Hoje, o cinema brasileiro perdeu mais que um produtor, perdeu o arquiteto silencioso de um dos capítulos mais vibrantes da nossa história cultural. Luiz Carlos Barreto, o Barretão, faleceu aos 98 anos, deixando atrás de si um legado de mais de 80 filmes que moldaram a identidade visual do Brasil e o projetaram para além das fronteiras.
Nascido em Sobral, no Ceará, Barretão não chegou ao cinema por acidente. Antes de atrás das câmeras, foi repórter e fotógrafo da lendária revista O Cruzeiro, cobrindo eventos nacionais e internacionais, uma experiência que afiou seu olhar para a composição e a narrativa visual. Mas foi a partir de 1961, com o sucesso de Assalto ao Trem Pagador, que ele se transformou em uma força motriz do Cinema Novo, o movimento que revolucionou o audiovisual latino-americano.
O olhar que definiu uma estética
Como diretor de fotografia, Barretão foi responsável pelas concepções visuais de dois pilares do cinema nacional: Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Nessas obras, ele não apenas registrou imagens, criou uma linguagem cinematográfica brasileira, marcada por contrastes brutos, paisagens áridas e uma urgência narrativa que se tornou referência mundial.
A força por trás das câmeras
Foi como produtor que Barretão alcançou sua dimensão maior. Fundador da L.C. Barreto Produções Cinematográficas em 1963, ao lado de sua esposa Lucy Barreto, ele viabilizou obras que se tornaram patrimônio cultural do país. Entre elas:
- A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos, baseado em Graciliano Ramos;
- O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim;
- Bye Bye Brasil (1980), de Cacá Diegues, retrato da modernização do Brasil interiorano, exibido em sessão especial no Festival de Cannes em 2024;
- Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), dirigido por seu filho Bruno Barreto, que quase 11 milhões de espectadores assistiram nos cinemas — um recorde que permanece na história do cinema brasileiro;
- O Quatrilho (1995) e O Que É Isso, Companheiro? (1997), ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, consolidando a presença brasileira no principal prêmio cinematográfico do mundo.
Uma dinastia que atravessou gerações
Barretão não apenas fez cinema. formou uma dinastia. Seus filhos Bruno e Fábio Barreto se tornaram diretores de destaque da geração pós-Cinema Novo, enquanto sua esposa Lucy permaneceu ao seu lado como parceira produtora ao longo de sete décadas. O vírus do cinema, como ele próprio declarou em sua última entrevista, contaminou toda a família. E essa contaminação gerou obras que continuam a definir o que significa ser brasileiro na tela.
Além do cinema
Barretão nunca se limitou ao audiovisual. Foi militante político, propagador das ideias de Gramsci, e dedicou parte de sua vida ao jornalismo e à cultura. Recebeu a Ordem do Mérito Cultural em 1997, e sua trajetória foi retratada no documentário Barretão (2019), de Marcelo Santiago. Mesmo nos últimos anos de vida, permaneceu ativo, participou da produção de Deus Ainda É Brasileiro, continuação de Deus É Brasileiro, ainda inédita.
O legado que permanece
Luiz Carlos Barreto não era apenas um homem que fazia filmes. Era um homem que acreditava que o cinema brasileiro poderia, e deveria, ser tão grande quanto qualquer outro do mundo. E, através de seu trabalho incansável, ele provou que era possível. Cada um dos seus mais de 80 filmes é uma pedra no muro que sustenta a identidade cultural do Brasil.
Hoje, perdemos o Barretão. Mas o legado que ele construiu, as imagens, as histórias, os talentos que ajudou a revelar, permanece vivo em cada tela que exibe o Brasil ao mundo.
Que o cinema brasileiro nunca esqueça o homem que o colocou na trincheira certa.
Descanse em paz, Barretão.