Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 3 de março de 2026
Gideão Idelfonso

Sair ou ficar na favela

Crédito: Freepik

Um assunto que aparece na roda de amigos é o assunto “sair ou ficar na favela”, alguns com opiniões diferentes e fortes como a de que alguns moradores ficam, pois são assistidos diariamente por Organizações do Terceiro Setor e consequentemente não pensam em mudar sua realidade conformada, aparecem.  

Argumentos do tipo são generalizadores e preconceituosos, se cria uma mentalidade que o favelado não pode ter ou não tem perspectivas de melhorar a sua realidade e de seus familiares de dentro ou de fora. A quem queira sair e os que queiram ficar, ambas opiniões devem ser respeitadas e serão consideradas neste breve texto sobre minha ótica de experiência.

Um fator que faz com que os moradores permaneçam ou queiram permanecer é o sentimento de pertencimento. Esse sentimento é uma ligação psicológica e afetiva entre o morador e a favela, em que o indivíduo se vê como parte de uma comunidade. A permanência na favela faz sentido, pois encontram em comum histórias e vivências compartilhadas, você não é um simples morador… compartilha lealdade, respeito, dores, amores, signos em comuns, um espaço fértil que nutre e reconstrói todos os dias essa sensação de pertencimento do local. 

Outro movimento que faz com que um indivíduo saia da favela é a insegurança, evidente que quando o assunto é “violência” cada favela possui sua particularidade, mas todas em maior ou menor grau tem esse problema como uma realidade que distorce a normalidade cotidiana. É comum se deparar com dezenas de policiais em uma manhã dentro de sua rotina habitual com suas metralhadoras, fuzis e pistolas caminhando pela favela ou eventualmente se deparar com uma troca de tiros em que você de nada tem haver. Na favela o jogo pode virar e a normalidade ser distorcida em poucos segundos.

A facilidade que a favela proporciona também é um fator que faz o morador permanecer, ideias como “a favela não dorme” ou “é possível 24h encontrar produtos para o consumo ou diversão” são fatores presentes nessa decisão. Nas grandes favelas pelo brasil é possível encontrar agências bancárias tradicionais, assistência odontológica, entre outros benefícios que antigamente precisaria sair da favela para se obter. 

A privacidade e a convivência com o caos urbano e o aspecto financeiro são aspectos determinantes para aqueles que quando melhoram financeiramente procuram locais mais organizados e silenciosos, existe o oposto nesse jogo os que preferem continuar na favela, pois financeiramente é mais viável morar e viver. 

Por tanto sair da favela se imagina que pode gerar uma maior segurança, privacidade, sossego e silêncio, é um conjunto de fatores insatisfatórios que levam a escolha de sair desses territórios. Por outro lado, se deve pensar e lutar por melhores condições de vida, sombra e água fresca para os que ficam. A qualidade de vida deve chegar para os que saem e para os que permanecem. Por fim, aos que me leem deixo uma dica: a mudança é a única constante, a única certeza, mesmo que isso por vezes tenha que partir de nós mesmos.

Como você se sente sobre isso?
Gideão Idelfonso
ESCRITO POR

Gideão Idelfonso

Cria de Paraisópolis, bacharel em Lazer e Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Pesquisador com foco na periferia e sua dialética com o Lazer e Turismo. Teve contato com projetos de impacto social em Paraisópolis e em áreas da Zona Leste.

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