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✍️ OPINIÃO Este é um artigo de opinião. As ideias expressas são de responsabilidade do autor.

Perrengues musicais

judith
🎤 Convidado
💚 Colaborador Voluntário

Judith Brito

É mãe, avó e executiva do Grupo Folha e do Grupo UOL.

📅 18 set 2026 ⏱️ 3 min de leitura

Recentemente, na festa dos 30 anos do Grupo UOL — onde trabalho desde o início —, o auge (após outros eventos muito interessantes, como um debate com especialistas em brasilidade) foi a apresentação de Ney Matogrosso. De fato, um artista perfeito e surpreendente.

Já tinha lido matérias e uma biografia sobre ele, todas reiterando sua coragem: Ney foi embora de casa aos 17 anos, ameaçado pelo pai militar, que não aceitava sua homossexualidade e, mais ainda, sua não subserviência. Mesmo em sua banda “Secos e Molhados”, de sucesso meteórico e retumbante entre 1973 e 1974, assustava por sua irreverência, suas vestes exóticas e suas danças sensuais. Vê-lo agora no palco, aos 85 anos, com roupas prateadas, dançando como um jovem e, principalmente, cantando maravilhosamente, é um espanto para a plateia.

Mas ponderei com meus bordados (minha roupa não tinha botões): além de todos os inegáveis méritos do artista, ajuda muito a estrutura que um astro já consagrado pode arregimentar: o palco lindamente decorado, a iluminação que anima o cenário e privilegia os movimentos corporais, equipamentos e técnicos de som perfeitos, e uma ótima banda (incluindo metais que dão brilho especial às interpretações).

Muito diferente dos pobres artistas amadores — eu inclusive, que tenho duas bandas (uma com cada filho), por puro prazer e sem qualquer ilusão de atingir plateias além das formadas por generosos parentes e amigos. E perrengues não faltam: eu já me perdi em letras de músicas, equipamentos falharam, o técnico da mesa de som sumiu…

Uma das melhores histórias de perrengues musicais me foi relatada por um amigo de uma banda amadora de metaleiros. A banda fora contratada para uma série de shows num pesqueiro, anunciados com pompa. Lá chegando para o primeiro show, num sábado à tarde, já houve um certo estranhamento dos músicos: o “palco” era até ecológico, embaixo de árvores, mas todos os equipamentos (caixas de som, instrumentos, microfones) seriam ligados a uma única tomada improvisada. Preocupante, mas o que não se faz por amor à música, né?

Ao escurecer, com a plateia animada (e já embriagada), inicia-se o show. A banda toca as primeiras músicas, com os adeptos já se preparando para o ritual metaleiro do “bate-cabeças”, quando um estranho fenômeno se inicia: dezenas de galinhas e alguns galos se aproximam e começam a escalar as árvores cujas copas encobriam o palco. Alguns questionavam: seriam aves fãs da banda?

A verdade era outra: aquele era o dormitório das galinhas e dos galos. Se aquela era a rotina de todos os dias, não seria uma barulheira que os impediria de usufruir do sono dos justos. Os músicos se preocuparam com a possibilidade de serem “presenteados” com excrementos vindos das árvores, mas esse seria o menor dos problemas.

Num dado momento, uma das galinhas — talvez a líder, em tempos feministas — desceu do ninho. Caminhou solenemente até o local da tomada que ligava todos os equipamentos e… puf! Bicou de forma certeira, desligando tudo de uma vez.

Teria sido intencional? A galinha-líder não teria aprovado o palco sob o dormitório da sua turma? Jamais saberemos. Mas sabemos que foi o fim daquele show e da série no pesqueiro.

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Este artigo foi escrito por um colaborador voluntário

O Espaço do Povo existe há mais de 18 anos graças ao trabalho voluntário de pessoas como Judith Brito, que dedicam seu tempo para dar voz às periferias brasileiras. Cada texto publicado fortalece nossa comunidade.

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