O projeto Leituras na Favela promove oficinas de leitura e contação de histórias para crianças e adolescentes no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. A iniciativa utiliza a literatura como ferramenta de transformação social para criar espaços de escuta, pertencimento e fortalecimento da identidade comunitária.
Os educadores e moradores da Maré Anderson Oli e Camila Mendes idealizaram o projeto. As atividades focam no protagonismo negro, indígena e feminino, ocorrendo em três pontos da comunidade: a Biblioteca Municipal Jorge Amado, a Areninha Cultural Herbert Vianna e a Baixa do Sapateiro. Nestes locais, os livros servem de base para discussões sobre cidadania, direitos e identidade.
Anderson Oli explica que a iniciativa surgiu para criar espaços seguros para jovens que enfrentam vulnerabilidade social. O educador destaca que o público é formado majoritariamente por pessoas negras e de baixa renda, especialmente moradores do entorno conhecido como Nova Maré (Casinhas). Segundo Anderson Oli: “eles vivenciam questões pertinentes à favela, como a dificuldade de acesso à saúde, cultura e lazer. Oportunizamos, em nossas oficinas, um espaço de escuta e acolhimento”.
O projeto combate a queda de leitores no país registrada pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro. O levantamento de 2025 aponta que 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, tornando os não leitores a maioria pela primeira vez na série histórica.
Camila Mendes relata que a abordagem direta nas escolas é um diferencial para atrair os jovens. A educadora cita o caso de um participante que afirmou que o convite feito presencialmente na escola foi decisivo para sua entrada no projeto. Sobre a metodologia, Camila Mendes afirma: “Nossa metodologia busca incentivar a leitura a partir da conexão com os livros e as histórias, promovendo encontros presenciais e interação entre os leitores. Acreditamos que o acesso à leitura amplia oportunidades e enriquece o repertório sociocultural. O livro nos permite conhecer e refletir sobre nossa própria vida e outras realidades”.
Anderson Oli observa que a criação do hábito da leitura é um processo gradual, especialmente por se tratar de leitura oralizada, o que exige adaptação dos jovens. O Leituras na Favela começou em 2021 através de encontros virtuais com estudantes que se preparavam para o vestibular da UERJ, experiência que motivou a fundação da iniciativa permanente.
Os participantes do projeto recebem gratuitamente um kit de leitura. A metodologia combina a realidade da favela com encontros presenciais para fortalecer o vínculo dos jovens com os livros e garantir a democratização do acesso à cultura na Maré.