertada | Cadeira R | Em aberto |
| Michigan | Abdul El-Sayed (D) × Mike Rogers (R) | Cadeira D | Aperto |
| Geórgia | Jon Ossoff (D) × Mike Collins (R) | Cadeira D | Ossoff à frente |
| Mississippi | Scott Colom (D) × Cindy Hyde-Smith (R) | Cadeira R | Hyde-Smith à frente |
Pesquisas: Fox News (15–19/10, Texas), Marist (8–11/10, Iowa), Data for Progress (8–16/10, Alasca), CNN Poll of Polls e agregadores. Iowa é cadeira aberta: Joni Ernst não disputa a reeleição. No Alasca, o resultado final pode depender das transferências do voto preferencial.
Repare no desenho: os democratas precisam defender Michigan e Geórgia — duas cadeiras próprias — e, ao mesmo tempo, virar quatro em território republicano. É por isso que um erro de mobilização em Detroit ou em Atlanta vale mais do que mil comerciais.

O dinheiro não compra tudo
O campo republicano despejou mais de US$ 740 milhões entre o Dia do Trabalho e 14 de outubro, segundo a AdImpact — US$ 220 milhões por organizações ligadas a Trump. Elon Musk aportou US$ 276 milhões. O Senate Leadership Fund bateu recorde trimestral de arrecadação. O Comitê Nacional Republicano tem oito vezes o caixa do democrata.
E, ainda assim, os republicanos estão tirando dinheiro de disputas que atacavam para defender Texas, Kansas e Nebraska, e reduzindo a presença em algumas corridas na Carolina do Norte e na Câmara. Quando o dinheiro foge da ofensiva para a defesa, a campanha já disse o que as pesquisas dizem.
O que está em alta nesta semana
- Voto antecipado recorde16 milhões de votos depositados, alta de 40% sobre 2022, com saltos no Kansas e no Texas e crescimento superior a 30% em Maine, Carolina do Norte e Ohio — os três estados-chave do Senado.
- O escândalo das pesquisas falsasUma empresa de sondagens admitiu ter fabricado resultados que circularam na imprensa americana, acendendo o alerta sobre a qualidade dos números na reta final e sobre o uso de pesquisas como arma de campanha.
- O cheque de US$ 5 milEm convenção partidária em Dallas, Trump prometeu pagar US$ 5 mil a cada adulto americano se os republicanos vencerem. Economistas de todos os espectros chamaram a conta de ficção; a campanha chama de “dividendo”.
- Irã: a guerra que virou inflaçãoA campanha militar iniciada em fevereiro encareceu combustíveis e virou o principal argumento democrata. Trump diz que um acordo com Teerã só sai “depois das midterms” — o que transforma a eleição em plebiscito sobre a guerra.
- AOC entra em campoAlexandria Ocasio-Cortez doou US$ 1 milhão à campanha de Abdul El-Sayed em Michigan, gesto incomum pelo tamanho e pela simbologia: é um teste do peso da esquerda do partido — e um ensaio para 2028.
- Vance e 2028“Existe, obviamente, a possibilidade de eu não concorrer”, disse o vice-presidente à CBS. Ele promete decidir depois da eleição, considerando a família — sinal de que o resultado de 3 de novembro reordena a sucessão.
- Fetterman na convenção republicanaO senador democrata John Fetterman apareceu no palco do partido adversário e disse que trabalhará com Trump. O gesto virou símbolo da fragmentação democrata e combustível para a narrativa republicana de “radicalização” do partido.
Três cenários para a noite de 3 de novembro

O que muda nos próximos anos
A campanha de 2028 começa em 4 de novembro. Se a onda azul se confirmar, o campo democrata entra na pré-campanha com governadores reeleitos em estados-pêndulo, um Senado em disputa e a ala progressista empoderada por vitórias como a de Michigan. Se os republicanos segurarem, Trump termina o mandato com espaço para acelerar a agenda — e a sucessão deixa de ser uma pergunta sobre Vance para virar uma pergunta sobre o próprio Trump.
Para além de quem ganha, o que está em jogo é o desenho institucional. A capacidade do Congresso de frear um presidente, a independência do Federal Reserve — atacado publicamente após a alta de juros —, a credibilidade das pesquisas e a própria ideia de que uma eleição de meio de mandato ainda funciona como termômetro do humor nacional.
E a política externa: um Senado democrata pode bloquear acordos, impor limites à guerra com o Irã e revisar a política de tarifas — três coisas que hoje dependem quase exclusivamente da assinatura de um homem com 31% de aprovação.
E o Brasil?
A eleição americana chega ao Brasil pela alfândega. Desde julho, parte das exportações brasileiras paga sobretaxa de 25%, além de uma tarifa de 10% a 12,5% aplicada a países enquadrados na política americana contra o trabalho forçado. Em 1º de outubro, os dois governos criaram um grupo de trabalho para negociar; Washington prometeu apresentar a proposta de escopo “nas próximas semanas” — ou seja, depois das urnas. Enquanto isso, o Congresso brasileiro espera a instalação da comissão mista que analisa a MP com R$ 18,5 bilhões em crédito subsidiado para exportadores.
O cálculo em Brasília é simples: um Congresso democrata não desmonta o tarifaço sozinho — a maior parte das tarifas é imposta por poder executivo —, mas cria um contrapeso. Comissões podem convocar o USTR, questionar a base legal das sobretaxas e, no limite, votar resoluções para encerrar a emergência que sustenta o tarifaço. Um Senado republicano, ao contrário, dá a Trump o que ele quer para negociar em posição de força.
Há ainda o canal energético: a guerra com o Irã mexe com o petróleo, com o diesel e com a inflação brasileira. E o dólar, que responde à percepção de risco global, responde também à política americana. Para o leitor brasileiro, 3 de novembro não é curiosidade: é a definição de quem vai negociar preço de café, carne, etanol e aço nos próximos dois anos.

Como acompanhar a noite eleitoral
20h (Brasília)Fecham as primeiras seções em Indiana e no Kentucky. São os primeiros sinais, ainda pouco representativos.21hCarolina do Norte, Ohio, Geórgia, Virgínia e Carolina do Sul. A Carolina do Norte é o primeiro grande teste da noite para o Senado.22hFlórida, Pensilvânia, Maine, New Hampshire, Texas e Kansas. Se os democratas virarem o Texas, a noite acabou cedo.23hIowa, Nebraska, Michigan, Minnesota, Colorado. Michigan e Iowa podem definir a maioria.1h de 4/11Alasca, Califórnia e Washington. O Alasca usa voto preferencial e pode levar dias para fechar.
Horários aproximados, convertidos do fuso do Leste americano (UTC−5) para Brasília (UTC−3). Estados com disputa judicial ou recontagem podem atrasar a definição por semanas.