“O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta”
Como sempre, Caetano Veloso foi brilhante na construção da letra e da música de “Argonautas”, incluindo trecho do poema do português Fernando Pessoa (meu poeta favorito): “Navegar é preciso, viver não é preciso”
Pessoa evocou a frase do general romano Pompeu (70 A.C.), que buscava motivar seus marinheiros amedrontados diante de uma tempestade, contrapondo o temor à urgência de levar alimentos a Roma, cuja população tinha fome: “Navegar é necessário; viver não é necessário”. A frase não parece tão empolgante (colocar a missão em prol do coletivo à frente da vida pessoal?). Mas, dizem os relatos, a liderança de Pompeu, subindo ao barco antes de todos e invocando o dever antes de tudo, funcionou: o trigo chegou a Roma.
A magia de Pessoa, o poeta, transformou o sentido de “necessidade” para “precisão”, refletindo sobre a inexatidão da vida frente à exatidão dos recursos da navegação. Navegar é preciso, exato, pois conta com a previsão das observações astronômicas, da direção dos ventos, das bússolas (inexistentes na época de Pompeu). Mas para viver não há manual… Então, viver, que não é preciso, exige que busquemos sentidos – a criatividade, as artes, os amores, o que faz a vida valer a pena. Como resume Fernando Pessoa: “Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.
O poeta tem razão. Viver não é mesmo ciência exata. Mesmo assim, a gente sempre tenta buscar garantias, certezas, proteções, análises. E não é de hoje. Por exemplo: para um ato corriqueiro como seria um casamento (ainda mais no passado), o genial naturalista Charles Darwin, em 1838, aos 29 anos, fez duas listas, uma de prós e outra de contras, avaliando racionalmente o dilema de se casar ou não com sua prima Emma Wedgwood. Na lista de vantagens estavam: ter filhos, ter uma companhia amorosa na velhice, ter alguém para amar e com quem brincar (“melhor que um cachorro”), ter um lar e alguém que cuide da casa, ter encantos da música e da conversa feminina. Quanto às desvantagens, listou, entre outros itens, a perda de liberdade de ir aonde quisesse, a obrigação social de visitar parentes, o custo financeiro de uma família, a redução de tempo para estudos (seria “terrível perda de tempo para o trabalho”) e o risco de ter de se mudar para um local de que não gostasse. Apesar de a lista de contras ser maior que a de prós, Darwin optou pelo casamento com Emma, que durou 43 anos (até a morte dele); tiveram 10 filhos.
Pensando nessas listas, dia desses me peguei refletindo sobre as vantagens e desvantagens de envelhecer. Obviamente, neste caso, não se trata de opção (como foi o casamento de Darwin): se eu não avançar nos anos, será por eu não estar mais aqui. Entre os contras está obviamente a condição física (por melhor que se esteja, nunca será como na juventude), alguns “brancos” em meio a conversas (às vezes para lembrar palavras comuns) e menor energia para festas e socializações em geral. Entre os prós sem dúvida estão a maturidade e a serenidade para separar o joio do trigo, o que importa do que é irrelevante. E se tivermos navegado, no sentido proposto por Fernando Pessoa, o saldo terá sido muito bom, a vida terá valido a pena.
“O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta”
Como sempre, Caetano Veloso foi brilhante na construção da letra e da música de “Argonautas”, incluindo trecho do poema do português Fernando Pessoa (meu poeta favorito): “Navegar é preciso, viver não é preciso”
Pessoa evocou a frase do general romano Pompeu (70 A.C.), que buscava motivar seus marinheiros amedrontados diante de uma tempestade, contrapondo o temor à urgência de levar alimentos a Roma, cuja população tinha fome: “Navegar é necessário; viver não é necessário”. A frase não parece tão empolgante (colocar a missão em prol do coletivo à frente da vida pessoal?). Mas, dizem os relatos, a liderança de Pompeu, subindo ao barco antes de todos e invocando o dever antes de tudo, funcionou: o trigo chegou a Roma.
A magia de Pessoa, o poeta, transformou o sentido de “necessidade” para “precisão”, refletindo sobre a inexatidão da vida frente à exatidão dos recursos da navegação. Navegar é preciso, exato, pois conta com a previsão das observações astronômicas, da direção dos ventos, das bússolas (inexistentes na época de Pompeu). Mas para viver não há manual… Então, viver, que não é preciso, exige que busquemos sentidos – a criatividade, as artes, os amores, o que faz a vida valer a pena. Como resume Fernando Pessoa: “Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.
O poeta tem razão. Viver não é mesmo ciência exata. Mesmo assim, a gente sempre tenta buscar garantias, certezas, proteções, análises. E não é de hoje. Por exemplo: para um ato corriqueiro como seria um casamento (ainda mais no passado), o genial naturalista Charles Darwin, em 1838, aos 29 anos, fez duas listas, uma de prós e outra de contras, avaliando racionalmente o dilema de se casar ou não com sua prima Emma Wedgwood. Na lista de vantagens estavam: ter filhos, ter uma companhia amorosa na velhice, ter alguém para amar e com quem brincar (“melhor que um cachorro”), ter um lar e alguém que cuide da casa, ter encantos da música e da conversa feminina. Quanto às desvantagens, listou, entre outros itens, a perda de liberdade de ir aonde quisesse, a obrigação social de visitar parentes, o custo financeiro de uma família, a redução de tempo para estudos (seria “terrível perda de tempo para o trabalho”) e o risco de ter de se mudar para um local de que não gostasse. Apesar de a lista de contras ser maior que a de prós, Darwin optou pelo casamento com Emma, que durou 43 anos (até a morte dele); tiveram 10 filhos.
Pensando nessas listas, dia desses me peguei refletindo sobre as vantagens e desvantagens de envelhecer. Obviamente, neste caso, não se trata de opção (como foi o casamento de Darwin): se eu não avançar nos anos, será por eu não estar mais aqui. Entre os contras está obviamente a condição física (por melhor que se esteja, nunca será como na juventude), alguns “brancos” em meio a conversas (às vezes para lembrar palavras comuns) e menor energia para festas e socializações em geral. Entre os prós sem dúvida estão a maturidade e a serenidade para separar o joio do trigo, o que importa do que é irrelevante. E se tivermos navegado, no sentido proposto por Fernando Pessoa, o saldo terá sido muito bom, a vida terá valido a pena.