O paraíso paraguaio tinha um buraco de US$ 850 milhões

Banco digital com 3 milhões de clientes e US$ 850 milhões em dinheiro público quebrou, derrubou Santiago Peña e deixou brasileiros com contas bloqueadas.

Ilustração em quadrinhos: um prédio alto de vidro em uma praça com palmeiras, com um buraco rasgado no meio e uma corrente de moedas e luz azul caindo até o chão, observada por silhuetas de pessoas de costas
Ilustração: o banco de vidro com o buraco no meio, em uma praça com palmeiras — arte do Espaço do Povo

O Banco Central do Paraguai decretou em 2 de novembro a resolução do Ueno Bank, principal banco digital do país, e congelou as contas de 3 milhões de clientes. Três dias depois, o presidente Santiago Peña renunciou. A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em dinheiro público — quase 2% do PIB paraguaio — e escondeu uma carteira de US$ 74,4 milhões em créditos podres.

O que aconteceu com o Ueno Bank

O Conselho de Diretoria do Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu por unanimidade abrir o processo de resolução, o regime da Lei 2.334/03 — a mesma que criou o fundo de garantia de depósitos. O banco deixa de operar e passa a ser administrado por interventores até a dissolução. O motivo está no comunicado oficial: o índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido, após ajustes contábeis feitos na regularização. Desde junho, o Ueno era investigado por emprestar demais a empresas dos próprios donos.

Como o banco quebrou em um dia

Para tirar do balanço os créditos em atraso, o Ueno vendeu a carteira de US$ 74,4 milhões à Vinanzas S.A., empresa do mesmo grupo. A norma proíbe: um banco não pode financiar a compra de ativos por empresa a ele ligada. A saída foi simular que o dinheiro saiu do bolso da compradora.

Na véspera, a Vinanzas tinha US$ 93.828 em conta. Em 15 de junho, o Ueno emprestou US$ 55 milhões a duas empresas intermediárias, que repassaram tudo para uma conta da Vinanzas dentro do próprio Ueno; outros US$ 21 milhões chegaram por triangulação com títulos. No fim do dia, a conta somava US$ 76,06 milhões, e o contrato dizia “venda à vista”. A fraude não criou o rombo: escondeu o rombo.

Por que a Previdência paraguaia estava no banco

O Ueno cresceu sobre duas pernas. A primeira foi a bancarização: os paraguaios com conta em banco saíram de 1 milhão para quase 3 milhões, segundo o economista Amilcar Ferreira. A segunda foi a Previdência: o Instituto de Previdência Social (IPS) chegou a manter 2,15 trilhões de guaranis no banco — mais de 10% de sua carteira e perto de 27% do funding da instituição. A porta foi aberta por mudanças no regulamento de investimentos do IPS entre 2023 e 2024, quando Peña já governava.

Peña foi sócio do grupo controlador até março de 2025 e nomeou para presidir o BCP Carlos Carvallo, que comandara o Ueno até agosto de 2023. O supervisor do banco era o ex-chefe do banco. Carvallo renunciou no mesmo 3 de novembro, e a Justiça decretou prisão preventiva de oito executivos ou ex-executivos.

Quanto cada correntista vai receber de volta

O fundo de garantia cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante, em cada instituição — cerca de R$ 211 mil. A cobertura é por pessoa e por banco, não por conta: dividir o dinheiro em três contas do Ueno não multiplica nada, e quem tinha acima do teto entra na fila da massa falida, junto com o IPS. Para acelerar a devolução, a Câmara aprovou em 4 de novembro um projeto que antecipa o pagamento da garantia. O primeiro lote foi de R$ 14 milhões. Treze fundos de investimento suspenderam resgates.

SEGURO DE DEPÓSITO 75 salários mínimos é o teto por depositante Fonte: BCP, 3/11/2026 — Lei 2.334/03 (≈ ₲ 228,3 milhões)

O teto vale por pessoa e por banco, não por conta — não adianta dividir o dinheiro em várias contas da mesma instituição.

O que muda para os brasileiros que vivem no Paraguai

O Itamaraty estima 270 mil brasileiros vivendo no Paraguai, a maior comunidade brasileira na América do Sul. Uma comerciante de Hernandarias perdeu o caixa da lanchonete e a maquininha. O economista Alexandre Barros da Costa, da Unila e da UFPR, fala em “dezenas de milhares” de afetados.

Vista do centro de Ciudad del Este, no Paraguai, com prédios comerciais, outdoors e movimento de carros e pessoas nas ruas
O centro de Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu: dois terços das transações eletrônicas do grande varejo paraguaio passavam pelo Ueno — Foto: Cmasi/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O Ueno processava 3 milhões de transações por dia e respondia por dois terços das transações eletrônicas do grande varejo. Quase todo o comércio da fronteira com Foz do Iguaçu passava por ele. Mais de 200 empresas brasileiras operam no país desde 2007 e são 69% das indústrias de maquila. Para elas, o risco não é o banco: é o cliente que não consegue pagar.

O país também virou destino de brasileiros: 47.687 pedidos de residência em 2025, alta de 63%, e mais de 23 mil autorizações — o mesmo público que compra pela fronteira e usa a entrega terrestre dos Correios.

Por que a renúncia de Peña não encerra a crise

Peña renunciou em 5 de novembro, no dia em que a Câmara abriu o impeachment. Horas depois, os deputados rejeitaram a carta de renúncia e mantiveram o processo: aceitá-la daria a ele o cargo vitalício de senador e o foro privilegiado. O impeachment do vice, Pedro Alliana, foi rejeitado, e ele assume a presidência.

O que derrubou Peña não foi só o banco: Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado, retirou o apoio ao governo na disputa pela candidatura de 2028. A conta segue aberta: o Paraguai é interlocutor do Brasil na revisão do Anexo C de Itaipu, no corredor bioceânico e na segurança da fronteira.

O “paraíso” vendido — imposto baixo, Estado mínimo, pouca regra — tinha um custo que a propaganda não mostrava: quando o banco quebrou, quem pagou foi o aposentado com a senha no aplicativo. É o roteiro do Banco Master no Brasil, onde o FGC precisou abrir o cofre.