A crise na coleta de lixo em Maceió trouxe à tona um problema antigo: a desigualdade na limpeza urbana entre bairros turísticos e comunidades periféricas. A situação é grave em bairros como a Levada, o Bom Parto e a Vila Brejal, onde o lixo se acumula nas ruas.
Roberto de Almeida, morador da região, afirma que a coleta é irregular há anos. ‘Não tem quem aguente. Pegam uma vez por semana e tem vez que não pegam. Por vezes, passa até duas semanas e não pegam esse lixo aí’, relata. Outro morador, Seu Biu, descreve os impactos diretos do acúmulo de resíduos sobre a saúde da população: ‘É rato, é barata, é mosca. Você coloca qualquer coisa na mão e as moscas invadem sua mão’.
A desigualdade na limpeza urbana é evidente em Maceió. Enquanto a orla marítima permanece limpa e equipada com contêineres para descarte de resíduos, bairros periféricos convivem diariamente com lixo acumulado e infraestrutura insuficiente. AAutarquia Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Limpeza Urbana (Alurb) afirma que a coleta domiciliar é realizada de segunda a sábado em toda a cidade e que o serviço não faz distinção entre bairros.
A falta de infraestrutura pública é um dos principais problemas. Bairros como a Levada, a Vergel, a Ponta Grossa e o Trapiche possuem poucos locais adequados para o descarte de resíduos volumosos, como móveis e eletrodomésticos. Isso contribui para o entupimento de canais e agravamento de alagamentos durante o período chuvoso. A geógrafa Flávia Alessandra destaca que a distribuição desigual de equipamentos públicos e serviços de limpeza caracteriza um caso de racismo ambiental.
A solução passa por investimentos em saneamento, educação ambiental, coleta seletiva e ampliação da infraestrutura de limpeza. O arquiteto e urbanista Dilson Ferreira defende a criação de centrais de reciclagem, ecopontos e cooperativas para reduzir o volume de resíduos descartados irregularmente e transformar o lixo em oportunidade de geração de renda. A representante do Movimento Nacional de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Vânia Gomes, afirma que o problema se agravou porque muitas comunidades já enfrentavam deficiência na coleta antes da crise recente.