42,2°C. Não é a sensação térmica divulgada na previsão do tempo da TV, é a temperatura real que bateu na superfície do Complexo do Alemão na última sexta-feira. Enquanto o Rio de Janeiro vende cartões postais ensolarados, o Observatório de Favelas e institutos de pesquisa confirmam o que a pele de quem vive no território já sente na prática: a favela virou um “arquipélago de calor”, uma ilha de concreto fervendo isolada termicamente das áreas que desfrutam da brisa e da sombra.
A disparidade térmica escancara a desigualdade geográfica da cidade. Dados recentes apontam que a diferença de temperatura entre comunidades da Zona Norte e bairros arborizados como Gávea ou Jardim Botânico varia brutalmente entre 6°C e 12°C. A matemática é simples e cruel: onde há árvore, há regulação térmica; onde só existe cimento, o calor fica aprisionado. No Alemão, a cobertura vegetal rasteja em insignificantes 0,3% da área, um abismo de distância dos 30% recomendados para se viver com o mínimo de conforto ambiental e saúde.
Não é só clima, é urbanismo excludente
Esse fenômeno não é um acaso da natureza, é resultado direto de décadas de um planejamento urbano que concretou a periferia sem projetar o pulmão de quem vive nela. O solo exposto e a densidade das construções absorvem a radiação solar durante o dia e a liberam lentamente à noite, impedindo que o território esfrie. Isso transforma a noite de sono do trabalhador em uma batalha contra o suor e joga a produtividade e o bem-estar da população lá embaixo.
Encarar o calor extremo na favela exige mais do que improviso ou ar-condicionado ligado no máximo — o que só aumenta uma conta de luz já pesada. É preciso tratar a arborização e o resfriamento do território como obra de infraestrutura básica, com a mesma urgência que se discute saneamento ou asfalto. O direito à cidade passa obrigatoriamente pelo direito a uma temperatura suportável, porque ninguém deveria ter sua saúde comprometida simplesmente pelo CEP onde mora.