Fazendeiros dizem em mensagens de WhatsApp que vão entrar na terra indígena em 25 de outubro, contando com a vitória de Flávio Bolsonaro e com o governador já eleito do Pará, Dr. Daniel. Governo federal diz que reforçou a segurança na região; incêndios na área saltaram de 41 em julho para 1.007 em setembro
Fazendeiros da região da Terra Indígena Apyterewa, no sul do Pará, dizem em mensagens de WhatsApp que pretendem invadir o território no dia 25 de outubro, a data do segundo turno da eleição presidencial. Os recados foram enviados por moradores do entorno a lideranças indígenas nos últimos dias e chegaram aos órgãos de inteligência do governo federal.
Ao todo, são oito áudios reunidos pela Folha de S.Paulo, que cruzou os metadados de origem das mensagens com bancos de dados e ouviu investigadores que atuam no caso para confirmar a ligação dos remetentes com endereços nos arredores da Apyterewa. Por segurança, o jornal não publicou as transcrições nem identificou os envolvidos, e nós também não o faremos.
Segundo a reportagem, as mensagens afirmam que os pecuaristas aguardam o dia da votação para entrar na terra indígena e construir fazendas lá dentro. A expectativa declarada nos áudios é que Flávio Bolsonaro (PL), se vitorioso, e o governador já eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos), eleito no primeiro turno, em 4 de outubro, retirem o território dos Parakanã e o repassem aos pecuaristas da região. Não há, até agora, qualquer indício público de que essa promessa tenha sido feita por algum dos dois.
Moradores relatam nas gravações o aumento da circulação de motos e caminhonetes na área e dizem que fazendeiros estão comprando lonas e materiais de roça para dar início à invasão depois do segundo turno. As mensagens orientam os indígenas a evitar as áreas onde os pecuaristas já preparam o solo para pastagem e plantação, e sugerem que os Parakanã deixem a região.
O assunto foi tratado na reunião do Comitê de Desintrusão do governo federal na última quinta-feira. Procurados, Polícia Federal, Ibama, Funai e Ministério dos Povos Indígenas disseram monitorar a situação.
“Durante a reunião, o Comitê deliberou pelo reforço das ações de segurança, incluindo o aumento do efetivo mobilizado, a fim de intensificar a manutenção da desintrusão e prevenir novas ocupações ilegais”
— Ministério dos Povos Indígenas, em nota
O ministério afirmou ainda que acompanha o “aumento da pressão para a ocupação ilegal do território” e que a apuração dos fatos cabe às autoridades policiais. O Ibama foi além e disse haver “evidências de mobilização em outras regiões da Amazônia, tanto em terras indígenas, quanto em outras áreas protegidas, com vistas à retomada das atividades de garimpo ilegal”.
A terra indígena mais desmatada do Brasil
Homologada em 2007, a Apyterewa fica no município de São Félix do Xingu, ocupa 773 mil hectares — pouco mais de cinco vezes a área da cidade de São Paulo, e abriga mais de mil Parakanã de recente contato. A classificação importa: indica um povo que preserva sua cultura e organização social com autonomia e certo distanciamento da sociedade não indígena, o que torna qualquer interação não controlada uma ameaça maior do que para grupos já integrados.

Não é exagero dizer que a Apyterewa foi o retrato mais cru da política ambiental do governo anterior. Os dados do Inpe mostram a escalada: a área desmatada saltou de 18,9 km² em 2018 para 85,3 km² em 2019, primeiro ano da gestão Jair Bolsonaro, e bateu o recorde em 2022, com 102,2 km² destruídos, quase o tamanho da cidade de Paris derrubado em doze meses dentro de um território protegido.

