Trinta e duas famílias do Agreste pernambucano viram a chuva transformar suas casas em monte de lama e telhas quebradas entre sexta e sábado. As cidades mais atingidas foram Calçado, Jucati e Jupi, onde pontes rurais cederam, estradas viraram córrego e comunidades ficaram isoladas.
Em Calçado, a ponte de concreto que liga o centro ao povoado Caiçara não resistiu à correnteza e desabou na noite de sexta. Com o corte, oito famílias perderam o acesso de carro e agora dependem de barco improvisado para cruzar o rio. A prefeitura montou barraca de lona no campo de futebol e distribui colchões, cesta básica e água mineral. A Secretaria de Saúde deixou ambulância de plantão 24h para atender hipertensos e diabéticos que não conseguem chegar à unidade.
O Departamento de Estradas de Rodagem (DER) trabalha desde a madrugada de sábado na PE-158 para abrir um desvio de terra. Por volta das 2h conseguiu liberar passagem para caminhões, mas o tráfego segue lento porque a pista improvisada tem menos de quatro metros de largura. Técnicos do órgão já começaram o projeto de uma ponte provisória de metal, mas admitem que a obra pode levar até 20 dias se o tempo continuar instável.
Jucati teve o maior número de desabrigados: 21 famílias. A chuva começou às 19h de sexta e, em três horas, desceu 92 mm, volume que a Defesa Civil classifica como “evento extremo” para a região. A enxurrada arrastou cercas, invadiu casas de taipa e deixou a PE-182 interditada. O DER conseguiu abrir um contorno na madrugada, mas o barro ainda invade a pista toda vez que chove forte. Motoristas relatam que é precário: quem entra de carro pequeno arrasta o para-choque no chão.
Em Jupi, o estrago se concentrou na zona rural. Oito famílias de agricultores perderam telhado ou tiveram parede de barro derretida. A produção de feijão e milho, que estava a 15 dias da colheita, foi coberta por lama. O prejuízo médio é de R$ 6 mil por propriedade, valor que representa quase três meses de renda para quem vive da roça. A Defesa Civil distribuiu lonas plásticas, mas ainda não há previsão de auxílio financeiro do governo estadual.
A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia indica novas pancadas de até 50 mm para esta segunda. Moradores de áreas de risco temem repetição do mesmo cenário: estradas intransitáveis, casa invadida por água barrenta e crianças sem aula porque as escolas viraram abrigo. Enquanto isso, caminhões de terra e brita seguem chegando, mas a reclamação é comum: “chega cedo, mas não tem pedreiro pra fazer ponte de madrugada”, diz Dona Maria, 62, que perdeu o quintal na enxurrada.