Entre os profissionais identificados individualmente, elas receberam quase quatro em cada cinco mensagens na segunda metade de setembro. Comentarista da GloboNews sofreu 226 ataques no X em duas semanas, com mensagens que incitavam violência física e morte
Esta é a segunda de três reportagens sobre o relatório da CDJor com a Ufes. Leia também: o crescimento de 74% nos ataques e a pressão institucional e as plataformas.
O relatório da CDJor (Coalizão em Defesa do Jornalismo) com o Labic/Ufes sobre a violência digital no primeiro turno das eleições de 2026 tem um achado que se repete em todos os cortes do monitoramento: a violência contra jornalistas tem gênero.
Entre os profissionais identificados individualmente, as mulheres foram alvo de 64,8% das ocorrências no acumulado do primeiro turno — 2.013 dos 3.106 registros dessa categoria.
E a concentração piorou conforme a campanha avançou.
O pico da segunda metade de setembro
Entre 13 e 26 de setembro, as mulheres receberam:
- 77,3% das mensagens contra profissionais identificados no X;
- 79,1% no Instagram.
O boletim quinzenal da CDJor, divulgado em 2 de outubro, mostra o tamanho da escalada. Na quinzena anterior, essas proporções eram de 52,8% no X e 59% no Instagram. Ou seja: em duas semanas, a fatia de ataques dirigidos a mulheres saltou cerca de 24 pontos percentuais no X e 20 no Instagram.
Menos da metade dos alvos, quase todos os ataques
Há um dado que dimensiona o desequilíbrio. Naquela quinzena, o monitoramento identificou 4.537 ataques, atingindo 95 jornalistas e 107 veículos — depois de analisar 1.155.197 conteúdos eleitorais.
Dos 95 profissionais identificados, 45 eram mulheres e 50, homens. Mesmo sendo menos da metade dos alvos, as mulheres receberam quase quatro em cada cinco ataques direcionados a jornalistas específicos:
| Plataforma | Ataques a jornalistas identificados | Mulheres | Homens |
|---|---|---|---|
| X | 485 | 375 | 110 |
| 650 | 514 | 136 |
O que dizem essas mensagens
O conteúdo não é só xingamento. As mensagens incluíram insultos misóginos e sexuais, tentativas de desqualificar o trabalho jornalístico e, em alguns casos, incentivo à violência física.
O caso Maria Cristina Fernandes
Um dos episódios citados no relatório é o da comentarista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews. Ela se tornou alvo de uma onda de mensagens ofensivas depois de um comentário sobre Nossa Senhora Aparecida e da repercussão da retratação feita pela emissora.
Maria Cristina havia mencionado uma mobilização de parte dos evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A informação estava correta — e mesmo assim a emissora se retratou, esclarecendo que o movimento não estava diretamente ligado ao candidato Flávio Bolsonaro. A partir daí, a jornalista passou a receber uma enxurrada de ofensas.
Entre 13 e 26 de setembro, a CDJor identificou 226 ocorrências contra ela no X — o maior número entre todos os profissionais monitorados na plataforma. No Instagram, o monitoramento encontrou mensagens com incitação à violência física e à morte contra a jornalista.
Vale registrar uma ressalva metodológica do próprio boletim: naquela quinzena, o monitoramento no X passou a incluir a conta da jornalista, que estava ausente nas coletas anteriores. Isso aumenta o total de posts e perfis analisados na plataforma — e explica parte do volume concentrado nela, ainda que não o tipo de mensagem recebida.
O caso ilustra como o ataque pode ultrapassar a crítica a um comentário específico e se transformar em perseguição direcionada a uma pessoa.
O vocabulário que acompanha o ataque
A onda contra Maria Cristina se insere em um cenário em que a expressão “fake news” ganhou destaque entre os termos ofensivos monitorados — citada 171 vezes no X naquelas duas semanas, a mais frequente da plataforma, e 108 vezes no Instagram.
Outras acusações recorrentes, como “caiu pix”, “pesquisa comprada” e “jornalista militante”, seguem associando a atuação da imprensa a supostos interesses políticos e financeiros.
Por que isso importa
Em um país onde as mulheres já são maioria entre as vítimas de violência, o ambiente digital trata a jornalista mulher de forma diferente — e mais cruel — do que o colega homem. Os números do relatório dizem exatamente isso.
O efeito prático é conhecido: quem é atacada por ser mulher tende a reduzir a exposição, evitar temas polêmicos e até sair das redes. Quem perde com isso é o leitor, que deixa de ouvir parte das perguntas que precisam ser feitas. A violência de gênero contra jornalistas não é um problema das jornalistas: é um problema de quem depende da informação.
O que observar daqui para frente
- O boletim do 2º turno. O relatório cobre até 4 de outubro. A pergunta é se a concentração em mulheres se mantém acima de 70% ou recua.
- As respostas das plataformas. O X e o Instagram são os dois ambientes medidos — e nenhum dos dois anunciou medida específica para o recorte de gênero até aqui.
- A repercussão do caso GloboNews. A retratação da emissora e a onda de ataques que se seguiu continuam sendo citadas como exemplo do que acontece quando uma informação correta é desmentida sob pressão.