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Ataques a jornalistas crescem 74% na reta final do 1º turno

Levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo identificou 14.182 episódios de violência digital no X e no Instagram entre 16 de agosto e 4 de outubro, em quase 3,7 milhões de conteúdos analisados

Esta é a primeira de três reportagens sobre o relatório da CDJor com a Ufes. Leia também: as mulheres foram o principal alvo e a pressão institucional e as plataformas.

A violência digital contra jornalistas e veículos de imprensa cresceu 74% na reta final do primeiro turno das eleições de 2026. Nos oito dias que antecederam a votação, realizada no domingo (4), a média chegou a 327 episódios por dia — contra 188 no início da campanha.

O dado está no relatório publicado nesta quarta-feira (14) pela CDJor (Coalizão em Defesa do Jornalismo), em parceria com o Labic (Laboratório de Internet e Ciência de Dados) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O monitoramento analisou publicações e comentários no X e no Instagram entre 16 de agosto e 4 de outubro e identificou 14.182 episódios de violência em quase 3,7 milhões de conteúdos examinados.

Não se trata de crítica dura, debate político ou discordância sobre o trabalho da imprensa. O que o levantamento mede é outro fenômeno: a onda organizada de mensagens que associa jornalistas à parcialidade, à manipulação e a interesses financeiros — e que, em alguns casos, chega a incitar violência física.

“Fake news”, “caiu pix” e “pesquisa comprada”: o vocabulário do ataque

O estudo identificou mensagens recorrentes que ligavam jornalistas e veículos a supostos interesses políticos e financeiros. O termo “mídia golpista” apareceu nas publicações, junto com referências à manipulação de pesquisas eleitorais.

Entre 13 e 26 de setembro, a expressão “fake news” foi usada 171 vezes no X e 108 vezes no Instagram. Também foram registradas falas como “caiu pix” e “pesquisa comprada”, usadas para insinuar que jornalistas ou institutos de pesquisa atuariam em troca de pagamento.

Quem foi atacado

A cobertura da disputa presidencial concentrou 79,7% dos episódios classificados por contexto eleitoral — 7.314 registros. Outros 1.864 (20,3%) estavam ligados às eleições estaduais.

Entre os veículos mais atingidos estão g1, GloboNews, Folha de S.Paulo e CNN Brasil.

A distribuição por plataforma mostra uma inversão ao longo da campanha:

PlataformaEpisódios no 1º turnoFatiaÚltima semana (27/9 a 4/10)
Instagram8.76861,8%1.233
X5.41438,2%1.382

O Instagram concentrou a maior parte das ocorrências no acumulado, mas o X passou à frente na última etapa do monitoramento — e já vinha apresentando frequência proporcional maior de episódios em relação ao volume de conteúdos analisados na plataforma.

Como o levantamento foi feito

Os dados foram coletados e processados pelo Labic, do Departamento de Comunicação Social da Ufes. A metodologia considera publicações e comentários que envolvem candidatos, jornalistas e veículos, além de 652 termos e hashtags ofensivos. Os conteúdos filtrados passam por processamento e análise para identificar os ataques, suas características e o gênero dos jornalistas atingidos. A CDJor publica boletins quinzenais para acompanhar a evolução dos ataques durante a campanha.

Na análise de toxicidade feita com o Perspective API, do Google, a média ficou em 36,9% no X e 23,4% no Instagram — redução no X (de 38,2% para 36,9%) e leve alta no Instagram (de 22,9% para 23,4%) em relação à quinzena anterior.

Por que isso importa para quem não é jornalista

Ataque a jornalista não é briga de imprensa. Quando o medo entra na redação, a conta chega para o leitor: pauta que não é apurada, fonte que não fala, denúncia que não é publicada. É o mesmo mecanismo que sufoca quem denuncia problema no bairro, no posto de saúde ou na escola — só que mirando quem tem a obrigação de apurar.

O que observar daqui para frente

  • A apuração do 2º turno. O relatório cobre até 4 de outubro. Um novo boletim deve mostrar se a média de 327 episódios por dia se manteve, subiu ou recuou.
  • O comportamento das plataformas. O X ganhou peso na reta final, e o Instagram segue concentrando o volume total de episódios.
  • O recorte de gênero. As mulheres foram maioria entre os alvos individuais em todo o período — assunto da segunda reportagem desta série.

Nota da redação: os números deste texto são os do relatório da CDJor e do Labic/Ufes, na forma publicada pelo Poder360 e pela Abraji. As duas publicações se referem a recortes de períodos diferentes do monitoramento — o acumulado de 16 de agosto a 4 de outubro e o boletim quinzenal de 13 a 26 de setembro —, e por isso as bases de comparação não são idênticas. Sempre que citamos um percentual, indicamos a que período e a que universo ele se refere.

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Equipe do Espaço do Povo

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