Paradoxo do desapego: Quando soltar é ganhar

Tem coisa que só acontece quando a gente não está mais pedindo. Montaigne (filosofo, séc. XVI) com sua marra de filósofo experiente e provavelmente cansado de ver gente desesperada atrás do inalcançável, já dizia: é quando largamos que as coisas vêm. Simples assim. E, ao mesmo tempo, incrivelmente difícil de aceitar.
O paradoxo do desapego parece até pegadinha da existência. Quanto mais você deseja algo — seja amor, aceitação, reconhecimento, sucesso ou aquela bendita paz interior que todos os coachs vendem em cápsulas — mais estes objetos de desejos parecem brincar de esconde-esconde. E aí, no dia em que você suspira e pensa: “Cansei, não vou mais atrás”, pronto, como mágica, a realização vem bater na sua porta.
É estranho, parece ilógico. A gente foi educado a achar que basta se esforçar bastante que tudo se resolve. Mas a verdade é que algumas coisas da vida não vêm na base do suor, da insistência ou do controle. Elas simplesmente não se deixam capturar por quem corre demais atrás.
Montaigne não falava somente do desejo de agradar os outros ou de paixões, mas de um movimento mais profundo: o de querer possuir a vida, dominar o destino, segurar o tempo nas mãos. Queremos segurança, queremos ter certeza do futuro, queremos que as pessoas fiquem, que as oportunidades apareçam, que as respostas venham depressa. Só que quanto mais apertamos, mais escapa.
É como quando tentamos dormir e ficamos repetindo mentalmente “preciso dormir, preciso dormir, preciso dormir”. Resultado? Uma angústia formada e Insônia garantida. Só vem o sono quando desistimos de forçá-lo. O mesmo vale para a alegria que não se fabrica, para os encontros que não se insistem, para os sonhos que nascem no silêncio e não na pressa.
Desapegar, então, não é desistir ou virar cínico. Não é abandonar os desejos ou cruzar os braços esperando que tudo caia do céu. É só dar um passo atrás. Parar de sufocar a vida com as nossas urgências e controlar o incontrolável. Montaigne diria: cultive, deseje, sim, mas depois solte.
O mistério está aí: quando finalmente soltamos, quando aceitamos que o tempo tem seu próprio ritmo e as coisas a sua própria vontade, elas muitas vezes voltam — ou se transformam em algo ainda melhor.
O desapego é um paradoxo, sim. E talvez seja por isso que, quando você para de caçar felicidade, ela aparece sem fazer barulho. Só entra e senta no sofá como quem sempre esteve ali.
Psicóloga Clínica, especialista em Psicologia Positiva e Ciência do bem estar e autorrealização. CRP 6/124208