Cinema não é apenas entretenimento; é ferramenta de guerra contra o silêncio. O filme brasileiro “Manas”, dirigido por Marianna Brennand, acaba de ser indicado ao Prêmio Goya, o Oscar do cinema espanhol, na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano. Mas não se engane: o tapete vermelho aqui serve para iluminar uma das realidades mais brutais e negligenciadas do nosso país: a exploração sexual infantil na Ilha do Marajó.
A produção coloca o dedo na ferida que muitos preferem ignorar. Ao narrar a história de Marcielle, uma jovem de 13 anos que decide confrontar a engrenagem de abuso que envolve as balsas e as famílias ribeirinhas, o filme faz o que a política pública muitas vezes tarda a fazer: dá nome, rosto e urgência ao problema. Não estamos falando de casos isolados, mas de um sistema que opera nas margens, onde a ausência do Estado cria vácuos preenchidos pela violência.
Visibilidade que incomoda e transforma
Essa indicação internacional não é apenas um prêmio para a estante da cultura nacional. É estratégia de visibilidade. Quando uma narrativa sai do território e ganha as telas da Europa, ela volta como pressão política e social. O filme expõe como a violência de gênero e a exploração de menores são naturalizadas em regiões onde o desenvolvimento econômico ainda engatinha e a vulnerabilidade social é explorada como moeda de troca.
Para a nossa gente, ver essa história contada com a qualidade técnica e a sensibilidade de “Manas” é a prova de que nossas narrativas, mesmo as mais dolorosas, precisam ser protagonistas. O elenco, que mistura atores consagrados como Dira Paes com talentos locais, reforça a potência de quem vive a realidade. O filme não pede favor, ele exige atenção. E agora, com os holofotes do Goya, o mundo inteiro vai ter que olhar para o Marajó.
“A arte entra onde o Estado falha. Levar a realidade do Marajó para o Goya não é só sobre cinema, é sobre forçar o mundo a encarar um Brasil que morre em silêncio. Proteger nossas meninas não é assistência, é a base de qualquer projeto de país sério.” — Joildo Santos