Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Clima

Arquipélago de fogo: Por que o Alemão ferve a 42°C enquanto a zona sul respira

42,2°C. Não é a sensação térmica divulgada na previsão do tempo da TV, é a temperatura real que bateu na superfície do Complexo do Alemão na última sexta-feira. Enquanto o Rio de Janeiro vende cartões postais ensolarados, o Observatório de Favelas e institutos de pesquisa confirmam o que a pele de quem vive no território já sente na prática: a favela virou um “arquipélago de calor”, uma ilha de concreto fervendo isolada termicamente das áreas que desfrutam da brisa e da sombra.

A disparidade térmica escancara a desigualdade geográfica da cidade. Dados recentes apontam que a diferença de temperatura entre comunidades da Zona Norte e bairros arborizados como Gávea ou Jardim Botânico varia brutalmente entre 6°C e 12°C. A matemática é simples e cruel: onde há árvore, há regulação térmica; onde só existe cimento, o calor fica aprisionado. No Alemão, a cobertura vegetal rasteja em insignificantes 0,3% da área, um abismo de distância dos 30% recomendados para se viver com o mínimo de conforto ambiental e saúde.

Não é só clima, é urbanismo excludente

Esse fenômeno não é um acaso da natureza, é resultado direto de décadas de um planejamento urbano que concretou a periferia sem projetar o pulmão de quem vive nela. O solo exposto e a densidade das construções absorvem a radiação solar durante o dia e a liberam lentamente à noite, impedindo que o território esfrie. Isso transforma a noite de sono do trabalhador em uma batalha contra o suor e joga a produtividade e o bem-estar da população lá embaixo.

Encarar o calor extremo na favela exige mais do que improviso ou ar-condicionado ligado no máximo — o que só aumenta uma conta de luz já pesada. É preciso tratar a arborização e o resfriamento do território como obra de infraestrutura básica, com a mesma urgência que se discute saneamento ou asfalto. O direito à cidade passa obrigatoriamente pelo direito a uma temperatura suportável, porque ninguém deveria ter sua saúde comprometida simplesmente pelo CEP onde mora.

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Joildo Santos
ESCRITO POR

Joildo Santos

Comunicador e fundador do jornal Espaço do Povo, em Paraisópolis, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras. CEO da CRIA S/A e presidente do Instituto Crias, é referência em comunicação de impacto social, conectando marcas, organizações e empreendedores da periferia para gerar oportunidades, renda e novos imaginários sobre as comunidades.

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