Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam movimentação bancária sem respaldo na renda declarada do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Entre janeiro e março de 2024, ele movimentou R$ 1,3 milhão — R$ 660.111 em créditos e R$ 649.272 em débitos —, volume que o órgão calculou em 7,19 vezes o esperado para a renda informada. O senador não havia se manifestado sobre os documentos até a noite deste sábado (24).
Os relatórios integram um inquérito da Polícia Federal que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, sobre o suposto vínculo financeiro entre o senador e o advogado Willer Tomaz, apontado pelo Ministério da Fazenda como o maior apostador do país em 2025, com cerca de R$ 5 bilhões em plataformas de apostas. A investigação nasceu no Rio Grande do Sul, em apuração sobre lavagem de dinheiro com plataformas de pagamento e empresas de apostas, entre elas a Blaze; o nome do senador apareceu nos documentos e o caso foi remetido ao STF.
O Coaf é a unidade de inteligência financeira criada pela Lei 9.613/1998. Pelo artigo 14, cabe ao órgão “receber, examinar e identificar as ocorrências suspeitas de atividades ilícitas”; pelo artigo 15, ele comunica as autoridades competentes quando conclui haver indícios. O relatório, sozinho, não atribui crime nem abre processo: serve para embasar investigações, que podem ou não confirmar irregularidades.

A principal operação destacada ocorreu em março de 2024. Naquele mês, Flávio recebeu R$ 520.277,28 do escritório Gavioli e Viola Advogados Associados e usou o dinheiro para liquidar antecipadamente o financiamento de uma mansão de R$ 5,97 milhões em uma área nobre de Brasília, contratado em 2021 com o Banco de Brasília (BRB). O contrato previa 30 anos, mas a dívida foi quitada em cerca de três, com seis pagamentos extraordinários que variaram de R$ 198 mil a R$ 997 mil. “Há suspeitas no valor recebido, pois foi destinado à quitação antecipada de operação de crédito”, diz o documento.
| Movimentação | Valor |
|---|---|
| Jan–mar/2024 | R$ 1,3 mi |
| Repasse do escritório | R$ 520,3 mil |
| Mansão financiada | R$ 5,97 mi |
| Nov/2025 | R$ 337,6 mil |
| Notas do escritório | R$ 13,7 mi |
Ao pedir o empréstimo, o senador informou ao BRB renda mensal de R$ 56,8 mil, formada pelo salário de parlamentar, por uma franquia de chocolates e por aplicações financeiras — sem receitas de advocacia. Mais tarde, disse à Justiça que também atuava como advogado e que os recursos usados na compra do imóvel tinham origem lícita.
O Coaf também apontou atipicidade em novembro de 2025: uma conta do senador movimentou R$ 337.641 (R$ 144.486 em créditos e R$ 193.155 em débitos), volume classificado como “habitualmente superior à capacidade econômica declarada”. Entre os créditos havia uma transferência de uma vaquinha online, cuja origem e finalidade o relatório não esclarece. Naquele mês, Flávio criou uma arrecadação para as famílias de quatro policiais mortos em uma operação no Rio; as doações chegaram a R$ 1,2 milhão, e ele prometeu divulgar os comprovantes dos repasses.
A apuração também alcançou o escritório de advocacia do senador: ao menos 62 notas fiscais emitidas entre janeiro de 2023 e julho de 2026, somando R$ 13,7 milhões, a maioria com a descrição genérica “assessoria jurídica”. Entre os clientes está a banca Nilo & Almeida Advogados Associados, que pagou R$ 4 milhões — metade três semanas antes de seu titular ser aprovado pelo Senado para o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). O advogado nega relação entre o pagamento e a indicação e afirma que o contrato é de abril de 2025.
Os sócios do Gavioli e Viola atuaram com Flávio em dois processos no Superior Tribunal de Justiça (STJ): uma disputa societária do setor gráfico, em que o senador entrou na defesa em junho de 2024, e a defesa de um casal no caso conhecido como Faraó dos Bitcoins, desde abril de 2025. Procurado, o sócio Bruno Gavioli Lopes disse que não se manifestaria: “Existe um código de ética, e ele será respeitado”.
No inquérito, a Polícia Federal reuniu ainda registros de viagens internacionais do senador custeadas por empresas ligadas a Willer e documentos que o identificam como “usuário master” de uma conta da Alcazar Holding, offshore da qual o advogado é sócio. Willer nega irregularidades, e Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens dele. O senador já foi cobrado publicamente a explicar a relação com a offshore e, em setembro, mudou versões sobre o vínculo com um ex-banqueiro.

O material vem a público na véspera do segundo turno, que opõe Flávio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Não há, até aqui, conclusão sobre crimes: os relatórios do Coaf embasam o inquérito, que segue no STF. O senador não respondeu até a publicação desta reportagem.