“Essa é, historicamente, a terra indígena mais desmatada do Brasil, e talvez do mundo”
— Wallace Lopes, analista ambiental do Ibama, à Mongabay Brasil
“Foi um desmatamento muito grande. A gente vê só o pasto”
— Wenatoa Parakanã, presidente da Associação Tato’á
O que mudou, e o que voltou a se mover
A virada começou em 2023, quando o governo federal cumpriu, já no primeiro ano, a determinação do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, na ADPF 709, ordem de 2020 para expulsar os invasores das terras indígenas, nunca cumprida na gestão anterior.
A operação de desintrusão mobilizou cerca de 300 agentes do Ibama, da Polícia Federal, da Força Nacional, do Exército e da Funai. Combinações de apreensão de gado, destruição de maquinário e remoção da vila derrubaram o desmatamento para 20,6 km² em 2023 e, depois, para 7,5 km² em 2025. No ranking das terras indígenas mais desmatadas da Amazônia, a Apyterewa caiu da primeira para a 12ª posição.
O problema é o que veio depois. Quando as forças federais encerraram sua presença em larga escala, em dezembro de 2024, os ataques recomeçaram. A Mongabay registrou pelo menos nove desde então. Em dezembro de 2025, um vaqueiro contratado pelo Ibama para retirar o gado da área foi morto em uma emboscada. No início de 2026, dois indígenas e um funcionário da Associação Tato’á escaparam de ataques a tiros.
“Os invasores sempre falam pra gente que só estão esperando esse governo passar para poder entrar de novo. O nosso plano é cuidar do nosso território, da nossa floresta que ainda restou”
— Wenatoa Parakanã
O analista do Ibama compara o fenômeno a uma bactéria que aprende com o antibiótico. Depois de uma desintrusão, diz ele, os invasores passam a conhecer as estradas usadas pela fiscalização, a estratégia da operação, o momento em que o gado é retirado e as pontes são derrubadas — e voltam mais adaptados.
“A liderança política do momento tem uma importância muito grande para a dinâmica da taxa de desmatamento”
— Wallace Lopes, do Ibama
O fogo como aviso
Há um segundo sinal, e ele é medido em satélite. Segundo dados do Inpe compilados pelo Programa Xingu, os focos de incêndio na região passaram de 41 em julho para 626 em agosto e 1.007 no mês passado. Investigadores suspeitam de queimadas propositais.
Para André Villas-Bôas, do Instituto Socioambiental (ISA) e secretário executivo da Rede Xingu+, o calendário eleitoral por si só já costuma acirrar disputas por terra: políticos locais tendem a endossar as demandas dos grileiros para conquistar votos. Com um governo federal alinhado a essa agenda, avalia, a situação piora.
“É um governo que tem uma visão preconceituosa em relação aos povos indígenas, que apoia sem muito discernimento as iniciativas do agronegócio, que vê a grilagem de áreas públicas como parte do desenvolvimento da região”
— André Villas-Bôas, do ISA, sobre o cenário de uma vitória de Flávio Bolsonaro
Em nota, a Rede Xingu+, que reúne 53 organizações de povos indígenas, comunidades ribeirinhas e entidades da bacia do rio Xingu, afirmou que a Apyterewa “está em uma situação de grande vulnerabilidade, cercada de pessoas e grupos que não aceitam a desintrusão e querem a terra e os recursos que são dos Parakanã por direito”.
O que Flávio Bolsonaro promete
O plano de governo do senador Flávio Bolsonaro prevê revisar o papel do Ibama, da Funai e do ICMBio, além de abrir espaço para a exploração de gás por fracking, a mesma agenda que, na avaliação de investigadores ouvidos na reportagem, alimenta a expectativa dos invasores.
Do outro lado, o Ministério dos Povos Indígenas sustenta que “todas as terras indígenas que passaram por operações de desintrusão contam com atividades contínuas de proteção territorial” e que foram elaborados Planos de Manutenção de Desintrusão com medidas de segurança, inspeção e monitoramento. Desde 2023, o governo federal realizou operações de retirada de invasores em 11 terras indígenas: Alto Rio Guamá, Karipuna, Kayapó, Araribóia, Munduruku, Sai Cinza, Trincheira Bacajá, Apyterewa, Yanomami, Uru-Eu-Wau-Wau e Sararé.
O próprio Ibama reconhece a fragilidade da estrutura de fiscalização depois do fim das grandes operações: o efetivo, as aeronaves e os equipamentos disponíveis durante a desintrusão não permanecem no mesmo volume.
O gado que sai da terra indígena e chega ao prato

Há um elo dessa história que quase nunca aparece nas matérias sobre a Amazônia: o gado criado ilegalmente na Apyterewa foi comprado por frigoríficos.
Um levantamento da ONG americana EIA (Agência de Investigação Ambiental) mostrou que, entre janeiro de 2020 e o início de 2023, a JBS comprou animais vindos de fazendas ilegais dentro da terra indígena. A FriGol também teria recebido animais de propriedades usadas para burlar a fiscalização ambiental.
Os números dão a dimensão do esquema. A agência de defesa agropecuária do Pará, a Adepará, emitiu 217 guias de trânsito animal para o transporte de 11.757 bovinos a partir de 58 fazendas ilegais dentro da Apyterewa, e a própria agência havia registrado essas propriedades. Como demonstrou a Agência Pública, o gado passava por fazendas intermediárias antes de chegar ao abatedouro, no mecanismo conhecido como “triangulação” ou “lavagem” de gado, que serve justamente para escapar do monitoramento.
Procuradas, a JBS afirmou ter bloqueado as propriedades citadas e disse que as compras feitas até então estavam em conformidade com o Protocolo Boi na Linha, do MPF com o Imaflora. A FriGol declarou que “a sustentabilidade está no centro de sua estratégia de negócios” e que “não tolera qualquer tipo de desrespeito às comunidades indígenas, ao meio ambiente e à legislação nacional”.
Para o coordenador de políticas de commodities da EIA, Rick Jacobsen, o problema é estrutural: um sistema que monitora apenas fornecedores diretos não resolve nada, e ainda ensina quem desmata a escapar, bastando empilhar camadas na cadeia de suprimentos entre a fazenda ilegal e o abatedouro.
O que está em jogo no dia 25
A Apyterewa é hoje um teste de aritmética política simples. O território levou três anos, centenas de agentes e duas operações fracassadas (em 2013 e 2017) para ser recuperado. Ameaças registradas em áudio, incêndios multiplicados por 24 em três meses e nove ataques armados em menos de dois anos mostram o que acontece quando a presença do Estado diminui, e o que se anuncia para depois de 25 de outubro.
A pergunta que os Parakanã fazem, e que nenhum candidato respondeu até agora, é a mais direta de todas: quem garante que a floresta que sobrou continue de pé no dia 26?