Recentemente, na festa dos 30 anos do Grupo UOL — onde trabalho desde o início —, o auge (após outros eventos muito interessantes, como um debate com especialistas em brasilidade) foi a apresentação de Ney Matogrosso. De fato, um artista perfeito e surpreendente.
Já tinha lido matérias e uma biografia sobre ele, todas reiterando sua coragem: Ney foi embora de casa aos 17 anos, ameaçado pelo pai militar, que não aceitava sua homossexualidade e, mais ainda, sua não subserviência. Mesmo em sua banda “Secos e Molhados”, de sucesso meteórico e retumbante entre 1973 e 1974, assustava por sua irreverência, suas vestes exóticas e suas danças sensuais. Vê-lo agora no palco, aos 85 anos, com roupas prateadas, dançando como um jovem e, principalmente, cantando maravilhosamente, é um espanto para a plateia.
Mas ponderei com meus bordados (minha roupa não tinha botões): além de todos os inegáveis méritos do artista, ajuda muito a estrutura que um astro já consagrado pode arregimentar: o palco lindamente decorado, a iluminação que anima o cenário e privilegia os movimentos corporais, equipamentos e técnicos de som perfeitos, e uma ótima banda (incluindo metais que dão brilho especial às interpretações).
Muito diferente dos pobres artistas amadores — eu inclusive, que tenho duas bandas (uma com cada filho), por puro prazer e sem qualquer ilusão de atingir plateias além das formadas por generosos parentes e amigos. E perrengues não faltam: eu já me perdi em letras de músicas, equipamentos falharam, o técnico da mesa de som sumiu…
Uma das melhores histórias de perrengues musicais me foi relatada por um amigo de uma banda amadora de metaleiros. A banda fora contratada para uma série de shows num pesqueiro, anunciados com pompa. Lá chegando para o primeiro show, num sábado à tarde, já houve um certo estranhamento dos músicos: o “palco” era até ecológico, embaixo de árvores, mas todos os equipamentos (caixas de som, instrumentos, microfones) seriam ligados a uma única tomada improvisada. Preocupante, mas o que não se faz por amor à música, né?
Ao escurecer, com a plateia animada (e já embriagada), inicia-se o show. A banda toca as primeiras músicas, com os adeptos já se preparando para o ritual metaleiro do “bate-cabeças”, quando um estranho fenômeno se inicia: dezenas de galinhas e alguns galos se aproximam e começam a escalar as árvores cujas copas encobriam o palco. Alguns questionavam: seriam aves fãs da banda?
A verdade era outra: aquele era o dormitório das galinhas e dos galos. Se aquela era a rotina de todos os dias, não seria uma barulheira que os impediria de usufruir do sono dos justos. Os músicos se preocuparam com a possibilidade de serem “presenteados” com excrementos vindos das árvores, mas esse seria o menor dos problemas.
Num dado momento, uma das galinhas — talvez a líder, em tempos feministas — desceu do ninho. Caminhou solenemente até o local da tomada que ligava todos os equipamentos e… puf! Bicou de forma certeira, desligando tudo de uma vez.
Teria sido intencional? A galinha-líder não teria aprovado o palco sob o dormitório da sua turma? Jamais saberemos. Mas sabemos que foi o fim daquele show e da série no pesqueiro.