Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) lançou a Plataforma Digital da Sociedade Autista, um laboratório de inclusão voltado a pessoas neurodivergentes, no campus paulistano, em setembro de 2026. O projeto reúne pesquisa e inovação para criar tecnologias que facilitem a rotina dos autistas.
Cinquenta alunos autistas, de três níveis de necessidade de suporte, ingressaram no curso de capacitação para o mercado de trabalho oferecido como extensão universitária. Eles utilizam inteligência artificial, planilhas e outras ferramentas digitais. O programa termina no final de setembro e os participantes já contratados por empresas parceiras terão acompanhamento por três meses.
Renata Borga Casella, 30, formada em biomedicina, lidera a oficina de tecnologia. Ela afirmou: “Gostei muito de aprender PowerPoint, Excel e a mexer no Gemini.” A experiência visa orientá‑la para uma transição profissional rumo à área de tecnologia.
Emanuel Santana, professor e pesquisador colaborador da Poli, desenvolveu o Adapte Board, modelo nacional de prancha de comunicação aumentativa e alternativa. O recurso pode ser baixado gratuitamente para smartphones e computadores, permitindo personalização e envio de mensagens. Segundo o pesquisador, “A gente coloca a acessibilidade na palma da mão da pessoa, no dispositivo que ela já tem. Foi pensando para ter perenidade e ser muito mais sustentável que os modelos importados”.
Eduardo Mancebo, arquiteto formado pela FAU-USP e especialista em orientação prática de indivíduos no espectro, apoiou Lucas Felipe Pereira Domingues, estudante de engenharia da computação, na criação de um dispositivo baseado em IA que auxilia autistas a compor músicas. O algoritmo gera áudio em cerca de dois minutos; para reduzir a ansiedade, a tela de espera inclui um jogo de estourar bolhas e um guia de respiração.
Jorge Luis Risco Becerra, professor da Poli e responsável pela iniciativa, destacou que o projeto transforma alunos em cidadãos que pensam em soluções sociais. Ele explicou que gerar impacto permite que o estudante contribua para a sociedade desde a formação.
Alunos da disciplina de circuitos digitais foram desafiados a desenvolver tecnologias úteis ao cotidiano da população autista. No meio do ano, apresentaram 24 novidades em uma feira de conhecimento, entre elas a pulseira SensiLogic, que monitora batimentos cardíacos e converte sinais de estresse em alertas visuais, e o dispositivo Aces, que identifica frequências sonoras incômodas. Também foram lançados os sistemas Expressa e LiteralMente, que facilitam comunicação não verbal, e o Aventura Financeira, tabuleiro eletrônico que ensina escolhas econômicas.
O laboratório funciona como extensão universitária gratuita, aberto a estudantes da comunidade e a empresas parceiras que contratam os formados. A iniciativa reforça a conexão entre a academia e o mercado de trabalho, ampliando oportunidades para autistas e contribuindo para a inclusão social.