Empresas de apostas esportivas regularizadas faturaram R$ 36,9 bilhões em 2025, conforme dados do Ministério da Fazenda. No primeiro quadrimestre de 2026, a receita do setor atingiu R$ 12,2 bilhões, valor que representa o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior. A Receita Federal contabilizou 25 milhões de CPFs que apostaram em 2025, com um gasto médio mensal de R$ 123 por jogador, já descontadas as premiações.
O analista de investimentos do Grupo Mide, Gabriel Castro, alerta que o faturamento divulgado é o GGR (Gross Gaming Revenue), que subtrai os prêmios pagos ao total apostado. Gabriel Castro explica: “Porém aqui está a primeira armadilha conceitual a se desarmar, pois esse ‘faturamento’ já é, na prática, uma espécie de lucro bruto. A receita divulgada é o GGR, o total apostado menos os prêmios pagos aos apostadores”.
A carga tributária representa cerca de 37% da receita das casas de apostas. A arrecadação de R$ 4,5 bilhões no primeiro quadrimestre foi a base para a Receita Federal estimar o faturamento de R$ 12,2 bilhões. No final de 2025, dez marcas concentravam 68,8% do mercado brasileiro. O lucro líquido final não é divulgado individualmente por serem a maioria empresas estrangeiras ou de capital fechado, mas referências internacionais indicam margens líquidas entre um dígito alto e dois dígitos baixos sobre o GGR.
Gabriel Castro afirma que as bets vencem bancos no critério de resultado por real de capital investido por serem negócios asset-light. Uma operadora necessita de licença de R$ 30 milhões, tecnologia e marketing, sem precisar de agências ou carteira de crédito. Já o setor bancário exige capital proporcional ao risco. Para gerar um lucro de R$ 46,8 bilhões em 2025, um banco precisou de patrimônio líquido de centenas de bilhões e carteira de crédito de R$ 1,49 trilhão devido à regulação de Basileia.
O analista detalha que o retorno de um banco excelente gira entre 20% e 25% ao ano, enquanto bets bem-sucedidas podem ter retornos superiores sobre o investimento. No entanto, em margem sobre receita, as big techs globais lideram com 25% a 35%. Logo abaixo estão bancos de elite e fintechs. O Nubank lucrou US$ 2,87 bilhões em 2025, alta de 51%, e o Itaú lucrou R$ 46,8 bilhões, ambos convertendo entre 20% e 30% da receita em lucro.
As bets ficam no pelotão intermediário, com margem comparável ao entretenimento e streaming (cerca de 20% para líderes) e acima do varejo digital, que opera entre 1% e 8%. Gabriel Castro avalia: “A leitura honesta: a bet não é a máquina de margem que o senso comum imagina — o Estado virou sócio de 37% da receita, e a guerra de marketing consome boa parte do resto. O que ela é, de verdade, é uma máquina de crescimento com baixa necessidade de capital”.
O cientista de dados Ricardo Santos, fundador da Fulltrader Sports, afirma que concluir que bets são mais rentáveis que bancos ainda é precipitado. Ricardo Santos argumenta que seriam necessárias informações consolidadas sobre receita econômica, lucro líquido e patrimônio líquido médio das operadoras. Com esses dados, seria possível calcular a margem líquida (lucro líquido ÷ receita), o ROE (lucro líquido ÷ patrimônio líquido médio) e o ROIC (resultado operacional após impostos ÷ capital investido).
Ricardo Santos destaca que o custo de aquisição de clientes (CAC) e o valor econômico produzido pelo cliente (LTV) determinam a sustentabilidade. O cientista de dados alerta que uma empresa pode crescer a receita enquanto consome muitos recursos para atrair usuários. “Se o valor econômico produzido por esses clientes não superar adequadamente seu custo de aquisição, crescimento pode não significar geração de valor”, finaliza Ricardo Santos.