“Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro.” — Carl Gustav Jung
Casos como o de Jeffrey Epstein ou a tragédia recente do pai que tirou a vida dos próprios
filhos evidenciam a predominância de um Poder que sufoca o Amor. O poder atua como
uma toxina: ele nos embebeda com um senso distorcido de grandeza e auto importância,
levando-nos a crer que somos inerentemente superiores ou mais valiosos que o próximo.
O Zeitgeist — o espírito da nossa época — nos convenceu de que prestígio é sinônimo de
afeto. Esse prestígio costuma vir acompanhado de símbolos de poder e da manutenção do
status quo, o que, na prática, significa que “dependendo de quem você é na fila do pão,
você não precisa pegar fila”, já que as regras não se aplicam a você. Assim, ter prestígio é
gozar de privilégios, e esses privilégios são frequentemente confundidos com apreço e
admiração.
Essa confusão pode explicar a nossa busca incessante por se tornar importante e influente
nos dias atuais. Afinal, ser influente altera a ordem das coisas, acelera resultados e derruba
barreiras. No inconsciente coletivo, opera uma lógica que dita o seguinte caminho para o
“amor”:
Poder ➡️ Prestígio ➡️ Privilégios ➡️ Admiração ➡️ Amor
Essa equação sugere uma conclusão: se eu detiver Poder suficiente, poderei comprar o
Amor.
Talvez seja por isso que, ao longo da vida, fazemos escolhas que sacrificam o afeto em prol
da ascensão. Frases como: “Agora não, o papai está ocupado com algo importante”; “Não
posso focar em relacionamentos agora, preciso focar na carreira”; “Essa pessoa não serve,
ela não me projeta para onde quero chegar”, são comuns ao nosso cotidiano.
Aprendemos, erroneamente, que o Amor é o último estágio, algo a ser alcançado apenas
quando formos “dignos” dele por intermédio do Poder. Mas, como Jung alertou, a busca
pelo poder aniquila o amor. O que sobra é apenas o desejo de controlar o outro. Quando
esse controle é ameaçado, o recurso seguinte costuma ser a força ou a violência. A
conclusão amarga é que, talvez, ainda não saibamos amar sem a sombra do domínio.