Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 4 de agosto de 2026
Cultura

Forró de favela: dança cria redes de ação social e vence preconceito nas periferias do Ceará

O forró de favela, estilo de dança com passos lentos originado nas periferias de Fortaleza, ocupa novos espaços e se populariza fora das comunidades cearenses. O gênero surgiu nos anos 1990 em festas de periferia como uma reconfiguração do forró romântico. A modalidade nasceu como uma resposta das classes populares para consumir música.

O doutor em sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Marcelo Ribeiro, explica que o termo designa o forró romântico. Marcelo Ribeiro afirma: “O forró de favela é uma reconfiguração de práticas que já existiam nas comunidades periféricas de Fortaleza e de todo Brasil, que são os espaços de sociabilidade lúdica de lazer, que envolvem as músicas”.

O estilo surgiu nas periferias da capital cearense nos anos 1990, em festas de comunidades comandadas por DJs. Marcelo Ribeiro detalha que a dança foi uma resposta das classes populares que queriam ouvir o que tocava no rádio, mas não tinham condições de pagar ingressos em grandes casas de shows. O sociólogo afirma que o forró de favela possui estética própria por ser uma resposta a uma demanda de mercado, influenciando bandas especializadas em forró romântico com métricas sonoras melódicas.

A expansão do ritmo para além das periferias ocorreu devido ao crescimento das redes sociais. Marcelo Ribeiro pontua que o ambiente digital permitiu que agentes periféricos conquistassem seguidores e adeptos. O sociólogo diz que o aumento da popularização acontece porque esses agentes ganham espaço no debate social, utilizando o parlatório digital para romper a restrição de seus bairros.

O grupo Complexo do Passinho, fundado em 13 de fevereiro de 2025, ensina o ritmo às quintas-feiras no Conjunto Tancredo Neves, no Bairro Jardim das Oliveiras. Dynha Souza, fundadora do grupo, afirma que o projeto surgiu pela necessidade de entretenimento e ação social aos moradores do bairro e proximidades, fora das redes sociais. As aulas ocorrem na sede de uma associação comunitária do bairro, com duração de duas horas e meia.

Dynha Souza explica que a dança é colada e lenta, lembrando às vezes o reggae, diferindo do forró tradicional que possui rodopios rápidos e passos marcados pelas batidas. A fundadora defende que o termo forró de favela valoriza o local de desenvolvimento da dança, embora reconheça que o nome possa causar preconceito. Dynha Souza afirma: “Existe um preconceito para algumas pessoas, devido ao nome. Porém, isso em nenhum momento interfere ou descredibiliza o trabalho lindo que tem sido feito”.

Atualmente, existem mais de 30 grupos organizados nos bairros de Fortaleza e da Região Metropolitana. O coletivo Chama no Passinho, formado no Bairro Vicente Pizón, promove aulões de dança para a comunidade. A instrutora Kelly Karol explica que o grupo surgiu em 2025 porque os organizadores gostam de dançar e a comunidade do Vicente Pizón conhecia o ritmo, mas não sabia dançar.

O coletivo Chama no Passinho realiza encontros três vezes por semana para ministrar aulas no Bairro Vicente Pizón e no Bairro Serviluz. Kelly Karol informa que o grupo conta com 20 professores e recebe um número variado de alunos, com encontros que reúnem de 30 a 40 pessoas para aprender os passinhos e o jogo de cintura envolvente da dança.

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Redação Espaço do Povo
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Redação Espaço do Povo

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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