Em um Brasil que ainda busca erradicar a fome, os números gerais frequentemente mascaram uma realidade muito mais profunda e desigual. A insegurança alimentar não atinge todas as pessoas da mesma forma. Para compreender por que certos grupos sofrem mais com a falta de acesso a alimentos de qualidade, especialistas apontam para a necessidade de olhar o problema através das lentes da interseccionalidade.
Criado em 1989 pela jurista e feminista Kimberlé Crenshaw, o conceito de interseccionalidade propõe que as opressões — como racismo, sexismo e desigualdade de classe — não agem de forma isolada. Em vez disso, elas se sobrepõem e criam camadas de vulnerabilidade únicas. Por exemplo, analisar a fome apenas pela ótica da renda (classe social) ou apenas pela ótica de gênero oferece uma visão incompleta de um problema estrutural e histórico.
Pesquisas recentes evidenciam de forma clara o impacto das múltiplas desigualdades no prato dos brasileiros. Ao observar domicílios em condições socioeconômicas desfavoráveis, nota-se que mulheres negras apresentam uma probabilidade expressivamente maior de vivenciar a insegurança alimentar grave, quando comparadas a mulheres brancas ou homens negros nas mesmas condições.
O quadro de escassez reflete a combinação de privação socioeconômica, machismo, racismo e o impacto do patriarcado estrutural. Lares chefiados por mulheres, especialmente negras, encontram os maiores obstáculos não apenas para adquirir alimentos, mas para acessar políticas públicas de suporte e ascensão financeira.
Um artigo recém-publicado no Jornal da USP demonstrou que as garras da insegurança alimentar alcançam também os espaços de ensino superior. Apesar de a universidade pública ser um vetor de mobilidade social, a falta de alimentação adequada atinge estudantes e ameaça a sua permanência nos cursos.
A aplicação da interseccionalidade no contexto universitário ajuda a entender como a vivência da fome entre os estudantes também obedece a uma lógica de raça e gênero, dificultando o percurso acadêmico daqueles que já enfrentam maiores barreiras históricas.
Tratar a fome apenas como um problema de “produção” ou de “logística” é insuficiente em um país que figura entre os maiores produtores globais de alimentos, mas que sofre com extrema concentração de renda e desigualdades sociais.
Estudiosos e organizações de base apontam que as políticas públicas voltadas para a segurança alimentar precisam ser desenhadas a partir do olhar interseccional. Isso significa que os programas sociais devem reconhecer que as mulheres negras e periféricas, bem como suas famílias, precisam ser o público-alvo primário de ações integradas que combatam simultaneamente a falta de comida e as barreiras de gênero e raça. Somente assim, atacando o problema em suas múltiplas raízes, será possível garantir o direito humano à alimentação de forma plena e igualitária.
Fonte: Artigo “Interseccionalidade pode ajudar a compreender a insegurança alimentar”, publicado no Jornal da USP em 27/04/2026