Oito em cada 100 trabalhadores brasileiros com carteira assinada estão em uso de medicamentos para ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais. As mulheres respondem por 65% desses casos, segundo levantamento com 1,1 milhão de registros de empresas de todos os portes.
O estudo cruzou dados de folha de pagamento e de planos de saúde corporativos de 2023. O resultado mostra que o problema atinge com força quem ganha até dois salários mínimos, faixa em que o uso de remédios chega a 11%. Entre os que ganham acima de dez salários, a taxa cai para 3%.
Psiquiatras e psicólogos ouvidos no relatório apontam duas razões principais: sobrecarga emocional no trabalho e medo de perder o emprego. “A mulher da periferia ainda acorda 5h para deixar os filhos na creche, enfrenta ônibus lotado, ouve patrão reclamando de produtividade e volta para casa tendo que cuidar da casa. O corpo pede química para aguentar”, resume a técnica de enfermagem Ana Paula Silva, 38, moradora de Jardim São Luiz, na zona sul de São Paulo.
Para quem vive de salário em salário, o desafio dobra na hora de pagar o remédio. O antidepressivo mais barato custa cerca de 30 reais por mês; o de referência passa dos 200. Quem não tem plano de saúde depende do SUS, mas as unidades básicas das periferias enfrentam falta de psiquiatras. Em São Paulo, a Prefeitura abriu 120 novas vagas para especialistas em 2024, ainda insuficientes para atender a demanda reprimida.
O Ministério do Trabalho prepara uma portaria para obrigar empresas acima de 100 funcionários a divulgar internamente canais de apoio psicológico e permitir atendimento sem desconto no banco de horas. A medida deve sair em julho. Enquanto isso, cooperativas como a Rede Mulheres da Maré, no Rio de Janeiro, montam rodas de conversa e cursos de autocuidado para trabalhadoras informais. “A gente ensina respiração, direito ao descanso e como pedir ajuda. Quando a gente se organiza, a crise diminui”, diz a coordenadora da cooperativa, a ambulante Marlene Alves, 45.