Flávia Teodoro Alves, professora da rede pública na Brasilândia, zona norte de São Paulo, publicou dois livros de poesia em dois anos. A obra mais recente, Toda reza é tentativa de telecinese, ganhou tradução para o espanhol e levou a escritora à semifinal do Prêmio Loba Festival 2024, principal premiação nacional dedicada a autoras.
A poeta de 43 anos nasceu em Santana e cresceu entre becos e vielas da Brasilândia. Começou a escrever aos 14, usando cadernos com capa de fichário para registrar o cotidiano que via na rua. “A literatura foi minha forma de entender por que ônibus lotado é normal pra gente e artigo de luxo pra eles”, diz.
O diagnóstico de autismo com TDAH e altas habilidades, recebido apenas aos 40, abriu uma nova janela. “Entendi por que sempre senti o mundo em volume 10. Isso virou material literário”, conta. O primeiro livro, Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo, reúne sete anos de poemas que falam em voz alta sobre identidade, feminismo e vida em área periférica.
Formada em Educação Artística e mestra em Artes pela Unesp, Flávia leciona há 20 anos em escolas municipais. Nas tardes livres, leva oficinas de poesia a jovens do bairro e transforma versos em performances nos cruzamentos da Estrada de Taipas. “Minha missão é mostrar que a quebrada produz conhecimento valioso, não só dados para pesquisa de gente de fora”, afirma.
O novo romance, Memórias Cintilantes de uma Cerejinha, deve sair no segundo semestre. A obra mistura ficção e fantasia para contar a história de uma menina que descobre ter superpoderes sempre que sente cheiro de chuva no asfalto quente. O lançamento será acompanhado de uma roda de conversa gratuita na Biblioteca Parque Hortolândia, com distribuição de 50 exemplares a alunos da rede pública.