Quem passa pela porta da Faculdade de Filosofia da USP encontra moradores de rua que, três vezes por semana, viram professores de um projeto chamado Ação Educativa. Eles falam sobre como driblar fome, frio e violência para alunos de graduação que precisam entender o que significa viver na rua.
A professora Janice Theodoro coordena o encontro. Ela chama os participantes de “agentes secretos” porque o conhecimento deles costuma ficar invisível. “Eles sabem onde achar água limpa, quais postos distribuem remédio, onde dormir sem levar porrada”, diz. São 18 informações que nenhum mapa mostra.
O projeto nasceu em 2019, quando alunos relataram que nunca haviam pisado em uma ocupação ou cortiço. A solução foi inverter o jogo: quem vive na rua veio para dentro da universidade contar como se organiza. O resultado virou disciplina de extensão com 30 vagas por semestre e fila de espera.
Dona Maria, 52 anos, mora sob o viaduto da Praça Roosevelt há quatro. Ela ensinou a turma a fazer sopa com ossos doados pelo mercado e folhas de taioba colhidas no canteiro da avenida. “Ninguém acredita que dá pra alimentar seis pessoas com meio quilo de osso e um punhado de verdura”, conta. Depois da palestra, estudantes montaram ponto de distribuição de marmitas no largo do Cambuci.
O impacto chegou às periferias. Grupos de jovens de Cidade Ademar e Jardim Ângela replicam os encontros em praças e escolas públicas. A ideia é simples: convidar quem vive na rua para contar rotas de sobrevivência e, em troca, oferecer banho, roupa lavada e R$ 50 em dinheiro. No último ano, foram 92 “aulas de rua” só na zona sul.
Para Janice, o maior ganho é quebrar o medo. “Quando o aluno escuta a história do outro, perde a vontade de chamar a guarda e começa a chamar para comer um arroz junto”, afirma. O projeto agora busca parceria com prefeituras para levar os “agentes secretos” para palestrar em Centros de Referência da Assistência Social de todo estado.