Lito Sousa morreu de pneumonia; viúva cancela Natal e festa do filho
Lito Sousa morreu de pneumonia aos 59 anos, complicação da doença de Creutzfeldt-Jakob. A viúva, Mila Seidl, cancelou o Natal e a festa do filho e relatou a recusa à intubação.
O especialista em aviação Lito Sousa, 59 anos, morreu em 1º de outubro de 2026 por pneumonia, consequência do agravamento da doença de Creutzfeldt-Jakob diagnosticada em agosto. A informação foi detalhada pela viúva, a empresária Mila Seidl, 42, em entrevista divulgada em 3 de novembro. Nesta semana, ela comunicou que não fará as festas de fim de ano da família, a confraternização da empresa nem o aniversário do filho Malone, que completa 8 anos no início de janeiro.
De que morreu Lito Sousa
A causa imediata foi pneumonia. “Para explicar para todo mundo, o Lito não morreu de CJD, ele morreu de pneumonia. Normalmente as pessoas que têm CJD, pelo que pesquisei, acabam falecendo de pneumonia”, afirmou Mila.
Conhecido pelo canal Aviões e Músicas, no YouTube, Lito deixou a mulher e um filho. O quadro respiratório apareceu cerca de cinco dias antes da morte: ele recebeu antibiótico e não teve melhora. Morreu em casa, em cuidados paliativos, 41 dias depois de anunciar o diagnóstico. A morte foi noticiada pelo Espaço do Povo no mesmo dia.
Por que a doença de Creutzfeldt-Jakob leva à pneumonia
A doença de Creutzfeldt-Jakob é causada por príons, proteínas anormais que provocam dano progressivo ao sistema nervoso. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde para a doença, cerca de 84% dos casos são esporádicos, sem forma de transmissão reconhecível.
O que conecta a doença à pneumonia é a perda de função. Mila relatou que o marido deixou de movimentar braços e pernas, perdeu a sustentação do tronco, depois os movimentos do pescoço e da cabeça, até não conseguir mais engolir. Sem deglutição, saliva, líquido ou alimento podem ir para o pulmão em vez de seguir pelo sistema digestivo. É a aspiração, que provoca a pneumonia aspirativa, e a imobilidade também dificulta a eliminação de secreções. Não há informação pública suficiente para afirmar que a pneumonia de Lito tenha sido provocada por aspiração.
O protocolo aponta que a morte geralmente ocorre entre seis meses e dois anos após os primeiros sinais, com média de cinco meses. A doença é de notificação compulsória semanal no Brasil desde 2005. Entre 2005 e 2014, foram 603 suspeitas notificadas, das quais 55 confirmadas.
O que Lito decidiu antes de perder os movimentos
Diante do avanço da doença, Lito deixou um testamento e uma série de declarações de vontade e nomeou o próprio médico como responsável pelas decisões de tratamento. “Não fui eu, porque ele me conhecia, sabia que eu iria com ele até o fim”, contou Mila.
As recusas estavam registradas: ele não queria ser entubado nem permanecer em estado vegetativo. Aceitaria a sonda de alimentação apenas se ela servisse para esperar um remédio e houvesse chance de reversão. A sonda foi colocada quando ele estava prestes a receber a medicação experimental.
Quando a pneumonia não respondeu ao antibiótico, a alternativa seria a intubação, justamente o que ele havia recusado. O médico seguiu a vontade deixada por escrito, decisão que Mila classificou como o momento mais difícil. “Se entubasse, não tinha reversão do quadro, seria mantê-lo vivo artificialmente”, disse. “A gente foi atrás de tudo que existia. Não poupamos nenhum recurso financeiro”, completou. O acesso a tratamentos de alto custo pela rede pública é uma das barreiras para famílias com doenças raras, como mostrou reportagem do Espaço do Povo.

A recusa de intubação tem amparo na lei brasileira
No Brasil, a recusa a tratamentos que só prolongam o sofrimento está nas diretivas antecipadas de vontade. A Resolução nº 1.995/2012 do Conselho Federal de Medicina as define como o conjunto de desejos manifestados pelo paciente sobre cuidados e tratamentos que quer ou não receber quando estiver incapacitado de expressar sua vontade. O artigo 2º manda o médico levar as diretivas em consideração; o parágrafo 3º afirma que elas prevalecem sobre qualquer outro parecer não médico, inclusive sobre os desejos dos familiares; e o parágrafo 4º determina o registro no prontuário.
A Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída pela Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, inclui entre seus princípios o respeito à autonomia e às escolhas da pessoa cuidada, com o Planejamento Antecipado de Cuidados e as diretivas antecipadas, e a orientação de evitar intervenções que prolonguem artificialmente o processo de morrer. Em setembro, o cacique Raoni Metuktire, 94, também passou a receber cuidados paliativos. O cuidado é oferecido na atenção primária, na atenção domiciliar e nos hospitais, e a Ouvidoria-Geral do SUS atende pelo 136, de segunda a sexta, das 8h às 20h.
Quais sinais de pneumonia merecem atenção em quem já está debilitado
Febre, tosse, falta de ar, respiração acelerada e redução da oxigenação pedem avaliação, segundo a pneumologista Adriana Carvalho, fundadora do Instituto Brisa, em Uberlândia (MG). Em pessoas com limitações físicas e neurológicas, as infecções pulmonares podem evoluir de forma mais delicada e as manifestações nem sempre seguem o padrão mais conhecido. O neurocirurgião Leandro Miranda Macedo lembra que o cuidado envolve a segurança do paciente e o suporte à família. “Cada pessoa apresenta necessidades diferentes, e o acompanhamento deve ser individualizado”, afirma.
Como fica a família até fevereiro
Em publicações nas redes sociais na segunda-feira, 2, Mila anunciou que não fará a festa de aniversário de Malone, nem a confraternização da empresa, o Natal e o Réveillon. “Não existe clima neste momento para comemorar absolutamente nada. Adoro festas, mas esse tipo de força eu ainda não tenho”, escreveu. Ela também lamentou não poder celebrar os 60 anos de Lito, que faria aniversário em 25 de janeiro. “Se eu pudesse, eu dormia agora e acordava em fevereiro”, disse.
Em vez do Natal em casa, decidiu viajar para Quebec, no Canadá, com o filho e a mãe, de 73 anos. Os três ficarão em um resort de neve. “Vou estar em um momento bem introspectivo no Natal. Vou sentir muita saudade da nossa família junta”, afirmou. Segundo ela, a decisão foi conversada com o psicólogo.
Nos últimos minutos, Mila pediu que o amigo Mauro, piloto de avião, ficasse ao lado dele com a playlist favorita. Lito morreu em casa, ouvindo “Ordinary World”, do Duran Duran.