Tribunal mantém, por unanimidade, decisão sobre distribuição de conteúdo político após reclamações envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro; empresa nega favorecimento e atribui problemas a falhas técnicas.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, por unanimidade, na sexta-feira (16), manter uma ordem que impede a Meta, responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, de aplicar determinadas restrições à distribuição de conteúdos de candidatos à Presidência da República. A medida foi tomada após a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) denunciar supostos problemas de alcance e tratamento desigual nas plataformas.
A decisão estabelece multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento e ocorre durante o segundo turno da eleição presidencial, disputado entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), marcado para 25 de outubro.
A Meta nega interferência política e afirma que os episódios relatados decorreram de falhas técnicas, ajustes de segurança e cumprimento das regras eleitorais.
A existência de uma decisão judicial para prevenir tratamento desigual não significa, por si só, que tenha sido comprovada uma manipulação deliberada da eleição.
O que o TSE proibiu a Meta de fazer?
A decisão foi inicialmente tomada pelo ministro Marco Aurélio Bellizze e confirmada pelo plenário do Tribunal.
A determinação atinge medidas como redução da distribuição, exclusão de recomendações e restrições de buscas envolvendo conteúdos eleitorais, dentro dos limites estabelecidos judicialmente.
A finalidade é evitar que mecanismos das plataformas prejudiquem a circulação regular de conteúdos de candidatos durante a disputa presidencial.
A multa de R$ 500 mil por dia foi estabelecida como instrumento para exigir o cumprimento da decisão.
O caso levanta uma questão relevante: o alcance das mensagens políticas não depende apenas da quantidade de seguidores, mas também de sistemas automatizados que decidem quais publicações aparecem para cada usuário.
Por que a campanha de Lula acionou a Justiça?
Em 14 de outubro, a campanha de Lula apresentou reclamação ao TSE alegando que ferramentas da Meta estariam tratando de maneira diferente conteúdos relacionados aos dois presidenciáveis.
Entre os episódios apontados estava o funcionamento da Meta AI, assistente de inteligência artificial presente nos serviços da empresa.
Segundo a denúncia, determinados comandos relacionados à criação de imagens eleitorais de Lula eram bloqueados, enquanto solicitações envolvendo Flávio Bolsonaro conseguiam gerar resultados.
A campanha também questionou problemas na distribuição e no impulsionamento de publicações.
O impulsionamento é a contratação de distribuição paga de um conteúdo, sujeita às regras específicas da propaganda eleitoral.
O que a Meta respondeu às acusações?
Em comunicado publicado em 16 de outubro, a Meta afirmou que não favorece candidatos nem interfere deliberadamente nas eleições brasileiras.
A empresa reconheceu incidentes técnicos, mas contestou a interpretação apresentada pela campanha petista.
Segundo a Meta, em 23 de setembro uma conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada por engano por pouco mais de uma hora. A companhia afirmou que a ocorrência estava relacionada a mecanismos de prevenção de fraudes.
A empresa também reconheceu uma falha global no Gerenciador de Anúncios em 9 de outubro, que dificultou temporariamente a criação de anúncios a partir de publicações já existentes no Instagram.
De acordo com a Meta, o problema foi corrigido após a reversão de uma atualização de código e também afetou anunciantes de outros países.
Sobre a inteligência artificial, a companhia reconheceu uma falha na identificação de comandos que combinavam o primeiro nome de um candidato com seu número eleitoral.
A empresa afirmou que corrigiu o problema em 14 de outubro.
Essas são explicações apresentadas pela própria Meta e não encerram, automaticamente, as controvérsias examinadas pela Justiça.
Flávio Bolsonaro também apresentou reclamações
A disputa judicial não ficou restrita à campanha de Lula.
A equipe de Flávio Bolsonaro também procurou o TSE e relatou problemas relacionados à circulação de conteúdos eleitorais.
A campanha do candidato do PL questionou anúncios negativos e solicitou providências contra publicações que considera irregulares.
As manifestações das duas candidaturas mostram que o funcionamento da moderação digital passou a ser objeto de disputa durante a eleição.
O fato de ambas apresentarem reclamações não demonstra que sofreram prejuízos equivalentes. Cada alegação depende de provas e análise própria.
Como os algoritmos podem influenciar o que o eleitor vê?
As redes sociais não apresentam necessariamente todas as publicações na ordem em que foram produzidas.
Sistemas automatizados selecionam conteúdos com base em diferentes sinais, como interações anteriores, características das publicações e padrões de utilização.
Isso significa que duas pessoas que seguem os mesmos candidatos podem receber conteúdos bastante diferentes.
É importante separar três situações.
A primeira é a moderação, quando uma plataforma remove ou restringe material por regras internas ou determinação legal.
A segunda é a distribuição algorítmica, responsável por decidir a visibilidade das publicações.
A terceira é o impulsionamento pago, no qual anúncios são distribuídos mediante pagamento e conforme as regras da legislação eleitoral.
Esses mecanismos podem afetar a circulação de informações políticas. No entanto, demonstrar uma interferência eleitoral deliberada exige evidências sobre o funcionamento dos sistemas, suas decisões e os efeitos concretos das medidas adotadas.
Por que a transparência das plataformas importa?
O problema vai além das campanhas presidenciais.
Pequenos veículos de comunicação, comunicadores comunitários, criadores de conteúdo e organizações que dependem das redes sociais também podem sofrer consequências quando publicações perdem alcance ou contas são suspensas sem explicações claras.
Em territórios onde o celular é um dos principais meios de acompanhar notícias, medidas automatizadas podem afetar o acesso à informação.
Isso reforça a importância de mecanismos transparentes de contestação, prestação de contas e aplicação de regras equivalentes.
A discussão envolve tanto a integridade eleitoral quanto a liberdade de expressão e o direito dos usuários de compreender decisões que afetam suas publicações.
A Meta interferiu na eleição de 2026?
Até a decisão de 16 de outubro, as informações públicas demonstravam a existência de reclamações judiciais, incidentes técnicos reconhecidos pela empresa e medidas preventivas determinadas pelo TSE.
Não havia, na decisão citada, conclusão de que a Meta tivesse manipulado deliberadamente os sistemas para favorecer um candidato.
A controvérsia segue relevante porque envolve o papel de empresas privadas na circulação de conteúdo político.
Até o segundo turno, a fiscalização das plataformas e o cumprimento das decisões judiciais permanecem parte da atuação da Justiça Eleitoral.