Quadrilhas internacionais especializadas em roubo de carga têm como novo alvo a infraestrutura que sustenta a expansão da inteligência artificial nos Estados Unidos. Desde junho de 2024, mais de US$ 100 milhões em equipamentos para data centers foram desviados durante o transporte rodoviário, segundo investigadores e associações do setor ouvidos por veículos de imprensa americanos.
Dois casos emblemáticos ocorreram em trechos de rodovias interestaduais. No deserto de Mojave, uma escolta de segurança foi abalroada propositalmente para forçar a parada de um caminhão que transportava US$ 13 milhões em servidores; a carreta foi encontrada vazia em um pátio na Califórnia. Em outro episódio, também com colisão intencional contra a escolta, desapareceram US$ 10 milhões em componentes de racks de servidores.
Gerardo Pachucha, ex-integrante da equipe de combate a roubo de carga do xerife do condado de Los Angeles, afirma que as batidas não foram acidentes. “Os bandidos queriam aquela carga, então eliminaram as escoltas de propósito”, diz. Keith Lewis, chefe de operações da Verisk CargoNet, compara o valor do material a lingotes de ouro: “Já vimos roubos únicos passarem de US$ 30 milhões. É muito mais fácil roubar isso do que assaltar um banco”.
Além dos servidores, as quadrilhas visam cobre, fibra óptica, módulos de memória RAM e discos de armazenamento — insumos essenciais para montar os centros de processamento. Scott Cornell, presidente da Transported Asset Protection Association (TAPA) nas Américas, descreve as organizações como “anéis de alto nível operando a partir de uma dúzia de países, planejados, estratégicos, jogando xadrez na cadeia de suprimentos”. Não são amadores.
Em abril, o FBI emitiu alerta sobre o chamado “roubo de carga ciberneticamente habilitado”: criminosos falsificam e-mails de corretores para acessar sistemas de logística, vencem lances de frete e desviam as mercadorias para motoristas cúmplices, que fazem a transferência em galpões intermediários antes da revenda. A tática digital soma-se à violência nas estradas.
Como resposta, Arizona, Califórnia, Tennessee e Illinois criaram forças-tarefa especializadas em roubo de carga. Empresas de escolta armada relatam demanda crescente de operadores logísticos de data centers. No Congresso, tramita projeto de lei para combater o crime organizado no varejo, que pode ampliar ferramentas de investigação também para o roubo de cargas de alto valor tecnológico.