A Horta Medicinal da Brasilândia, criada por moradores do Jardim Damasceno, na zona norte de São Paulo, transformou o Espaço Cultural do bairro em referência em cultivo de plantas terapêuticas e em educação ambiental. Fundado há mais de 30 anos, o local hoje abriga mais de 60 espécies, entre plantas medicinais, frutíferas e alimentícias não convencionais, e se consolidou como ponto de encontro, cuidado e formação para a comunidade.
A agente ambiental Nivalda Aragues, 58, voluntária e uma das responsáveis pela iniciativa, relata que o projeto já gera efeitos concretos no território, com moradores percebendo melhora na saúde e maior consciência sobre o ambiente. Ela conta que há casos de pessoas que chegam à horta, incorporam espécies como a ora-pro-nóbis na alimentação e, em consultas médicas, ouvem elogios pela evolução nos exames, reforçando a importância de integrar saberes populares e acompanhamento profissional.
Em 2021, a horta firmou parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por meio de emenda parlamentar, com foco em valorizar o uso seguro de plantas medicinais e articular conhecimentos científicos e tradicionais nas periferias. Antes mesmo do apoio institucional, o grupo já compartilhava mudas e orientações entre vizinhos, mas a chegada da universidade trouxe capacitação técnica, fundamentação científica e maior reconhecimento ao trabalho local. Com aulas e oficinas, os voluntários passaram a orientar de forma mais precisa sobre benefícios, riscos, formas de preparo e reaproveitamento de alimentos, além de implementar soluções como minhocário, manejo de resíduos orgânicos, cisternas para aproveitar água de chuva, reuso da água da pia e viveiro de mudas.
As espécies estudadas e certificadas pela Unifesp incluem açafrão-da-terra, babosa, boldo, ora-pro-nóbis, tansagem, taioba, guaco, camomila, capim-limão e espinheira-santa, todas identificadas com placas que indicam nome popular e científico, parte utilizada, modo de preparo e possíveis efeitos adversos. Essa sinalização facilita o uso consciente das ervas e oferece base segura para o atendimento à população, em articulação com a Unidade Básica de Saúde Silmarya Rejane Marcolino Souza, onde farmacêuticos e agentes de saúde complementam as orientações. Além disso, a horta recebe visitas frequentes de escolas, universidades, coletivos e visitantes de outros estados e países, incluindo figuras públicas ligadas à pauta ambiental, e desenvolve atividades com crianças e adolescentes do CCA Arte na Rua, que participam de semeaduras, oficinas e da manutenção dos canteiros.
Entre 2022 e 2024, o espaço foi revitalizado pelo projeto Canteiros Medicinais Periféricos, em parceria com governo federal, Unifesp e coletivos locais, passando a se chamar Canteiros Medicinais Periféricos Jardim Damasceno. Em três fases, o projeto estruturou o espaço, implantou canteiros de bioconstrução, promoveu cursos de formação, registrou e multiplicou espécies, consolidou a autogestão e ampliou o vínculo entre comunidade e universidade, resultando inclusive na edição de um livro sobre a experiência. Com isso, a horta se tornou núcleo formador, distribuindo mudas para outros bairros periféricos de São Paulo, estimulando novas hortas comunitárias e tecendo uma rede de trocas entre grupos urbanos e rurais, mesmo sem patrocínio fixo, apoiada por voluntários e programas municipais como o Sampa+Rural: Acelerando Hortas, que garantiu recursos para infraestrutura, feiras e cursos, fortalecendo o caráter agroecológico e educativo da iniciativa.