Valorizamos muito o trabalho nos dias atuais. Nem bem nasce um filho, pais e mães imaginam o que ele ou ela fará no futuro, pensam sobre quanto custará sua longa formação escolar etc. Se há poucas décadas o sonho dourado das mães de classe média ou baixa era que o herdeiro tivesse um emprego no Banco do Brasil, com toda a estabilidade que lhe permitisse uma boa aposentadoria, hoje talvez elas almejem que seus filhos sejam futuros influencers, com milhões de seguidores nas redes sociais ou empreendedores na área de tecnologia – de preferência, em atividade ligada à inteligência artificial.
Mas nem sempre foi assim. Ao longo da história humana, durante muito tempo não havia qualquer nobreza no trabalho, principalmente em se tratando de atividade braçal. A labuta era, basicamente, atribuição de escravos.
Na Roma antiga, por exemplo, o trabalho era considerado degradante para a elite. Realmente relevantes eram os debates políticos ou filosóficos, a convivência com os pares e a condução de cidades ou de exércitos em guerras. Tais tarefas nobres eram, obviamente, exclusivas dos ricos. Às mulheres, como sempre, estavam reservadas as atribuições domésticas. Só nas décadas mais recentes surge a expectativa de que elas desempenhem funções remuneradas fora de casa, a despeito da desigualdade ainda existente.
Conceitualmente nada mudou na Idade Média: o trabalho duro era confiado aos servos, dominados pelos senhores. Nesse contexto, o ócio e o lazer eram atividades realmente nobres. O trabalho era degradante.
A lógica de valorização do trabalho é, portanto, bem mais moderna. No modelo capitalista, desempregados são párias, e quem não tem gosto pelo trabalho é considerado simplesmente um vagabundo.
Mas eis que estamos prestes a novamente mudar o paradigma: o megaempresário da tecnologia – criador da Tesla e da empresa de transporte espacial SpaceX, controlador da rede social X (ex-Twitter) – tem dito que, com os avanços da inteligência artificial e da robótica, o trabalho humano será descartável. Segundo ele, isso deve acontecer em breve: daqui a 10 ou 20 anos. De certa forma, estamos vendo o início do processo: a inteligência artificial vem substituindo o trabalho humano em diversos tipos de atividades e empresas.
Nada contra o fato de os recursos disponíveis para a sobrevivência da humanidade se tornarem fartos, após milênios de escravidão, fome e pobreza. Segundo Musk, robôs e sistemas inteligentes poderão cuidar da produção de alimentos, prover água farta, eletricidade, saneamento, saúde etc. O visionário também fala de uma renda básica universal, que não dependerá do trabalho. Entre nós, ironizando um pouco: a revolução proletária não levou ao socialismo – mas o maior dos capitalistas, o homem mais rico do mundo, talvez consiga ajudar a concretizar tal profecia: habitarmos em tal mundo paradisíaco, num futuro próximo.
Pensando alto aqui: nesse ambiente de filme distópico, dominado por máquinas e com fartura nunca vista, o que faremos? Eu já trabalhei bastante, por gosto e também necessidade, então senti-me útil a vida toda. Se estiver viva quando essa nova realidade chegar – se chegar –, ok. Vou continuar com meus planos, minhas bandas de música, ler muito, prosear com a família e amigos.
Mas meus netos e seus contemporâneos terão de experimentar uma transição e tanto: estão crescendo sob a lógica do trabalho insano, estudando e se preparando para uma vida como a que conhecemos hoje. E se Musk estiver certo, o trabalho será opcional, como se fosse um hobby. Será uma guinada radical, não necessariamente ruim. Difícil será chegar até lá, considerando as sandices dos conflitos globais aos quais assistimos hoje…